Capítulo 19


Zander



Sob os gritos dos civis, entro no prédio residencial bombardeado por um grupo armado hostil ao governo local. Não só eu como outros companheiros de batalhão. Nosso trabalho é tentar trazer paz a um lugar devastado, onde: a fome, pobreza e violência são as únicas coisas que conhecem. Meus homens e eu entramos e saímos do prédio tantas vezes que perdemos a conta. Estamos exaustos, essas construções antigas abrigam dezenas de pessoas em cada apartamento, não é incomum que quatro ou cinco famílias dividam o mesmo espaço.

— Tenente, o prédio vai desabar! — Cabo Fernandes diz, carregando duas crianças em seus braços. O choro delas se misturam aos de outras me fazendo ainda mais determinado na busca por feridos. Chuto uma das portas e encontro mais duas mulheres. Ensanguentadas e em estado de choque, elas gemem com as mãos na cabeça. Numa vistoria rápida identifico que podem — ainda com dificuldade — andar para fora do prédio. Levo-as até uma das equipes médicas a postos do outro lado da rua.

— Vamos, vamos, tirem todos de lá — ordeno aos meus subordinados.

É difícil enxergar e respirar com a poeira no ar, mesmo assim, continuamos a resgatar na maior parte mulheres e crianças. Praticamente todos os homens desta cidade estão em grupos armados ou foram agrupados para as forças do governo. No final das contas, são sempre os mais vulneráveis os que morrem nesta guerra sem fim, sejam nesses ataques covardes para dominação de um território, seja de fome ou doença.

— Viens! — imploro na língua local para que a senhora no chão venha até mim. Ela aponta para uma cama no canto onde um recém-nascido chora com o corpo coberto de poeira. — Meu Deus! — Seguro o bebê no colo, depois ajudo a senhora se levantar e enroscar seus braços em torno do meu pescoço.

No caminho avisto outra criança, deve ter por volta de uns cinco ou seis anos, ela segura uma das pernas que sangra com um corte profundo.

— Peut marcher? — pergunto ao garoto se consegue andar. Ele nega com a cabeça, o rosto forrado de pó e lágrimas. Seguro-o também, agora com duas crianças e essa senhora para tirar daqui.

As rachaduras me mostram que a edificação não ficará de pé por muito mais tempo.

— Primeiro e segundo piso livres, no terceiro andar ainda têm duas mulheres, senhor. Mas não sei se temos tempo de... — avisa um dos meus homens quando lhe dou o bebê e o garoto.

— Merda! — Saio correndo antes mesmo dele terminar de falar, voltando para o interior do edifício. Mesmo sabendo que o prédio está prestes a ruir, não posso ignorar e deixar que essas mulheres morram. Subo as escadas desviando dos escombros que começam a cair pelo caminho, alguns me acertam ferindo ombro e mão. A estrutura se move, como se estivesse em um terremoto.

Chego ao final do corredor onde encontro as duas mulheres em choque e abraçadas. Preciso segurá-las com firmeza para que voltem a si e sigam minhas instruções.

— Sors d’ici vite. — Ordeno para que saiam rápido. Elas se levantam e começam a andar, cortando os pés descalços em cacos de vidros das janelas quebradas. O rastro de sangue é deixado enquanto correm por suas vidas.

Já no andar térreo e próximos de escapar, enxergo a claridade e meu batalhão na rua. Mas, segundos antes de alcançarmos a saída, o prédio desmorona. O som é ensurdecedor, a poeira cega e sufoca, os escombros nos enterram vivos. Abro a boca em busca de ar, recebendo mais poeira. Cuspo e tusso, quase asfixiando. Quando consigo abrir os olhos, sou recebido pela escuridão e o silêncio sepulcral.

Foco em todos os anos de treinamento para manter a calma. Tento mover minhas pernas, uma delas está presa. Com uma mão livre, alcanço o rádio preso no meu uniforme e tento — sem sucesso — contato com meu batalhão. Está quebrado ou o sinal não ultrapassa os destroços.

Desligo minha mente e amanso meu respirar. Tenho consciência de que só estou vivo porque fiquei preso num bolsão de ar, porém não tenho ideia de quanto ar tenho se continuar com a respiração acelerada. Meu tempo de sobrevivência pode diminuir consideravelmente se eu não me acalmar.

As horas passam ou dias, eu não sei mais. Continuo inerte, num torpor premeditado que pode salvar minha vida. A escuridão e o silêncio se mantêm a cada abertura de olhos. Sinto sede, fome e a cada par de horas se torna mais difícil me manter esperançoso e sereno diante desta condição.

Sinto uma movimentação entre os escombros, talvez sejam meus homens retirando o entulho. No entanto, quando a ruína se move mais uma vez, eu sou arremessado sem aviso para a pior dor que um dia senti. O som gutural que escapa da minha garganta é mergulhado em desespero e desolação. Minha perna presa entre as colunas é esmagada. Meus ossos são moídos. Enlouquecido com a dor, tento mover o concreto...

Nenhum treinamento foi capaz de me preparar para isto.

É demais para suportar, é demais para aguentar.

A fraqueza, náusea, tontura... várias sensações se misturam à dor excruciante.

Fecho os olhos, desfalecendo e tendo a certeza de que este é o meu fim.





Acordo sobressaltado, acendo a luz do abajur e afasto os lençóis. Ofegante, vejo que minha perna não está aqui, não foi só um sonho ruim, foi o pesadelo com o dia do acidente, o dia em que meu destino foi selado.

E exatamente como naquele dia, minha perna começa a doer, como se estivesse sendo esmagada de novo, de novo e de novo. Não me basta sofrer sua falta? Tenho que sofrer com a dor num membro que nem existe mais? Esfrego as duas mãos no coto rugoso, desejando que a dor desapareça e me deixe em paz, que me deixe livre.

Saio da cama e pulando até o banheiro abro o chuveiro e me jogo no chão, implorando que a água quente ajude mais uma vez a aliviar o tormento.





— Você pretende continuar na cidade? — Camile pergunta arqueando a sobrancelha.

— Sim. — Minhas respostas curtas são o máximo que estou disposto a dar na sessão de hoje, o sono agitado e a dor ao acordar exauriram minha energia.

— O que te faz querer ficar?

Suspiro, pensando numa resposta além de sim ou não.

— Gosto de... — hesito, pensando em Pilar e como me sinto quando ela está por perto.

Camile volta a perguntar quando nota que não vou continuar.

— E o seu trabalho?

— A estrutura está quase pronta para receber os equipamentos que Pilar comprou.

— Pilar é aquela moça que vi uma vez?

— Sim.

Sei que deveria contar o que estou vivendo com Pilar e como meu sentimento por ela majora. Contudo, isso é tão diferente do que já senti que não sei como expressá-lo para Camile.

— Tem mais que queira me contar? — ela pressente que não falo tudo.

— Minha perna dói — revelo, mesmo sem intenção de fazê-lo. Em apenas um segundo decido que contar sobre as dores cada vez mais frequentes é mais fácil que expressar meu sentimento por Pilar.

— Qual perna?

— A amputada.

— Você sente dor ou a sensação da presença da perna, como mexer os dedos?

Camile aproxima seu rosto da tela, atenta em minhas palavras.

— Desde que saí do hospital tenho a sensação de que ela está aqui, às vezes acho mesmo que mexi os dedos. Mas, não é isso. O que sinto agora é dor e está aumentando. Esta noite sonhei com o dia do acidente e acordei com a mesma dor de quando estava soterrado. A mesma dor. Como é possível?

Camile inspira, anotando com rapidez em sua caderneta.

— Zander, quando uma pessoa sofre uma amputação agendada por causa de diabetes, doenças vasculares ou carcinomas, tanto médicos quanto pacientes são preparados para aquele momento. No seu caso, não foi assim. Você entrou no hospital em estado grave com alto risco de morte e quando acordou não tinha uma perna, não houve preparação psicológica como acontece em amputações programadas. E mesmo com nossas sessões e o trabalho psicológico póstumo ao acidente... é provável que você tenha desenvolvido síndrome da dor fantasma. Que é diferente de sensação do membro fantasma. A primeira acomete com mais frequência pacientes de amputações traumáticas. Se você está sentindo dor, temos de tratá-lo...

— Não vou voltar.

— com seu neurologista... — minha resposta a pega de surpresa — Zander, você precisa retomar as fisioterapias e acho importante que voltemos com sessões presenciais. A dor que sente vai além da corporal. É também relacionada ao estresse pós-traumático e a maneira como se enxerga atualmente... — Camile elenca as razões.

Baixo a cabeça em silêncio por um ou dois minutos, ela me permite esse tempo de reflexão até que eu delibere voltar a falar.

— Não vou voltar, não agora. A sessão acabou? — questiono, sabendo que nosso horário se estendeu em alguns minutos.

Camile suspira.

— Tudo bem, Zander. Nos vemos na próxima sessão? — Aceno concordando.

Aperto a cabeça refletindo em tudo o que essa perna me tirou e ainda quer tirar. Eu fiz certo, fiz o que os médicos pediram desde que abri meus olhos no hospital, então por quê? Por que tenho que começar tudo de novo?

Meu telefone ecoa com uma mensagem de Pilar perguntando se posso encontrá-la na sua casa. Fecho os olhos por alguns segundos e respiro fundo até me acalmar e colocar a cabeça no lugar. Foco em Pilar e seu pedido e, em vez de respondê-la com uma mensagem de texto resolvo fazer uma chamada de vídeo.

— Bom dia. — Sorrio quando sua imagem surge na tela. Pilar se atrapalha e deixa o telefone cair no chão por conta do gesso. A previsão é que se livre desse incômodo nos próximos dias.

— Oi! — Ela recupera o telefone e anda com ele até se sentar na cama. — Por que me chamou em vídeo? — pesquisa, a testa franzida.

Ela é tão bonita, os cabelos soltos e ondulados caem como uma cascata de chocolate sobre seus ombros, a pele dourada é radiante como o entardecer. Os olhos castanhos brilhantes são um convite a me perder em sua delicadeza. Eles me serenam, me acalmam, me encantam como se eu tivesse sido enlaçado por um feitiço romanesco.

— Você me disse que esse tipo de chamada são comuns entre casais, lembra? — falo, rememorando o dia em que Pilar achou que Camile e eu éramos namorados por estarmos numa chamada em vídeo.

Ela sorri, desviando o olhar.

— A gente é um casal? — investiga, mordendo o lábio inferior.

— Pina e Pietra diz que somos, sua amiga diz que somos, minha tia diz que somos, pensei que seríamos. Não somos?

— Somos. — Ela responde em meio a um sorriso tímido, o rosto avermelhando como se tivesse caminhado sob o sol. — E qual é a resposta? — investiga ela.

— Não sei, preciso ir para a obra e...

— Está me dando um fora? Logo hoje que tenho a manhã livre.

— Eu não seria capaz — respondo, sentando-me e sorrindo.

— Te vejo daqui a pouco então. Dona Gertrudes fez bolo de banana — diz ela, querendo desligar.

— Agora é você quem está me dispensando? — reclamo.

— É que não estou acostumada com chamadas assim...

— É o que os casais fazem — declaro, fazendo-a sorrir mais e encerro a chamada.

Guardo meu telefone e passo a mão pelo rosto. Este último mês tem sido diferente de tudo o que vivi. Não somente por Pilar, mas por tudo que estou aprendendo a lidar. Mesmo que estejamos juntos, alguns homens no trabalho me tratam como se eu tivesse tirado algo deles, mesmo que esse algo seja uma pessoa livre e independente. E ainda que eu tenha dito que enfrentaria os dizeres maliciosos sobre nós, a situação se põe mais complexa a cada dia, eu não digo para Pilar o que ouço e ela faz o mesmo. Ambos ocultando o que não queremos que o outro saiba.





Com a porta da frente sempre aberta, vou direto à cozinha.

— Você chegou! — Gertrudes levanta os braços e corre até mim, ela arrasta uma cadeira e me faz sentar, coloca diante de mim um bolo inteiro de banana. — Preparei o seu preferido.

Sorrio e agradeço.

— Sabe, Zander... — começa, enquanto corta uma fatia. — Pilar quando era menor adorava sair para piqueniques com sua mãe. Elas estendiam toalhas vermelhas no chão, levavam muitos quitutes e passavam a tarde toda brincando, conversando... — ela suspira — Estava pensando, agora que ela tem um namorado, você poderia levá-la para um encontro no...

Pilar entra e interrompe Gertrudes que me pisca um olho e faz sinal de silêncio com o dedo.

— O que foi? Por que essa cara? O que estava falando para ele?