Capítulo 12


Pilar



Mal consigo respirar quando alcanço o jardim de Suria. Deus do céu! Ele ia me beijar? Era isso o que ia fazer? Sim, eu tenho certeza de que era isso! E eu não ia recuar, estava pronta para receber sua boca na minha e descobrir qual o sabor que seus lábios têm. Espalmo a mão sobre o peito, sentindo meu coração golpear tão rápido que a qualquer momento ele pode explodir.

— Cadê o Zander? Ele não vai levar a gente para tomar sorvete? — pesquisa Pina surgindo ao meu lado. — O que aconteceu com seu rosto?

— Meu rosto? — Sinto minha pele queimar como a lava de um vulcão.

— Está com vergonha ou raiva? — questiona Pietra, juntando-se a nós. — Você só fica assim quando está com vergonha ou raiva.

— Acho melhor a gente ir embora — falo, segurando a mão das duas, arrastando-as para o portão.

Elas se soltam e dão um passo atrás.

— Zander vai levar a gente na praça. ZANDER! — Pina volta para dentro gritando o nome dele.

Pietra cruza os braços e me encara.

— Acho que é vergonha, mas do quê? — reflete ela, encarando-me com olhos estreitos. — Você estava com o Zander, é vergonha dele? Por quê?

Sacudo a cabeça. É difícil dar conta dessa criança.

— Não estou com vergonha de ninguém. Vá lá dentro chamar Pina.

— Raiva não é, por que teria raiva dele? — continua ela a me analisar.

— Não é raiva nem vergonha, minipsicóloga.

— Ela queria ir embora. — Pina aparece com Zander ao seu lado, apontando-me com o indicador e falando num tom exaltado.

Zander para à minha frente, a pouca distância faz meu coração vibrar mais que uma bateria de escola de samba em dia de desfile.

— Você vem com a gente? — Zander pergunta.

Aceno que sim com a cabeça, afetada demais para verbalizar.

Cruzamos o portão e caminhamos devagar pela pacata rua de Suria, poucas pessoas se sentam nas calçadas para aproveitar a tarde de domingo. Pina corre na frente e Pietra segue marchando entre Zander e eu.

— Pietra, a avó da Sandrinha! — Pina assinala uma senhora que morde uma maçã verde sentada numa poltrona de corda entrelaçada. O nome da amiga é suficiente para chamar a atenção de Pietra que corre com Pina até a mulher.

— Boa tarde, a Sandrinha está? — questiona Pina, de maneira educada.

— Está na praça com o primo, querida — diz a avó que também nos cumprimenta.

— Andem logo — demanda Pina, segurando minha mão e a de Zander.

Ela praticamente nos arrasta, ignorando o andar mais lento de Zander. Quando chegamos à praça, elas encontram Sandrinha e se esquecem de nós.

— Tenho a impressão de que Pina e Pietra não estavam muito interessadas em conversar comigo. Tem certeza de que elas disseram que queriam me ver? — pergunta ele, com um semblante duvidoso.

Seu questionamento me pega desprevenida. Aponto para um banco vazio e me sento nele, tendo tempo para pensar numa resposta.

— Quando encontram as amigas da escola esquecem do que haviam pedido.

Zander me observa uns segundos antes de menear a cabeça em concordância. O real sentido da palavra constrangimento poderia ser aplicado nesta ocasião. Eu mal me movo diante de sua perscrutação, pareço a estátua de nossa patrona na entrada da cidade.

Estranho estar tão acanhada, acho que o motivo pode estar na dança de ontem ou no quase beijo que demos no quarto. Além deste súbito desejo de estar perto dele que me deixa sem reação.

Será que eu deveria voltar ao momento em que Suria nos interrompeu? Não! É impossível repetir o clima do quarto no meio de uma praça com trinta crianças gritando, o sorveteiro apertando a corneta do seu carrinho e os cães ladrando atrás das pombas. O melhor é fingir que nada aconteceu, que nem percebi o instante em que nossos lábios quase se tocaram.

— Já contratei as pessoas que executarão a obra na fazenda — solto.

Zander aquiesce em silêncio. Será que os pensamentos dele estão tão agitados e indecisos quantos os meus? Eu daria qualquer coisa para ouvir seus pensamentos.

— Quero sorvete! — Ofegante, Pina apoia uma mão no ombro de Zander.

Pietra chega logo depois.

— Sandrinha quer também? — pergunto, preparando-me para buscar.

— O primo dela já comprou — responde, puxando ar.

— Eu compro para elas. — Zander se levanta e tira sua carteira do bolso.

— Vou com você. — Pietra o acompanha, enquanto Pina solta seu corpo suado sobre o banco.

Tudo nesta situação soa improvável, estar no meio desta praça com o homem que pouco conheço e quase beijei comprando picolés para minhas irmãs. E ainda mais improvável é esse acelerar do meu coração que desistiu de vez bater no seu ritmo normal.

— Preciso falar com Suria. Você olha as meninas? — pergunto a Zander assim que volta com Pietra. Ele assente com o picolé que me daria nas mãos.

Saio marchando apressada para longe dele, buscando entender se esse furor que sinto é mesmo causado por sua proximidade. Encontro Suria de luvas, podando as roseiras do seu jardim.

— Me ajuda? — indaga ela ao me ver, entregando-me mais um par de luvas.

Ajudo-a em silêncio, finalmente sentido esse palpitar frenético se acalmar.

— Atrapalhei alguma coisa? — Com ar de riso, ela é a primeira a quebrar o silêncio.

Analiso a rosa que seguro sem responder.

— Acho que me enganei quando disse que seu coração estava numa gaveta. Bom, hoje sou eu quem precisa te dizer uma coisa, Pilar — ela faz uma pausa antes de continuar —, Zander sempre foi fechado e depois do acidente ficou ainda mais. Sabemos que ele sofre, que é difícil conviver com sua nova realidade. Sei que não é fácil ter a vida virada do avesso da noite para o dia. Acordar num hospital sem uma parte do corpo é um baque…

Suria hesita alguns segundos. Eu solto a rosa que segurava no carrinho para ouvi-la.

— Eu fiquei surpresa quando entrei no quarto e vi vocês tão pertos, não esperava que Zander… Bom, se fosse a mãe dele teria gritado para a vizinhança inteira ouvir. Deus sabe como aquela mulher quer uma nora.

Devo agradecer que não era a mãe dele, não saberia onde enfiar a cara se algo assim acontecesse. Relembro Zander com dor sentado no chão da fábrica implorando para que eu não chamasse Suria.

— É normal que num dia eu não sinta nada e no outro meu coração bata mais rápido? — confesso a Suria, surpresa por me sentir assim tão de repente.

Ela sorri e apoia uma mão em meu ombro.

— A paixão é assim, não? Uma combustão inesperada que pega a todos de calças curtas? Que eu saiba a paixão vem como um tsunami, varrendo tudo dentro da gente, e pode acontecer em apenas alguns minutos. Veja que não estou falando de amor. Amor é construído aos poucos, com a convivência, a cumplicidade, o tempo, a entrega…

Baixo a cabeça avaliando cada uma de suas palavras.

— Ele vai continuar em Maria da Fé depois de finalizar a obra?

Essa pergunta pode soar como fora de contexto, mas a resposta decide se eu deixo essa tal combustão inesperada de que fala seguir ou se subo na mais alta montanha para fugir desse tsunami.

— Meu desejo é que Zander encontre um novo destino, Maria da Fé seria um ótimo lugar, não acha?

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