Capítulo 18


Pilar



Giro o corpo e o encaro, noto uma demanda maior em seus olhos do que as poucas palavras que acabara de dizer. O que isso significa? Que ficará em Maria da Fé? Que ficará comigo? Qual é o real impacto dessa frase na minha vida e na dele?

— O que quer dizer? — indago.

Zander baixa o olhar e se mantém em silêncio. Ele parece analisar melhor sua declaração como se tivesse se precipitado em dizê-la.

— Você vai viver na cidade?

Ele entreabre os lábios para fechá-los em seguida. Zander se levanta e caminha até mim.

— Se eu ficar... precisamos parar? — Inquire, seus olhos me analisando. A distância é de apenas alguns centímetros entre seu rosto e o meu. Reparo que meu receio é tão latente quanto o dele, o temor velado ocupando nossos pensamentos, disfarçando nossos anseios, reprimindo nossos reais desejos.

— Eu não sei — respondo, sem me apartar da profundidade de seu olhar.

Zander engole a seco.

— Não me reconheço nesta vida, Pilar. É como se eu vivesse num mundo paralelo, num mundo ao qual eu não pertenço. Desde que acordei sem uma perna, desde que dei baixa nas forças armadas, desde que passei o último ano trancado dentro de casa... é como se eu estivesse no corpo de outra pessoa, vivendo a vida de outra pessoa. A sensação é de... eu habitar um corpo que não me pertence.

Sua voz é ferida, angustiada. Ela me entristece, faz eu sentir um aperto no peito e apesar de entender como ele se sente não compreendo como seu testemunho se encaixa a nós.

— Quando estou perto de você, sinto meu sangue circular por cada parte do meu corpo... e embora eu continue não reconhecendo esta vida, você me faz pensar que talvez eu não esteja completamente apagado. Você me faz achar que talvez..., talvez eu tenha um novo destino para seguir.

Desconcertada, mantenho-me imóvel com meus olhos fixados nos dele, submergindo em cada uma de suas palavras, absorvendo o que cada uma quer dizer.

— Se você é capaz de me fazer sentir vivo, escolho ficar nesta cidade. — Zander baixa a cabeça sem pressa até seus lábios tocarem os meus.

Entendo o que ele diz com: sentir vivo, não estar completamente apagado porque são os mesmos sentimentos que experimento. Como se eu estivesse adormecida há anos, acreditando que minha vida deveria ser vivida apenas para a fazenda, meu pai, minhas irmãs. Esquecendo que eu posso ter mais que isso, que posso deixar esse calor preencher cada espaço frio dentro de mim.

Zander segura cada lado da minha cabeça, assegurando que nossas bocas não se separarão pelos próximos minutos. A excitação faz minhas pernas amolecerem, faz querer estar em sua cama, faz querer que ele cumpra sua palavra e não vá embora! Nunca mais!

Amaldiçoou as semanas que me faltam para tirar essa tala e ter meus movimentos livres outra vez, ela impede que eu consiga colar meu corpo ao dele e sentir cada músculo rijo que ele possui.

Enquanto eu caminhava até sua casa, estava decidida em encerrar essa relação, decidida que não faríamos bem um para o outro. Estava decidida. Mas, neste instante, tudo o que eu quero é ter Zander.

— Vem comigo — sussurra ele, levando-me para dentro. Quando estamos na beirada de sua cama, Zander relança sobre meu braço duvidoso em continuar.

Sento-me na cama e baixo a alça do meu vestido.

— Pilar... — murmura ele, tocando a pele do meu ombro, o peito arfando, evidenciando que estamos prontos para selar este acordo invisível e inaudível de que não nos deixaremos.

No entanto, esta assinatura vai demorar um pouco mais para acontecer.

— Zander! — Ouço as vozinhas estridentes de minhas irmãs gritando seu nome em uníssono. Ajeito a alça do vestido e me levanto indo em direção à porta. Este é o tempo para que as duas irrompam invadindo a casa.

— O que está fazendo aqui? — pergunta Pina ao me ver.

— Vim conversar com Zander. E vocês, o que estão fazendo aqui?

— Viemos conversar com Zander — rebate ela.

— Sobre o quê? — Estreito os olhos, sabendo que essas duas não têm limite quando colocam algo na cabeça.

— É nosso negócio — diz, o dedo interpondo entre ela e Pietra.

— Desde quando você tem negócios, Pina?

Ela ergue a cabeça tentando me encarar de mais perto.

— Está vermelha de novo? — O dedo apontado para meu rosto.

— Zander também — indica Pietra.

— O que querem falar comigo? — Zander desvia de sua mira e segue para a cozinha.

— Viemos te falar para namorar a Pilar — diz Pina, indo atrás dele sem nenhum constrangimento.

— Deus do céu! Pina? — Seguro seu ombro fazendo-a me olhar. — A gente vai conversar bem sério quando chegar em casa.

Ela se solta de mim.

— Por que não me ajudam a preparar o jantar? Estão me devendo — pede Zander, intercalando o olhar entre nós, acuado e sem resposta. — Já que estão as três aqui, podemos jantar hoje.

Ele abre a geladeira e analisa seu conteúdo. Pina não percebe o desvio no assunto.

— Só Pietra e eu que podemos te ajudar. Pilar mal consegue fazer xixi sozinha. Hoje eu que a ajudei no banheiro. Três vezes! — reclama, enumerando nos dedos.

— Garota, pelo amor de Deus! — rogo, segurando a vontade de tapar sua boca.

— O que vamos cozinhar? — pergunta Pietra, empolgada.

Zander entrega a Pina alguns legumes e pede para lavá-los, Pietra recebe outras incumbências e eu observo os três interagirem com um sorriso no rosto. Gosto de assisti-los se dando bem, sobretudo, Pietra. Ela não é de se aproximar facilmente das pessoas, é sempre atenta e pondera a quem entrega sua amizade. Zander é um de seus eleitos.

— Não sei como usar. — Pina tem um descascador de legumes na mão. Zander mostra o que fazer. Ela começa a tarefa, desajeitada, porém logo se adapta. Pietra é mais sagaz, nunca começa um trabalho sem exercê-lo com perfeição. Pina observa sua gêmea se dar bem no manuseio dos alimentos com o nariz franzido.

O tempo passa e o aroma da comida invade o ar, as meninas se animam ao ver a refeição quase pronta, Zander ri quando elas dizem que em casa Dona Gertrudes não as deixa mexer nos utensílios de cozinha. Não desminto, já que é verdade. Dona Gertrudes tem suas manias e uma delas é não cozinhar com gente por perto, especialmente, Pina e Pietra.

— Adoro purê de batata! — diz Pina, servindo seu prato.

Zander serve a mim purê, frango grelhado e legumes salteados. Antes de me entregar o prato, corta o frango para que eu consiga comer com apenas uma mão. Pina entrega seu prato a ele e pede para que corte o frango dela também. Pietra revira os olhos cortando o próprio frango.

— Esta cozinha é muito pequena — reprova Pina.

Zander pega os descansos de pratos e os leva até a mesa de centro na sala, depois joga no chão as almofadas do sofá e nos chama para que nos sentemos no chão.

— Parece um piquenique — Pina sorri, enquanto enfia uma garfada de purê e legumes na boca — Podemos fazer um piquenique de verdade um dia, não podemos? — pede ela, a boca cheia.

— E, então? Você vai? — Pietra interrompe Pina e observa Zander de esguelha.

— Vou o quê? — Zander mastiga.

— Namorar Pilar?

Eu quase engasgo. Ao que parece, o objetivo de minhas irmãs é me fazer passar vergonha. Ergo a mão livre demandando que Zander as ignore.

— Vou — responde ele, entre um meio sorriso que faz meu coração liquefazer. Zander tem um atrativo diferente dos homens que já conheci; seu corpo másculo, moldado nas forças armadas se contrapõe a suavidade do olhar que me lança. Ele consegue ser atraente e desafiador, uma mistura encantadora que me deixa cada vez mais fascinada. — Mas não sei se ela vai aceitar — completa ele.

Pina e Pietra se voltam para mim com os olhos arregalados e as mãos na boca.

— Ela vai — murmuro, cerrando os lábios para conter o sorriso.

— Agora Zander é da nossa família? — indaga Pina, batendo animada as mãos.

— Devagar! — disparo, sabendo que sua imaginação não tem fronteira.

— Vou contar para o papai — avisa, levantando-se.

— Devagar! — reitero, apontando para que sente novamente. — Não é você quem vai contar.

— Por quê?

— Porque sim. Termine de comer — arremato.

As meninas engatam assuntos variados, falando da escola, suas amigas e sobre Zander e seus pais. Ele as responde de modo gentil, enfrentando bravamente a curiosidade infinita dessas crianças enquanto eu o encaro, acostumando-me com a ideia de tê-lo como meu namorado.

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