Capítulo 10


Pilar



Eu não deveria ceder ao seu pedido, não deveria ficar aqui enquanto sente dor. Mas, ainda que eu saiba que devo me levantar e sair correndo, algo nele me faz atender e não me mover.

— Zander? — murmuro seu nome, conforme ele usa a outra mão para friccionar sua coxa com mais e mais vigor. Seus lábios comprimidos numa linha fina, a mandíbula rígida e as veias saltadas de seu pescoço não escondem o que sente. Ao contrário, deixam bem claro que seja lá o que for é muito doloroso.

— Não posso ficar aqui olhando — falo, tirando sua mão da minha e me levantando.

— Por favor! — implora ele. Paro ao ouvir sua voz como uma súplica desalentada. Giro meu corpo e o encaro, sem abranger como ele pode rogar por não ajuda.

— Então me diz o que está sentindo.

— Minha perna dói, é só isso. — Ele tenta fazer parecer menos do que é, mas sua face mostra que é muito mais do que isso.

— Qual perna? — A pergunta salta dos meus lábios ao vê-lo segurar a prótese.

— A que não existe mais. — É límpido o rancor em suas palavras. Volto até ele e sem cerimônia ou embaraço começo a puxar a barra de suas calças para cima, exibindo o metal da prótese, e é só isso o que tem aqui, metal. Ele nota a confusão estampada no meu rosto porque um riso curto escapa de seus lábios em meio a mais gemidos.

— Me pergunto o mesmo — murmura, entredentes.

Desisto de chamar Suria e fico com ele no chão por volta de uns trinta minutos, é mais ou menos o tempo que demora para que ele consiga se levantar sem dor.

De pé, Zander suspira passando as mãos pelo rosto e cabelo para se recompor. Ele ergue o pé com a prótese, elevando-o uns dez centímetros para a seguir bater no chão com alguma força. Testando a prótese, ou membro, ou a dor, eu não sei dizer.

— Não dói mais? — pesquiso.

Ele acena com a cabeça em negativa.

— Você sempre tem essas dores? — Sei que talvez não devesse fazer tal questionamento, ele não parece ser o tipo de homem que divide seus dilemas com alguém, mas a curiosidade é mais forte que eu.

— Desculpe por fazê-la…

— Não tem do que me pedir desculpas. Suria sabe?

— Não! E pretendo que continue assim. Se ela descobrir… meus pais saberão no minuto seguinte.

Preciso dominar minha língua para não disparar uma infinidade de perguntas, tais como: Por que seus pais não podem saber? Como você perdeu sua perna? Quanto tempo faz? Por que está sentindo dor e o que fará se ela voltar?

— Desculpe se te assustei, eu… — começa a dizer, após um longo suspiro.

Quando acordei estava decidida a evitar qualquer interação com ele que não fosse sobre o trabalho na fazenda. Estava preparada para mostrar-lhe a fábrica e esperar pela obra pronta sem que precisássemos estreitar laços. No entanto, assistindo a esse olhar de quem está perdido, de quem não tem a menor ideia de para que lugar ir, com quem ir ou por que ir. Como se sua vida estivesse totalmente fora do prumo, como se seu destino tivesse sido jogado pela janela e ele não soubesse como recuperá-lo, algo em mim se compadece e comove.

— Não precisa se desculpar. Fico mais tranquila que está bem — sussurro as palavras, estremecida por seus olhos brilhantes. E contrariando o que havia planejado, digo: — Vamos almoçar e beber alguma coisa?

Incerto, ele pensa alguns segundos, mas aceita. Zander caminha devagar para o carro. Ele não tem o mesmo andar de uma pessoa com as duas pernas, é como se uma delas fosse mais pesada que a outra e demandasse mais esforço para mexê-la.

Será que pode ser isso a causa dessa dor, esforço por carregá-la? Não! Seu porte físico denota que o peso da prótese não faria tanta diferença, e mesmo assim, hoje em dia essas próteses são feitas de metal leve. Então, o que pode ser?

— Vocês demoraram! — Pina e Pietra reclamam ao passarem correndo por mim e Zander.

Ando com ele até os fundos da casa, onde os funcionários da fazenda começam a se reunir com suas famílias para comer e beber ao redor do jatobá com mais de cinquenta anos de idade. Esse espaço pode parecer rústico para alguns, mas para nós, têm tudo o que precisamos.

— Patroa, achei que não vinha — grita Môa ao me ver.

— Estava apresentando a fábrica para Zander — falo, apontando para ele que continua ao meu lado. — Ele é o engenheiro responsável pela construção que em breve nos dará capacidade para produzir muito mais azeite!

Os homens gritam com os braços para o alto e um a um se apresentam para Zander com suas mãos esticadas, ele retribui os cumprimentos um pouco sem jeito. Eles estão tão ansiosos quanto eu para aumentarmos a produção, tirar do papel o sistema cooperativista ajudará a maioria dos microprodutores de Maria da Fé.

— Saúdem o engenheiro que estará a transformar nossa fazenda. — Meu pai surge animado, estendendo sua mão. Zander parece abatido, quem sabe não esteja acostumado com o alvoroço que os rapazes promovem ou sua perna ainda esteja doendo.

— Venhas beber conosco — diz meu pai, arrastando-o para o meio dos homens.

Acompanho-o com o olhar até que esteja sentado entre meu pai e os outros, eles lhe entregam um copo aperitivo e Joaquim derrama o licor de jabuticaba que produz com Madá em sua casa. Zander sorve a bebida e em seguida recebe mais uma dose. Espero que esteja acostumado a beber ou saiba dizer não. Caso contrário, esses homens o embebedarão antes de o sol se pôr.

Repasso o momento em que ele desceu ao chão sentindo dor, visualizando sua expressão desesperada, sua respiração ofegante e a maneira como segurou minha mão. Para afastar o pensamento saio atrás de Dona Gertrudes. Mas assim que entro na cozinha encontro-a abraçada com o João, tento voltar, porém é tarde demais.

— O que quer aqui, menina? — ela ralha comigo, enquanto João se afasta.

— E vocês, o que estão fazendo? — pergunto, perplexa. João não sabe onde enfiar a cara, claramente embaraçado.

— Vou esperar lá fora. — João passa por mim segurando a aba de seu chapéu.

— O que foi isso que eu vi? — Cruzo os braços, encostando no batente da porta.

Ela tira o pano de copa preso no seu avental e diz:

— Em vez de atrapalhar o namoro dos outros, por que não vai arrumar um para você? — rezinga ela, correndo atrás de mim.

— Vim para te ajudar, não para atrapalhar seu namoro — rebato, gargalhando ao conseguir tirar o pano de suas mãos. — Mas agora quero saber como anda esse namoro.

Ela ignora minha pergunta, tirando do armário uma garrafa de vinho, uma das melhores e mais antigas da fazenda.

— Uau! Por que separou essa garrafa? — Apesar desses vinhos pertencerem a meu pai, é ela quem os controla e decide quem é merecedor de uma taça.

— Vá arrumar um namorado para você. Beba com o sobrinho bonitão de Suria. Leve uma taça bonita — diz, entregando-me a garrafa e duas das nossas melhores taças.

— Sério isso? — Devolvo a garrafa, rindo de seu atrevimento.

— Por que não? — Ela apoia as mãos na cintura e inclina a cabeça.

— Não vem com ideia. Não. Não! — respondo e volto para os fundos.

Sirvo-me com um pouco de galinhada e observo as meninas brincando e comendo. Sento-me ao lado de Suria que sentinela meu pai com olhos de lince. Penso se não é melhor eu interferir de uma vez antes que seu coração saia partido.

— O que está olhando? — investigo, como quem não quer nada.

— Coisa nenhuma — responde, disfarçando. Ela sorve um gole do seu refrigerante.

— Suria, sabe onde meu pai estava no aniversário das meninas? — Ela me encara, elevando uma das sobrancelhas, interessada em saber. — Estava nos limites da fazenda, na última colina. Era lá que ele se encontrava com a minha mãe quando começaram a namorar. Era o lugar secreto deles, ela me contou muitas vezes de como fugia dos meus avôs para se encontrar com ele e como aquela colina se tornou o lugar preferido para namorarem.

Suria não expressa reação.

— Ele continua indo até lá… no dia da morte da minha mãe — completo.

— Por que está me contando isso? — pergunta ela, desviando o olhar.

— Porque eu gosto de você e as meninas também. Eu quero que ele siga em frente, que namore de novo, quem sabe se casar novamente. Mas não sei se isso vai acontecer. Se você quiser tentar, seja ciente de como o coração do velho Martim é. Ele pode ser esse português alegre, simpático e cheio de energia, mas nunca esqueceu minha mãe. É por isso que ele desaparece todos os anos no mesmo dia.

Suria baixa a cabeça.

— Vocês querem que ele se case outra vez? — indaga.

— Queremos que ele supere a morte da minha mãe.

— Martim e você são parecidos — aponta ela.

— Todo mundo diz que sou a cara da minha mãe — refuto, enfiando mais uma garfada da galinhada na boca.

— Não estou falando da aparência. Os dois guardaram o coração no fundo de uma gaveta — finaliza, levantando-se.

Suria caminha até os rapazes, ela diz alguma coisa e eles riem. Zander se aproveita da distração e se levanta deixando o copo aperitivo de lado. Quantas doses será que o fizeram beber?

Escolto-o com o olhar e percebo que está vindo até mim. Nossos olhares se cruzam e se sustentam. Sinto minha respiração acelerar a cada passo que ele dá em minha direção.

— Cheguei! — Amara se joga ao meu lado, batendo seus cachos vermelhos em meu rosto.

— Caramba, Amara! — reclamo, tirando os fios presos nos meus lábios.

Zander se detém ao ver Amara, ele intercala seu olhar entre mim e ela.

— Eu nunca consigo vir. No dia em que me programo para fechar a loja mais cedo todas as mulheres de Maria da Fé resolvem comprar lã para tricô — justifica ela.

Meus olhos ansiosos continuam em Zander.

— Por que elas tinham que sair em procissão até a loja hoje?

— Não tem muito tempo estava preocupada com o movimento que tinha baixado — esclareço, assistindo a Zander desistir e voltar para o lugar onde estava.

— Sim, mas elas têm a semana inteira para comprar.

Amara desembesta a falar, contando-me sobre o movimento da loja, perguntando sobre as meninas e meu pai. Depois volta a falar de sua loja, dos seus pais, do clima e todo tipo de assunto. Ela emenda uma frase na outra sem ao menos respirar.

— Não acredito que ele teve coragem de me dizer isso, logo eu que cuido de tudo com tanta dedicação. Não acha um absurdo? — averígua ela.

— O quê? — Distraída, não ouvi os últimos dez minutos de conversa.

— Credo, Pilar! Você me ouviu?

— Desculpa, estava pensando na obra.

— Falando em obra, e o engenheiro onde está?

Volto meu olhar para Zander que sorve mais uma dose. Duvido que ainda estejam lhe dando licor, talvez seja a cachaça com melaço de cana de Môa.

— Está sentado com os homens — respondo, sem apontar para ele.

Amara examina homem a homem, até que um deles lhe chama a atenção.

— Não vai me dizer que é aquele de barba e cheio de músculos?

— É ele — afirmo, comprovando que Zander se destaca entre os outros.

— Não sei se vou conseguir dormir esta noite ou em qualquer outra noite depois dessa visão — murmura com os olhos grudados nele.

— Que exagero, Amara.

— Exagero? Já deu uma boa olhada nos homens da região? Nunca se perguntou por que ainda estamos solteiras? — indaga, cutucando-me com o cotovelo.

— Tenho meu pai, minhas irmãs, a fazenda, não tem espaço para um namorado nesta lista, não tem nada a ver com os homens da região.

— Pois eu estou porque nunca encontrei um homem lindo como esse em Maria da Fé.

— E vai fazer o quê? Vai até lá perguntar se ele quer seu marido? — investigo, revirando os olhos e desdenhando de sua reação.

— Posso? — Ela solta os cabelos que tinha acabado de prender, jogando-os para o lado e fazendo uma pose sexy com a cabeça.

— Deus do céu, Amara! — começo a rir quando vejo o biquinho em seus lábios.

— Jura que não reparou que o homem é supergato, Pilar?

— Ele é bonito — falo, como se não fosse nada.

— Bonito é o Braga quando se arruma para ir trabalhar. Ele — aponta na direção de Zander com o queixo — é lindo. Adoro esse estilo rústico chique dos homens da capital.