Capítulo 23


Pilar



Amara abre as janelas e cortinas dos cômodos da casa para afastar o odor pela alta umidade e falta de ventilação. As meninas sacodem as mãos em direção às janelas, acreditando que isso ajudará a eliminar o cheiro mais rápido. Realizamos uma limpeza rápida e em meia hora a casa está pronta para nos abrigar.

— Quando vamos nadar? — Pina e Pietra questionam agarrando meu vestido.

— Vai escurecer daqui a pouco, iremos amanhã.

— A gente pode ir mesmo assim — roga Pina, com as mãos juntas.

— Amanhã pela manhã e soltem minha roupa.

Zander recolhe as bolsas do carro e as carrega para dentro.

— Eu te ajudo — diz Amara, tirando dele uma das bolsas. — Temos dois quartos, você fica no último com Pilar e eu com as meninas no outro.

— Não quero dormir com você, Amara. — Pina cruza os braços ao ouvir. — Você ronca alto, da última vez que dormiu na fazenda até os pássaros nas árvores acordaram com seu ronco.

— Quem disse que eu ronco, garota? Estava cansada do tanto que trabalhei no dia da colheita. E vai dormir comigo sim e deixar sua irmã sossegada. — Amara arregala os olhos e inclina a cabeça deixando seus longos cabelos vermelhos caírem sobre seu rosto.

— Se está tentando assustá-la deveria encontrar novos meios. Esse parou de funcionar desde que ela completou cinco anos — expõe Pietra, sentando-se no sofá.

Amara me olha em dúvida.

— É verdade — digo e tiro de suas mãos a bolsa que pegou de Zander.

Zander me segue até a suíte no fim do corredor, mobiliada com uma cama de casal confortável e na parede um grafite feito pela mãe de Amara. Ela o pintou num tom de azul oceânico com as ondas do mar quebrando em branco. É uma pintura linda que transmite toda essa vibração de praia e relaxamento.

Zander observa tudo com atenção.

— O que foi? — pergunto.

Ele se aproxima, uma de suas mãos resvala pela pele da minha face para em seguida seus lábios encontrarem os meus, devagar e suave, assim como a brisa marítima que nos recebe.

— Acho melhor a gente ir ao supermer... Deus! Desculpem! — Amara leva as mãos aos olhos e começa a andar para trás, deixando-nos a sós novamente.

— Ela ia dizer supermercado? — pesquisa Zander, sorrindo de canto.

— Aham! Não vamos ficar sozinhos com as três por perto. Você sabe disso, não é?

— Eu sei — responde ele, conformado.





— Sério que a gente precisa dessa quantidade, Amara? — Fico atordoada ao vê-la colocar seis fardos de cerveja no carrinho.

— Você acha que é pouco? Se acabar a gente volta para pegar mais.

— Zander, vamos ao corredor dos chocolates. — Pina segura o segundo carrinho e começa a empurrá-lo supermercado afora. Ele sai atrás dela com Pietra ao lado.

— As gêmeas vão enlouquecê-lo — diz Amara, meneando a cabeça. — Mas é divertido ver como eles se dão bem. Diferente daquele idiota do Ávila e... Ei! Você cozinha e eu lavo a louça — grita ela ao me ver pegar peixe e carne para assar.

— Você pode preparar os legumes e a salada — informo, apontando para as hortaliças.

— Me deixa ficar com a louça? Eu imploro! — roga, agarrando meu braço.

Na fila do caixa, Zander e as meninas surgem com o segundo carrinho abarrotado de guloseimas e petiscos, daqueles que eu nunca as deixo se empanturrar.

— A gente pode comer essas besteiras só nessa viagem? — pede Pietra.

Zander dá de ombros, indicando que não é sua culpa.

— Não vão comer tudo de uma vez?

— A gente promete! — comemoram em uníssono.

Zander e eu guardamos as compras no porta-malas, enquanto Pina, Pietra e Amara comem uma bala torcida de sabor iogurte com no mínimo uns trinta centímetros de comprimento.

— Esse negócio é bom mesmo — afirma Amara para as meninas.

Em casa, Amara decide distrair Pina e Pietra enquanto Zander e eu preparamos o jantar. Elas brincam do jogo paciência com um baralho antigo. Zander tempera a carne e me ajuda a picar os legumes e preparar o arroz. Ele tem um semblante tranquilo, sereno, tão distinto da primeira vez que o vi.

— Por que está me olhando? — pergunta ele, à medida que corta algumas cenouras.

— Estava pensando naquela cara de mau de quando você chegou à fazenda.

Ele solta faca e cenouras e me fita, estreitando os olhos e cerrando os lábios.

— Assim?

— Mais ou menos assim. — Começo a rir ao ver sua tentativa.

— Com você, as meninas e Amara, eu quase me esqueço dos motivos que me fazem ter aquela cara. — Sorrio ao ouvi-lo.

Depois do jantar, enquanto Amara lava a louça, é nossa vez de brincar com as gêmeas. Cansadas, elas bocejam a cada carta virada do baralho até que não aguentam mais e pedem para ir dormir. Elas escovam os dentes e trocam de roupa, caindo na cama e dormindo poucos minutos depois.

— Mesmo se cair um meteoro no telhado, elas não acordarão — falo, abrindo uma das dezenas cervejas compradas por Amara. Entrego uma lata para Zander, outra para ela e me sento no chão com a terceira.

— Agora é jogo para adultos, bebê! — dispara Amara, separando o baralho como um verdadeiro crupiê de cassino.





O sol que brilha num céu absurdamente azul nos dá bom dia. Viro na cama para encontrar Zander ainda dormindo com um braço dobrado sob a cabeça. Ele ressona tranquilo. Deslizo os dedos por sua barba sem intenção de acordá-lo, mas ele se move e abre os olhos sem pressa, sorrindo ao me ver.

— Bom dia — digo, aconchegando-me em seu peito. Mas os minutos de tranquilidade terminam assim que Pina e Pietra rompem e sobem sobre a cama.

— Vamos nadar agora? Já é manhã e está sol.

Pina puxa o lençol que nos cobre e esbugalha os olhos assim que vê Zander sem a prótese, ela não percebeu que ela estava amparada na mesa de cabeceira.

— Então sua perna é assim? — indaga, esticando os dedos para tocar a pele arredondada.

— NÃO! — Ele alcança sua mão e a segura no ar. Pina franze a testa com a mão presa.

— Eu só queria saber como é — justifica, baixando a voz. Pietra toca seu ombro e balança a cabeça dizendo que não. — Não ia machucar você — completa Pina para ele.

Seus olhos que brilhavam animados, agora marejam com a intensa negativa que recebeu.

Zander solta sua mão. Pina sai correndo da cama e do quarto. Mantenho-me em silêncio, sem saber o que dizer ou fazer. Pietra também emprega o silêncio, encarando Zander e depois sua perna antes de sair do quarto atrás de sua gêmea.

Ele aperta as têmporas ao perceber que ambas se chatearam.

— Eu vou falar com Pina — profiro, levantando-me.

— Pede para ela voltar — demanda ele, envergonhado.

— Eu vou falar com ela e...

— Eu reagi mal. Ela só estava curiosa com algo que nunca viu...

Nos entreolhamos alguns segundos até eu assentir e sair em busca de Pina e Pietra. Encontro as duas encostadas no portão fechado olhando às pessoas que passam pela rua com suas cadeiras de praia.

— Zander quer falar com você — digo a Pina, acariciando seus cabelos.

— Que horas vamos para a praia? — Ela me ignora com o rosto colocado na grade do portão.

— Você o pegou de surpresa, Pina. Por que queria tocar a perna dele? — Ela não me responde e eu continuo: — Lembra quando cortou a perna ao cair da árvore? Você me deixava tocar?

— É diferente! Estava doendo e ainda não tinha cicatrizado. A perna dele já é cicatrizada.

— Não é diferente para ele. A pele cicatrizou, mas ele... ainda sente dor.

Abaixo-me para ficar da altura dela.

— A perna dele dói? — Pina gira o corpo com uma expressão assustada e curiosa.

— É uma dor diferente... por ele ainda não ter se acostumado à falta dela.

Ela suspira e volta olhar a rua.

— Você vai falar com ele? — questiono.

Ela acena concordando e segura a mão de Pietra levando-a com ela. Sigo-as, espiando ambas subirem na cama outra vez. Zander espera sem a prótese. Pina evita olhar para ele.

— Não era minha intenção gritar com você... É que além dos médicos... a única pessoa que tocou minha perna foi...

— Minha irmã? — pergunta de esguelha, ainda desconfiada.

— Sim.

Pina expira o ar demoradamente.

— Me desculpa também — diz ela, por fim. — Você sente falta da sua perna?

Ele assente.

— Quer tocar? — pesquisa ele. É nítido como os três estão desconfortáveis e ainda assim tentando encontrar o limite de cada um. Melindrada, Pina escorrega o dedo indicador percebendo as texturas da pele de Zander. Ele a observa atento e em silêncio, esperando pelo tempo dela.

— Eu nunca conheci minha mãe e mesmo assim sinto falta dela, deve ser igual com a sua perna. Mas a gente se acostuma e você vai também, um dia nem vai lembrar como era quando ela estava aí. Você me conta quando esse dia chegar?

Zander sorri e acede mais uma vez.

— Agora a gente pode, por favor, ir nadar?