Capítulo 17


Zander



Assisto-a partir de cabeça baixa, caminhando para longe de mim. Como pude ser tão idiota? Eu nem sei o que somos para beijá-la na frente de outras pessoas. Viro-me para trás, os homens me observam de esguelha cochichando entre si. Cometi um erro, definitivamente cometi um erro. Finjo não reparar nas conversas e volto ao trabalho, mas quando me aproximo e ouço Basílio e Lobato compreendo a gravidade do meu erro.

— É verdade que ele é deficiente? — pergunta Lobato.

— Você nunca reparou que ele repuxa uma perna? — responde Basílio. — É muita audácia desse camarada. Nem inteiro ele é e vem se encostando na patroa? Só pode ser um golpe, ele deve saber que os Castanheda são uma família importante.

— Será que Pilar sabe?

— Sim, ela sabe — respondo e os dois giram os corpos, sobressaltados. — Corrijam essa fileira — aponto para os tijolos, ambos anuem e saem em silêncio.

Sinto meus batimentos acelerarem e minha respiração mais intensa, não sei se é raiva por discordar ou raiva por saber que estão certos. Eu sou muito menos do que Pilar precisa.

De repente, minha perna começa a formigar. Não agora, não na frente deles.

Ando apressado em direção ao vestiário, ficando mais difícil a cada passo. Longe dos olhos curiosos, desabo num dos bancos. Minha perna queima, abrasa. Parece que estou novamente debaixo daquele prédio. Inspiro o ar, soltando-o pela boca, tentando controlar qualquer som que possa me escapar e chamar a atenção dos homens. Esfrego minha coxa no sentido do coto, desejando que o tormento encerre. Mas, ao contrário, a dor evolui ao ponto de me deixar desesperado para liberar o grito preso em minha garganta.

Ouço alguém entrar e me arrasto até o reservado, trancando a porta. Prostrado, angustiado e sozinho espero até que a dor desapareça e eu possa sair.





O caminho até a casa se torna longo e cansativo. Preciso parar várias vezes até completá-lo. As frases que ouvi mais cedo ocupam cada um dos meus pensamentos “nem inteiro ele é” “é muita audácia desse camarada” “se encostando na patroa”.

Jogo-me no sofá, estafado em passar o dia lidando com os cochichos e os olhares desses homens, além da dor que não sumiu totalmente, persiste um queimor leve. E o pior de tudo foi o beijo impensado que dei em Pilar e que gerou todos esses comentários. Levanto-me para trancar as portas, fechar as janelas e manter as luzes apagadas. Silencio meu celular e me deito, encerrando este dia.





Acordo com batidas na porta. Sonolento, viro-me de lado na cama e as ignoro. Mas, quando voltam mais fortes, sou obrigado a me levantar. Abro a porta imaginando ser um dos homens da fazenda. Porém, dou de cara com Pietra no auge dos seus um metro e trinta com um pedaço de madeira nas mãos.

— Achei que não iria acordar — reclama ela, soltando a madeira e cruzando a porta por de baixo do meu braço.

— Que horas são? Por que está aqui tão cedo? — Fecho a porta e saio à procura do meu celular.

— É quase oito, não é tão cedo. — Pietra se senta no sofá e olha ao redor balançando as pernas.

— É cedo para mim — rebato, vestindo uma camiseta e passando as mãos pelos cabelos e barba. — Pilar está dormindo? — pergunto. Sento-me ao seu lado, preocupado que algo mais tenha acontecido.

— Sim — responde ela, sorrindo.

Inclino a cabeça, esperando que disserte o motivo de sua visita.

— Por que veio até aqui, Pietra?

— Estava sem nada para fazer, também não vou para a escola hoje e...

— Só isso? — investigo, a testa franzida.

Ela balança a cabeça concordando.

— Só isso mesmo.

Suspiro aliviado e me levanto, indo à cozinha.

— Quer tomar café da manhã? — pesquiso, quando noto que ela não tem intenção de ir embora. Ela faz que sim com a cabeça e se senta à pequena mesa.

Ofereço iogurte, suco, torradas... Contudo, ela me pede panqueca de banana.

— Não sei fazer.

— É só misturar banana amassada, ovo, leite, açúcar e farinha. Depois coloca na frigideira e está pronto. — Pietra dá a volta na mesa, abrindo a geladeira para tirar de lá o que precisa. Depois bate o dedo indicador no queixo buscando alguma coisa.

— O que está procurando?

— Bananas. Como vamos fazer panqueca de banana sem banana?

Sorrio e tiro a fruteira de cima da geladeira entregando as frutas a ela. É engraçado ver uma pessoa tão pequena querendo cozinhar.

— Você quebra os ovos — ordena ela, entregando-me dois deles. Depois mistura os outros ingredientes, mexendo a massa até se tornar homogênea.

— E agora? — questiono.

— Coloca uma frigideira para esquentar. — Pietra tira uma concha da gaveta e despeja a massa no centro da panela. — Você vira — fala, apontando para mim.

— Virar? Quer que eu jogue para o alto, igual vemos na televisão?

— Por que não? — Ela tem as mãos na cintura, como se já tivesse feito diversas vezes.

Seguro a alça da frigideira e a balanço devagar para ter certeza de que a massa não está grudada no fundo. E, então, preparo-me para o grande ato, impulsiono a panela para que a massa voe e volte. No entanto, ela voa, atravessa a cozinha e cai no chão. Pietra gargalha apontando para a panqueca espatifada.

— Por que não tenta você, espertinha? Quem sabe se sai melhor do que eu.

Ela despeja mais massa na panela e espera o ponto certo, depois analisa o espaço à sua volta, olhando para o alto e para a panqueca. Ela balança um pouco a frigideira, sentindo seu peso. Cruzo os braços e me afasto, tendo a certeza de que se sairá tão mal quanto eu.

— Veja e aprenda, Zander — anuncia ela. Sua panqueca sai voando quase até o teto, a massa redonda gira no alto e volta com exatidão ao centro da frigideira. Arregalo os olhos, sem crer que ela tenha conseguido.

— Como? — Tento encontrar uma explicação.

— Basta calcular o peso da panela e a pressão colocada nas mãos.

— Você é definitivamente diferente das outras crianças.

Nos sentamos e eu experimento sua iguaria, descubro que panqueca de banana é o meu novo prato preferido para o café da manhã.

— Você também é diferente dos outros homens, não é? — Ela pisca um olho.

Continuo a comer e não respondo. Ela sabe que eu sou, eu sei que eu sou. Não tem o porquê repetir algo que não é segredo para nós.

— Ontem à tarde, a Carol me disse uma coisa — começa a falar, entre uma mastigada e outra. — A Carol é minha amiga e filha da Madá. Você sabe quem é a Madá? — Pietra sorve um gole de suco de laranja.

— Sim, eu sei — confirmo. Madá é a mulher que prepara as refeições na obra.

— Então, a Madá estava conversando com o Joaquim... Joaquim é o marido dela e pai da Carol. Eles estavam falando sobre você — explica-se.

— Sobre mim? — Enfio mais um pedaço de panqueca na boca e começo a mastigar.

— Sobre o beijo que deu na Pilar.

Engasgo ao ouvi-la. Pietra se levanta e começa a bater nas minhas costas.

— Vocês estão namorando? — pergunta, quando me recupero. — A Carol falou que a Madá falou que a Pilar não gostou do beijo. Eu não acreditei, preferi perguntar e...

Pietra agora tem os cotovelos apoiados na mesa e me especula com um olhar escolado. É o mesmo olhar de Camile nas sessões, de quem sabe a resposta e mesmo assim espera pelo revide.

— Esse não é tipo de conversa que devo ter com uma criança. Termine de comer e volte para sua casa — falo, saindo para meu quarto.

Pietra bate à porta segundos depois.

— Zander?

— Vou trocar de roupa. — Sento-me na cama e meneio a cabeça consciente de que ela não sairá daqui tão facilmente. Quando saio do quarto, encontro-a sentada no sofá. — Você avisou seu pai que viria aqui? Ele pode ficar preocupado.

— Não vai. Pina e eu sempre andamos pela fazenda, tudo isso é o nosso quintal — fala, indicando ao redor. — E, então?

— Então, o quê? — Guardo o celular no bolso e abanco a pasta com o projeto da obra.

— Você e Pilar?

— As pessoas daqui gostam de falar da vida alheia, não? — Assinalo para ela se levantar.

— Porque é algo inusitado — diz ela, erguendo as mãos.

— O que tem de inusitado?

— Você e Pilar.

— Não existe você e Pilar. — Vou até Pietra e seguro sua mão, acompanhando-a para a saída. Tranco a porta e coloco as chaves no bolso.

— Como não? Você beijou minha irmã! Quando meu pai descobrir virá falar com você. É assim que as coisas funcionam em Maria da Fé. — Ela balança o dedo indicador, alertando-me.

Começo a caminhar, ela me segue.

— Quantos anos sua irmã tem? — A pergunta é retórica, mesmo assim ela me responde.

— Ela tem vinte e oito. Se vocês estão namorando...

— Não estamos — apresso-me em dizer.

— Por que a beijou?

Fecho os olhos e ofego.

— Não a beijei — minto, desejando que encerre o assunto.

— Crianças não podem mentir, por que adultos podem? É injusto, não acha?

— Não estou mentindo.

Pietra corre na minha frente e observa atentamente meu rosto.

— De verdade?

— Sim, de verdade — respondo, ajeitando a bolsa no ombro.

— Mentira! Você olhou para cima e franziu a testa. Sinais claros de uma mentira.

Paro de andar. Ela também.

— O que quer eu diga, Pietra?

— A verdade. Vocês estão namorando?

— Pilar não gostou do beijo, não foi isso que ouviu por aí? — investigo.

— Sim — responde, vacilante.

— O que significa que não estamos namorando e provavelmente nunca iremos. Às vezes, os adultos se beijam e isso não quer dizer que ficarão juntos. Mas essa não é uma conversa que eu devo ter com você. Agora volte para sua casa. Mesmo que esta fazenda seja o seu quintal, é um quintal muito grande para uma criança sozinha.

Pietra estreita os olhos e entorta os lábios, descontente com minha resposta.

— Vocês não vão namorar? Vai desistir dela?