Capítulo 15


Pilar



Saio da cama, tomando cuidado para não o acordar. Mesmo que o colchão não colabore, Zander mantém a respiração profunda e não nota que me levantei. Meus olhos deslizam por seu corpo despido, desde seu rosto, passando pelo peitoral marcante com o colar de soldado pendurado em seu pescoço —as plaquinhas de metal se acomodam sobre os músculos desenhados —, pelas tatuagens em seu braço e se demoram em sua perna.

Penso em quão difícil deve ser perder um membro. Encosto a mão em minha coxa e imagino que se fosse comigo, o que eu faria? Acho que ninguém se faz essa pergunta, ninguém pensa que possa acontecer consigo ou um familiar. As marcas em sua pele mostram que ele não sofreu somente com a amputação, há outros ferimentos cicatrizados que devem ser de sua atuação no exército.

Ele deve ter sentido tanta dor.

Zander se vira na cama, revelando mais uma cicatriz em suas costas. O corte largo e profundo como se atacado por uma faca me faz estremecer por tudo o que ele já deve ter passado.

Saio nas pontas dos pés e corro pela fazenda até chegar na sede e entrar no meu quarto antes de todos acordarem. Encosto na porta e com a mão no peito sinto meu coração pulsar acelerado. E tenho certeza de que ele não está assim pela corrida.





— Não quero ovos hoje, já comi ontem. Assim vou virar uma galinha! — Pina reclama à mesa.

— Pare de se lamuriar, menina — rezinga Dona Gertrudes.

— Está corada de novo? — aponta Pietra, tocando minhas bochechas.

— O quê? Deve ser a água do chuveiro, estava muito quente — respondo, segurando sua mão para beijá-la. — E você, coma seus ovos e não se preocupe que mesmo comendo mil deles nunca se transformará numa galinha.

Ela revira os olhos e continua remexendo os ovos com o garfo.

— Quem disse? O homem aranha se transformou depois de ser picado por uma aranha — rebate.

— Coma seus ovos — exijo. Ela se dá por vencida e come os ovos mais uma fatia de mamão.

Em mais dez minutos, estamos as três no carro seguindo para a escola. Pina e Pietra conversam sobre uma atividade que precisam entregar, enquanto eu divago na noite que tive com Zander.

— Por que está sorrindo? — questiona Pina, inclinando a cabeça para meu lado. Ela e Pietra revezam para se sentarem no banco da frente.

— Sorrindo? — Cerro os lábios para segurar a expressão que insiste em voltar.

— Você está estranha, sabia?

— E estava corada agora há pouco — diz Pietra do banco traseiro.

— E ainda está. — Pina responde, apontando para meu rosto.

— Tenho as irmãs mais intrometidas do mundo, hein? Continuem a falar da atividade de vocês e me deixem quieta — contesto, entrando na rodovia.

Em frente à escola e, antes de cruzarem o portão, desejo a elas boa aula e beijo o topo de suas cabeças. Ambas se despedem e seguem de mãos dadas. Volto para o carro e pondero em passar na loja de Amara e contar o que aconteceu comigo esta noite, mas da mesma maneira que a ideia surge ela desaparece. Não aguentaria Amara me fazendo um milhão de perguntas e criando teorias sobre um futuro que ainda não existe.

Indecisa no que fazer, meu telefone começa a tocar. Meu coração golpeia no peito quando o nome de Zander surge. Encaro a tela pensando no que dizer, mas nesse meio tempo a chamada é perdida.

— Droga! — Solto o telefone no banco do passageiro sem desviar meus olhos dele, esperando que Zander me chame outra vez. Ele não chama.

Ligo o carro e volto para a fazenda.




— Pai? Está pronto? — brado, entrando em casa.

Temos de ir à fazenda dos Mendes pegar algumas mudas para a nova área de plantio. Quero fazer isso logo para conseguir tempo e passar na obra para conversar com Zander. Entretanto, assim que entro na cozinha dou de cara com ele sentado à mesa com meu pai.

— Bom dia — diz ele, com um sorriso tímido. Ele usa uma camisa cinza com as mangas dobradas, o cabelo molhado e jogado para trás que o deixa ainda mais bonito. Sou pega de súbito pelo pensamento de que talvez eu devesse ter esperado ele acordar e quem sabe nós...

— Oras, não ouviste o gajo dar bons dias, miúda? — ralha meu pai.

— Bom... Bom dia, Zander. — Ele acena com a cabeça e foca na xícara à sua frente.

— Chamei o engenheiro a cá para tomar uma bica. Tu o abandonaste naquele chalé do Azevedo que não tem um rádio, um nada.

— Não se preocupe, estou bem instalado. — Zander parece pouco à vontade.

— Podes vir morar a cá se preferir.

— A casa é ótima — reitera Zander.

— A gente precisa ir à fazenda dos Mendes, pai.

— Não me apresses! Cuido desta fazenda desde muito antes de tu nasceres.

Zander sorve todo o café e se levanta.

— Vou para a obra.

— Pois vamos todos juntos. — Meu pai sai para pegar seu chapéu.

E só então Zander e eu nos olhamos de verdade.

— Você me ligou? — pergunto, baixando a voz para não ser ouvida pelos outros.

— Achei que você estaria lá quando eu acordasse.

— Quis voltar antes que alguém notasse minha ausência.

Zander concorda baixando a cabeça.

— Vamos — fala meu pai, retornando.

Do banco traseiro Zander ouve meu pai contar a história de como a fazenda começou e quando as primeiras oliveiras foram plantadas. Só de olhá-lo pelo espelho retrovisor, algo em mim se agita. Tem tanto tempo que não experimento estes sentimentos, acho que a última vez foi quando comecei a namorar Ávila, e isso tem tanto tempo.

Depois dele, nunca mais me interessei por alguém nesta cidade e estava convencida de que a razão era a quantidade de responsabilidades que tenho. Mas aí o sobrinho de Suria surge no meio do meu olival e aqui estou eu envolvida por ele. Suria tem razão, a paixão é mesmo uma combustão inesperada, a química que se transforma em energia e agora queima em mim.

Zander desce do carro e se despede.

— Capriches nesta fábrica, engenheiro — diz meu pai. Zander sorri.

Resvalo a mão pelo peito, notando as batidas aumentarem à medida que escolto Zander se afastar.

— Me pareces que és um bom gajo. Pena não ter uma perna — murmura meu pai.

— Não acredito que disse uma coisa dessas, pai! Que diferença faz? — Sua fala me pega de surpresa e faz eu desviar de Zander para encará-lo com zanga.

— Oras, como tu podes perguntar algo tão tolo, miúda? Se não fizesse diferença nasceríamos com uma apenas.

— Ele tem a prótese — respondo, irritada.

— Achas mesmo que um pedaço de ferro amarrado é o mesmo de uma perna?

— Isso foi muito lata[1], pai.

Ele dá de ombros e gesticula para eu ligar o carro e irmos. Mas suas palavras não me abandonam no caminho para os Mendes. Reflito em como Zander deve se sentir ao encarar o mundo depois do acidente. Suria disse que ele sofre em silêncio, que não se abre com ninguém. Será que com a psicóloga ele se abre? Tento parar de pensar, mas Zander regressa com mais frequência do que estou preparada, tornando difícil me concentrar nas diversas tarefas que tenho durante o dia.

Chego exausta em casa. Seria ótimo terminar meu dia depois de buscar as meninas no colégio. Mas deixo a questão burocrática da fazenda para organizar à noite, em geral, depois delas dormirem.

As meninas saltam do carro e correm para brincar um pouco antes de jantar e fazer o dever de casa. Olho para o relógio e constato que Zander já deve estar em casa, não consegui passar na obra e ele não saiu da minha cabeça um segundo do dia.

— Chega por hoje, querida? — pergunta Dona Gertrudes.

— Estou tão cansada — revelo, arrastando uma cadeira para me sentar. Ela me entrega um copo com suco de melancia e hortelã.

— Esse velho do seu pai se gaba de construir Villa Oliva com seus avós, mas não consegue dar conta de metade do trabalho. Você vai precisar de alguém para te ajudar a tocar essa fazenda.

— Eu sei... eu sei... Vou tomar um banho — aviso a ela, depois de esvaziar o copo.





— Vocês vão dormir depois do filme, não quero ninguém choramingando na hora de se levantar para o colégio.

Mas antes mesmo do filme terminar Pina está dormindo com a cabeça apoiada em minhas pernas e Pietra já bocejou tantas vezes que não sei como ainda não desabou sobre mim. Carrego Pina até a cama, Pietra se deita ao lado de sua gêmea e em poucos minutos dorme também.

O silêncio impera na casa.

Vou até meu quarto, visto um casaco e enfio meu telefone no bolso. Saio de casa pé ante pé. Tenho memorizado cada trecho da fazenda e não preciso mais que a luz da lua para iluminar meus passos até à casa de Zander. Tiro o celular do bolso e sinto meu coração acelerar mais uma vez.

Passo uma mensagem antes de aparecer do nada em sua porta. Digito algumas frases, mas reescrevo todas sem conseguir me decidir.

— Não está com frio? — Sua voz rouca me assusta. Derrubo o telefone no chão.

— Você me assustou! — sussurro, baixando para pegar meu aparelho. — Eu ia passar uma mensagem, não queria te acordar.

— Eu não estava dormindo e vi você chegar.

— Você já jantou? — Faço a primeira pergunta que me aparece.

— Veio para perguntar se jantei? — O sorriso em seus lábios é o bastante para eu sentir minhas pernas vacilarem.

— Não sei o que vim fazer.

Mas o que eu deveria dizer é que passei o dia inteiro pensando nele e na noite que tivemos e que não conseguiria dormir se não o visse de novo.

— Quer entrar?

Aceno concordando. Sentamo-nos no pequeno sofá que comprei para Azevedo alguns anos atrás. A proximidade de Zander faz com que o ar aqueça, parece que estou sob sol escaldante.

— Pilar, o que aconteceu ontem..., não precisa acontecer de novo. — Zander baixa a cabeça, fitando as próprias mãos.

O ar resfria subitamente. Não era isso o que eu esperava ouvir.

— Por que diz isso? — questiono, inclinando meu corpo em sua direção. Ele se levanta e caminha até a entrada da cozinha.

— Você não é alguém que tem tempo para perder, Pilar.

— O tempo é meu, não sou eu quem decide como usá-lo? — Vou até ele que se mantém de costas. Ele está arrependido? É isso.

— Não quero que você... — começa ele.

— Ontem você me pediu para não dizer “isso foi um erro” e é exatamente o que está me dizendo agora? Está arrependido de ficar comigo?

— Eu só não sou alguém que...

Não o deixo continuar a falar e junto meus lábios aos dele. Encaixo as mãos ao redor de seu pescoço e torno mais intenso o beijo que movimenta cada célula minha. O beijo que faz o chão sob meus pés desaparecer.

Zander laça minha cintura e dá um passo atrás e mais outro e outro, até que estejamos na beirada de sua cama. Não penso em nada e não dou a ele tempo de pensar também. Ele me solta apenas para tirar a camisa, expondo o tórax absurdamente definido com cada músculo sobressalente como um apelo para tocá-lo. Meus dedos resvalam por sua pele, acompanhando o desenho de seu abdômen, a cada gomo traçado mais frenético é o sentimento que me toma.

Não sei dizer se o que cresce entre nós é duradouro ou uma paixão repentina. Não sei dizer se ele nota o ar faltar assim como eu, ou se o seu coração também dispara quando me vê. Talvez ele não tenha interesse num relacionamento sério e, por isso, justifique dizendo que não tenho tempo para perder.

Eu entendo, também não sei o que quero, é tudo novo, inesperado, imprevisto como o destino.

Pode ser que ele vá embora quando a obra terminar e nós nunca mais nos vejamos, ou pode ser que ele encontre em Maria da Fé um porto-seguro. Quem sabe o que o futuro reserva? Se é isso o que ele diz com perder tempo, não tenho dúvidas que devemos perdê-lo juntos.

Deixo meu cansaço, preocupações, divagações e responsabilidades de lado por um instante e decido aproveitar cada segundo com ele, independentemente de quanto tempo ainda teremos.





Abro os olhos, ainda com a cabeça apoiada sobre o peito de Zander. Tento me levantar sem acordá-lo, mas ele segura minha mão quando estou prestes a sair da cama.

— Você vai embora de novo? — Seu tom é como um murmúrio lastimoso.

— As meninas vão chamar meu pai se acordarem e não me encontrarem. Ele vai chamar Dona Gertrudes e ela vai chamar Amara, Suria... É melhor eu estar em casa — explico a ele. — Eu volto mais tarde — Dou-lhe um beijo rápido e saio da cama.

Entro em casa sem fazer barulho e vou direto para o meu quarto. Repasso a frase de Zander Você vai embora de novo? e o tom doído de como foi dita. Mal me sento na cama e decido voltar para ele. Invento uma desculpa de que fui fazer vistoria na ala norte da fazenda para quando acordarem e não me encontrarem. Colo o bilhete na geladeira volto para ele.

Encontro Zander sem camisa preparando café na cozinha. Ando até ele, descanso minha cabeça em seu ombro e escorrego os dedos pela cicatriz em suas costas. É dolorido ver a quantidade de ferimentos em seu corpo.

— Por que voltou? — pergunta ele.

— Não queria que eu voltasse?

— E as meninas?

— Deixei um bilhete dizendo que fui vistoriar a ala norte, mas tenho que voltar a tempo para levá-las à escola. A questão é que essa desculpa não funcionará se eu a usar todos os dias.

Ele fica de frente, nos entreolhamos em silêncio por alguns segundos antes dele assentir e encostar sua testa na minha. Elevo meu corpo e o beijo mais uma vez. Beijá-lo se tornou minha nova mania. Zander retribui com o mesmo ímpeto de horas atrás. Quando estamos no limite de nos jogarmos na cama outra vez, separo nossas bocas e dou um passo atrás. Ele arfa esticando uma mão para me alcançar.

— O café — digo, apontando para a pia.

Zander suspira.

Eu sorrio.

— O que come pela manhã? — pesquisa ele, abrindo a geladeira.

— Ovos, café, suco, bolo, frios...

— Tenho ovos e café.

— Ótimo!

Eu daria qualquer coisa para saber o que ele pensa, saber se também sente essa confusão de emoções e esse palpitar frenético no coração... Depois de comer, nos sentamos nos degraus da frente e observamos o olival. Lembro de quando ele disse que meu cheiro era igual ao das oliveiras.

— Tenho mesmo cheiro de oliveira?

Ele acena em concordância. Levo o pulso ao nariz e inalo.

— Eu não sinto nada — aviso.

Zander analisa meu rosto, cada centímetro é esquadrinhado. Ele eleva uma mão e toca meus lábios, delineando-os com seus dedos.

— Uma mistura de oliva, pêssego e maçã-verde. Quando ando pelo olival mal consigo saber se são as plantas ou você quem está ao meu lado. É um aroma único, só sinto em você.

Os primeiros raios de sol iluminam sua face. Em seus olhos não enxergo mais aquela melancolia de quando o conheci. Eu acho que ele está sentindo o mesmo que eu.

— Preciso ir — sussurro, sem conseguir desviar meus olhos dos dele.

— Traga as meninas mais tarde.

Sorrio contente com seu pedido. Quando namorei Ávila ele reclamava das meninas por perto, sempre as reprendia e causava brigas entre nós, sua atitude com as gêmeas me irritava e machucava.

— Podemos jantar todos juntos? — averíguo.

— Será ótimo.

Beijo de leve seus lábios, sentindo como se eu estivesse inflada por aquele gás que faz os balões flutuarem. Um balão flutuando pelo céu azul e sem nuvens.





— Por que sair para rodar a fazenda tão cedo? — Pina questiona, balançando meu bilhete.

— Porque sim — respondo, sorrindo como uma boba. — Vamos jantar com Zander à noite.

— Jura? — proferem em uníssono — Eu vou levar meu desenho para ele ver — acrescenta Pina.

— Posso vê-lo também?

— Não!

— Por que não? — indago, aborrecida.

— Porque não — diz, sem remorso.

Deixo-as na escola e passo na loja de Amara. Preparo-me antes de entrar para não deixar escapar nada sobre mim e Zander. Não é hora de contar, estamos juntos têm dois dias e é muito cedo para revelar qualquer coisa a qualquer pessoa.

— Minha amiga, você precisa descansar! Dê uma olhada nessas olheiras? — Ela me entrega um espelho que tira detrás do balcão. Noto que a falta de sono das últimas noites dá sinais.

— E aí? E o bonitão? — Amara cruza os braços e pisca um olho de maneira afetada.

— Bonitão? — Faço-me desentendida e devolvo seu espelho.

— Vai fingir que não sabe que falo do engenheiro?

— Zander está bem. A obra toma forma, ele se entrosou bem com os trabalhadores...

Amara revira os olhos.

— Acha mesmo que quero saber se ele entrosou com os trabalhadores? Quero saber se você se entrosou com ele? — Ela junta os dedos indicadores, simulando que são Zander e eu.

— Não tem nada para entrosar.

— Sério? Então acho que vou visitá-lo, talvez ele se entrose comigo.

— Não!

Ela estreita os olhos e abre a boca para dizer algo que deixa passar assim que uma cliente entra na loja. Enquanto mostra à cliente as cores de lã para tricô, eu olho os tecidos novos que recebeu de um fabricante na capital.

— Obrigada pela compra, Dona Júlia! A semana que vem vou receber a lã angorá que a senhora queria para tricotar o casaco da sua filha. — Dona Júlia sorri satisfeita e sai da loja.

Amara se volta para mim e eu espero que o assunto Zander seja esquecido por ela.

— Do que estávamos falando? Ah, já sei! Acho que vou passar na fazenda e me apresentar melhor para o engenheiro, quem sabe a gente pode ter...

— Não pode! — respondo, incisiva e ela sorri de canto.

— Ué! Por quê? Ele está trabalhando na fazenda já tem um tempo e até mora nas suas terras e você diz que ele só está entrosado com os trabalhadores, eu posso ser uma trabalhadora para ele nas minhas horas vagas. — Ela pisca de novo e joga seus cachos para o lado.

— Se piscar esse olho para ele eu juro que...

— Peguei você! Acha mesmo que eu não sei que está rondando o cara? Olha só como ficou toda nervosinha só de eu dizer que vou à fazenda. Desembucha e me conta tudo.

Droga! Amara parece mais uma detetive que minha amiga. Eu não quero contar nada ainda, não quero criar expectativas para ela e nem para mim de algo que pode não durar. Preciso pensar em uma desculpa e rápido, antes que ela...

Meu telefone começa a tocar, tiro-o do bolso e leio “pai” no visor.

— Oi, pai! — Atendo e ergo o dedo pedindo um minuto para Amara.

— Temos uma infestação de cochinilha-negra na ala norte. Estou fazendo a poda para aumentar a luz e circulação de ar, mas acho melhor pulverizar todas as árvores antes que a praga atrapalhe a floração.

— Isso é grave, pai. Não pode deixar avançar. Vamos aplicar uma solução de álcool, potássio e óleo. — Amara me encara de braços cruzados. — Estou saindo da loja da Amara e passo no armazém para comprar a solução. — Dou um beijo na bochecha de Amara me despedindo.

— Se pensa que vai escapar está enganada, viu? Pode me ligar à noite e contar tudo... Ei! Pilar! — Ela grita enquanto escapo da loja.

Em Villa Oliva e com a ajuda de Joaquin preparo a solução para combater a praga que pode devastar nossa plantação. Encontro meu pai pendurado numa das árvores com seu chapéu mexicano na cabeça. Ele e os homens estão acostumados com o trabalho braçal, mesmo assim, não deixa de ser penoso e cansativo. Eles têm de estar atentos a qualquer variação das plantas.

— Trouxe a solução! — digo, vestindo minhas luvas e um protetor para face.

— Vamos borrifar e depois fazer a limpeza — informa ele, descendo de uma das oliveiras mais antigas.

O trabalho segue incansável até o meio da tarde. Enquanto os homens param para comer, eu aproveito para continuar borrifando a solução em outras árvores para ter certeza de eliminar o máximo de ovos e cochinilhas e nem vejo a hora passar.

— Já deu a hora de pegar as meninas — adverte meu pai.

Abandono os homens e corro até o carro, no painel o relógio mostra que estou atrasada quinze minutos. As meninas odeiam quando me atraso. Tento acelerar, mas as estradas de terra até à rodovia não me permitem.

De repente, meus olhos embaçam. Pisco várias vezes e foco na direção. Estou acostumada com a correria do dia a dia, mas talvez por estar sem dormir, sem almoçar e mais o trabalho exaustivo da fazenda, o cansaço esteja acentuado. Respiro fundo e continuo dirigindo, preocupada com o tempo em que minhas irmãs me esperam. Sinto formigar meus lábios e a ponta dos meus dedos, além de minhas mãos suarem.

E antes que eu possa frear o carro minha visão escurece...

[1] Muito lata: Gíria portuguesa que indica falta de noção, irritação com a atitude de uma pessoa.

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