Capítulo 11


Zander



Eu não tenho ideia do que estou fazendo, não tenho ideia da razão pela qual saí do meu lugar para cruzar entre essas pessoas e tomá-la em meus braços, dançando uma música em que sequer presto atenção. Talvez seja a quantidade de álcool circulando em meu sistema, talvez essas bebidas artesanais tenham algum outro ingrediente que me cause esse comportamento.

Quando tirei uma mulher para dançar a última vez? Dancei com minha capitã numa das folgas no quartel, mas aquilo não pode ser considerado uma dança, estávamos apostando quem conseguia mover por mais tempo suas cabeças ao som de uma banda heavy metal.

Agora é diferente, eu estou com uma mão em sua cintura, ela está com as mãos em meus ombros. Nos mexemos de um lado para o outro, resvalando de leve nossos corpos. Ela tem o aroma frutado de suas oliveiras; que chega a mim como uma mistura de flor de oliva, pêssego e maçã-verde, é como se ela inteira fosse um jardim frutífero. Seus olhos castanhos imprimem gentileza e calma, ainda que também demonstrem a força de alguém que sabe exatamente o que quer. Ao encará-los, descubro o oposto do que sou hoje. Talvez eles lembrem quem eu era no passado, quando eu também sabia o que queria.

Não gostei de Pilar a primeira vez que a vi, e não entendia o motivo de minha tia chamá-la de encantadora com tanto ardor. Para mim, as gêmeas — com sua esperteza —, são infinitamente mais encantadoras que a irmã mais velha.

Mas os homens não param de falar em como Pilar será capaz de revolucionar esta cidade e como são gratos por tê-la gerenciando a fazenda. Ela é respeitada e admirada por tantos que começo a me questionar se a vi direito. Talvez eu tenha errado, talvez ela seja mesmo tão encantadora como todos bradam.

Pilar sorri, ressaltando as maçãs coradas pelo sol de mais cedo. Seus lábios esticados se movimentam sem que eu me atente ao que ela fala. É só quando uma terceira mão toca em meu ombro é que saio do transe em que eu mesmo me coloquei.

Afasto-me dela e encontro seu pai.

— Espero que arquitetes prédios melhores do que danças, gajo[1] — diz Martim, rindo com a mão em meu ombro. Percebo então que todas as pessoas me observam num círculo ao nosso redor.

— Agora é hora de arrastar o pé nesse gramado até amanhecer — grita o homem cujo nome não me lembro, tocando seu acordeom.

Aceno com a cabeça para Martim e saio da roda para voltar ao meu lugar, sem olhar para Pilar ou qualquer outra pessoa.

— É verdade, eles vão ficar até o amanhecer. Você vai querer ficar? — pergunta minha tia, aproximando-se de mim.

— Não. — Levanto-me, pronto para ir embora.

— Vou me despedir de Martim e Pilar — avisa ela, saindo.

Sigo sozinho em direção ao seu carro. Encontro as gêmeas no caminho.

— Você vai embora? — questiona Pina. Recuperada, ela voltou a ter o mesmo viço de quando a vi pela primeira vez.

Aceno com cabeça dizendo que sim.

— Não liga para o que meu pai falou. Eu gostei da sua dança com Pilar — ressalta Pietra.

— Nem parecia que você não tem uma perna — descreve Pina, com sua sinceridade.

— Acha que faria diferença? — pergunto a ela.

— Não ter perna? — Ela apoia as mãos na cintura e inclina a cabeça.

— Sim, não foi isso o que notou?

Pensativa, ela fecha os olhos antes de me responder:

— Eu acho que sua perna de ciborgue é bem melhor que as pernas de verdade.

— Não ligue para Pina — salienta Pietra, revirando os olhos para o que sua irmã diz.

— Vocês não conversaram comigo hoje. Estavam muito ocupadas?

— É porque nossas amigas estavam aqui — Pina se apressa em esclarecer.

— Eu não sou amigo de vocês?

— É diferente. Com elas a gente pode brincar o dia inteiro — continua Pina.

— Não sou alguém bom para brincadeiras. — Baixo a cabeça, dissimulando aborrecimento.

Nunca pensei que a franqueza das crianças poderia ser algo tão interessante. Se todas são assim, não acharia ruim viver rodeado por elas. O mundo dos adultos é cruel, nos ilude sem compaixão, sem a menor preocupação em destruir nossos sonhos.

Tia Suria aparece carregando sua bolsa e as chaves do carro.

— Meus amores, a tia vai embora. — Tia Suria se abaixa e estala um beijo em cada menina.

Pela janela, observo o caminho escuro em silêncio. Estranhamente, minha tia não diz nada. Ela também parece perdida em seus próprios pensamentos. Agradeço por isso, não saberia o que dizer caso me perguntasse sobre a dança com Pilar, ou sobre o tempo em que passei com ela no olival, ou sobre qualquer outra coisa deste dia.

Rememoro o momento em que implorei que Pilar ficasse comigo no chão da fábrica. Por um instante, toda a dor, o medo e as dúvidas se abrandaram pelo toque suave de sua mão sobre a minha. Era como se tudo não passasse de um pesadelo medonho que desapareceria assim que eu acordasse.

Recosto a cabeça no banco e fecho meus olhos, pensando em como seria se eu tivesse segurado uma mão como a dela quando fiquei preso naqueles escombros. Quando senti minha perna sendo esmagada pelas vigas e toda a vida que eu conhecia ser esmagada também.

Penso em como deve ser bom saber o seu lugar no mundo. Como acordar pela manhã, abrir os olhos e ter a certeza de que está seguindo no caminho certo. Essa não é uma graça compartilhada por todos, imagino que há milhões de pessoas como eu. Que abrem seus olhos sem ter ideia do que fazer da própria vida, sendo levadas pelas correntezas de um rio que não nos revela seu destino.

Assim que entro em casa vou direto para o quarto. Sento-me na cama e ligo para minha mãe, suas mensagens de texto estão cada vez mais chorosas de como seu único filho a esqueceu. Ela esqueceu dos anos em que fiquei no exército e do tempo que passava longe de casa.

— Oi, mãe.

— Está tudo bem? — Sua voz demanda urgência. — Não consegui falar com Suria o dia inteiro e você não respondeu minhas mensagens. Estava preocupada!

— Estávamos na fazenda, chegamos agora.

As duas se falam todos os dias e não há nada que não compartilhem uma com a outra. O que me faz mais atento a não dividir nenhuma das minhas aflições com tia Suria.

— E o trabalho, quando começa?

— Vou finalizar o projeto e começamos. Teremos alguns meses até a colheita. Está tudo dentro do prazo. Eles também vão comprar novos equipamentos — respondo, tentado satisfazer sua sede por informação.

— Estou tão feliz, seu pai também. Depois dessa obra temos certeza de que você vai conseguir muitos outros projetos. Quem sabe abrir um escritório de engenharia? — solta ela, num tom profético.

— Mãe, eu vou tomar um banho e trabalhar um pouco no projeto. Nos falamos depois, tudo bem? — ela resmunga por eu querer encerrar a ligação, mas aceita dizendo que vai ligar para a irmã. Deixo o celular cair sobre a cama e tiro minha roupa e prótese.

Sentado, observo-me no espelho preso à porta do armário. Enquanto encaro meu corpo, penso no que Camile me disse ontem em nossa sessão por vídeo; aprender a cuidar de mim da mesma maneira que fazia antes, e que isso não tem a ver com o tempo em que passo me exercitando, que isso vai além dos meus músculos.

Enxergar minha essência, o cerne que me mantém aqui. Mas, todas as vezes que me olho, eu não vejo nada além de um homem pela metade, nada além de um homem aprisionado num corpo disforme.

Meu telefone toca, o nome de Pilar aparecer no visor. Por que ela está me ligando?

Atendo a chamada.

— Zander… É a Pilar, eu… — ela gagueja se perdendo entre as palavras.

— Aconteceu alguma coisa? — examino, imaginando ser algo importante.

— Não… nada! — responde, ficando em silêncio depois disso.

— Pilar?

— Você está bem? Desculpe perguntar, mas depois do que aconteceu pela manhã, eu…

Agora sou quem fica em silêncio. A última coisa que esperava receber era sua compaixão, nada me faz sentir mais inútil que comiseração. Eu não preciso que sintam pena de mim.

— Estou bem — respondo, seco.

Ouço-a pigarrear.

— As meninas disseram que não conversaram com você hoje — continua, numa mudança brusca no rumo da conversa.

— Elas estavam brincando.

Silêncio.

— Pina e Pietra querem ir ver você amanhã. Eu disse que estaria ocupado com o projeto e…

— Elas podem vir. — A conversa se torna mais estranha a cada frase.

— Tudo bem irmos à tarde?

— Sim — respondo.

Ela se despede e eu encaro o telefone, procurando entender o real motivo desta ligação.





A primeira coisa que faço ao acordar é verificar as horas. Vejo que está próximo do almoço, um horário incomum para eu me levantar. No exército, acordava com o raiar do dia. Talvez seja porque passei boa parte da madrugada trabalhando no projeto para a fazenda, esta é a primeira vez que trabalho sozinho num plano de engenharia.

Ainda sonolento, esqueço que não tenho as duas pernas e apoio o pé no chão para ficar de pé. Eu me desequilibro e caio de volta na cama. Fecho os olhos e respiro fundo para controlar a raiva que me apossa. Não é a primeira nem a segunda vez que, ao acordar, meu cérebro apaga a informação de que agora sou aleijado. Irritado, encaixo a joelheira de silicone no coto, em seguida a prótese prendendo-a a vácuo, e saio em direção ao banheiro.

Estudo minha face refletida no espelho sobre a pia, os longos pelos da minha barba e os cabelos caídos ocultando meu pescoço e testa.

Se um ano atrás alguém me dissesse que eu me transformaria no homem que vejo nesse espelho, gargalharia até a barriga doer. Contudo, cá estou eu, um rascunho malfeito da pessoa que um dia fui.

Retorno ao quarto e pego a máquina de corte que era uns dos meus principais instrumentos enquanto fazia parte das forças armadas. Passando-a pela minha barba, deixo os fios mais curtos. Depois de tanto tempo enxergo a pele do meu pescoço. Molho os cabelos e os penteio para trás, tentando uma aparência menos peculiar, ainda que se mantenha rústica.

— Bom dia ou boa tarde? — diz minha tia quando entro na cozinha. Ela se vira com uma bandeja de frutas nas mãos e arregala os olhos quando me vê. — Nossa, você aparou a barba? Está muito melhor!

— Pode cortar meu cabelo? — Peço sabendo que tanto ela quanto minha mãe são hábeis com uma tesoura. Ela sorri, deixa a bandeja de lado e logo retorna com uma tesoura e um pente nas mãos.

Sentado no quintal, minha tia coloca uma toalha sobre meus ombros e a partir daí a única coisa que vejo são os fios caindo ao meu redor.

— As mulheres de Maria da Fé vão ficar enlouquecidas quando virem você com a barba e o cabelo aparados.

Sorrio diante seu comentário, mesmo sabendo que ele não quer dizer nada. Se antes era difícil um relacionamento com uma mulher, imagine na condição em que estou.

— Pronto! Vou pegar um espelho — diz ela, assim que corta a última mecha de cabelo.

Encaro o espelho um par de minutos, tentando me conectar com o homem refletido. Minha aparência não é mais a do primeiro-tenente e tampouco a do homem maltratado com o rosto coberto de pelos. Sou agora um meio termo entre os dois.

Decido tomar outro banho para tirar os cabelos presos à minha pele e me vestir um pouco melhor do que ando fazendo. Escolho um par de calças sarja rasgada nos joelhos para aumentar a mobilidade da prótese, uma camisa cinza chumbo ajustada ao corpo e um par de botas de couro marrom.

— Meu Deus! Você está lindo, Zander! — Minha tia dá a volta em mim, analisando cada detalhe

— Não acho que posso considerar, tia. Você e minha mãe sempre disseram isso — respondo, abrindo a geladeira.

— Por que não saímos para almoçar no restaurante do Germano? Você está tão lindo, vamos comemorar? — pergunta, batendo as mãos.

Ouço seu nome ser berrado da entrada assim que vou avisar sobre a visita das gêmeas.

— São as gêmeas? — indaga minha tia.

Mas as meninas já entraram e nos encontram na cozinha, elas nos cumprimentam com abraços e risos. Pietra tem o cabelo preso, Pina os fios soltos e bagunçados. Ambas usam um par de calças pretas e uma camiseta branca com minúsculos cavalos estampados.

— Você cortou a barba e o cabelo? Eu gostei! — diz Pina, fazendo um sinal de joia com os polegares para cima. — É de espinafre? — Ela arrasta uma cadeira para se sentar e belisca a beirada da torta sobre a mesa.