Capítulo 27


Pilar




Entro no quarto das meninas, encontro-as com Dona Gertrudes sobre a cama.

— O que ele disse? O Zander vai voltar? — perguntam elas.

— Eu estava rezando para Nossa Senhora da Piedade abrir a cabeça dura desse velho português. — Dona Gertrudes se acomoda na beira da cama esperando que eu conte como a discussão terminou. Mas me sinto tão cansada que não tenho vontade de repetir para ela nem para ninguém. É como se eu tivesse toda a minha energia drenada de uma só vez.

— Está tudo bem! Vou falar com Zander e tudo vai voltar ao normal.

— Então o papai não vai mais brigar com você e nem com o Zander? — Pina pesquisa.

— É isso aí — respondo, esboçando um sorriso fraco. — A senhora serve o jantar para elas e depois as coloca para dormir. Vou até à casa da Suria e não sei a que horas volto.

Dona Gertrudes acede com a cabeça. Visto um casaco, enfio o celular no bolso e pego minhas chaves. Entro no carro, baixo a cabeça e respiro fundo antes de dar a partida.

Estaciono em frente à casa de Suria, as luzes acesas indicam que está em casa e possivelmente Zander também. Minha dúvida é sanada assim que a porta da frente se abre e ele surge, nos entreolhamos à distância algum tempo, até que ele caminha devagar até meu carro.

Destravo a porta e ele entra, sentando-se no passageiro.

— Por que não atendeu minhas chamadas? — pergunto. Zander umedece os lábios sem me responder. Ele mantém o olhar à frente. — Eu não sei o que meu pai disse, mas você não tinha que acatar nenhuma ordem dele.

— Não? — Ele finalmente se volta para mim.

— Deveria ter me esperado chegar para resolver, não sair de lá como um fugitivo.

Ele sorri de canto.

— Não faria diferença.

— Faria sim! Eu falei com ele, você vai voltar e reassumir…

— Não vou — diz ele, silenciando-me. Zander ergue uma mão e acaricia a pele do meu rosto, seus dedos gentilmente escorregam até meus lábios. — Disse a ele que poderia me tirar da fazenda, não da sua vida. Confesso que me passou pela cabeça ir…, mas como posso ignorar você?

Sou penetrada por seu olhar, um efeito que só ele é capaz de me causar e que me faz querer ter seus olhos em mim a todo momento. É como se eu fosse um quadro pintado pelo artista mais renomado do mundo, uma obra esculpida em mármore de carrara pelo escultor mais afamado de todos os tempos. Como se seus olhos nunca houvessem pousado sobre outra mulher, como se eu fosse a inspiração para seus dias felizes.

Aproximo meu rosto do dele, que me recebe com urgência. Seus lábios grudam nos meus com uma ânsia desmesurada, como se estivessem em abstinência e precisassem de mim para viver. Suas mãos se embrenham entre meus fios e seguram minha cabeça contra a dele.

Deixo-me perder em seu beijo, envolvida num encadeamento profundo de sentimentos. Neste instante, o que mais quero é ignorar as barreiras e os empecilhos. Ignorar o futuro que não podemos controlar, os olhares que não podemos desviar, as palavras que não podemos bloquear e acreditar que o mundo é nosso para sempre.

Tenho certeza de que Zander tem a mesma ambição… eu sei, eu sinto pela maneira impetuosa e apaixonada que se agarra a mim. Até que uma batida no vidro desfaz a magia que nos envolve. Separo meus lábios dos deles e vejo Suria.

Ela faz sinal com a mão para abrirmos a janela.

— Vão passar a noite neste carro? Conversem lá dentro. — Seu tom é duro e incomum.

— Ela está brava? — pergunto, quando ela dá as costas.

— Decepcionada é a palavra mais apropriada.

— Comigo?

— Seu pai.

Baixo a cabeça, aceitando sua decepção. Suria sempre teve meu pai em alta conta, seu desapontamento é no mínimo razoável. Assim que entramos, Suria nos chama à cozinha. Ela está sentada à mesa com as mãos cruzadas sob o queixo.

— Suria, eu… — começo a me desculpar, mas ela interrompe pedindo para me sentar. Estou pronta para receber a culpa pelas ações do meu pai. Zander se senta ao meu lado.

— Sei que Zander é um homem feito, mas para mim e minha irmã ele ainda é nosso menino. Não vou permitir que ninguém o trate abaixo do que ele merece… nem seu pai, Pilar.

— Tia, isso… — Zander atravessa. Eu seguro sua mão e sinalizo que ele deixe Suria falar.

— Quando me pediu indicação de um engenheiro, fui até a capital convencer meu único sobrinho de que esta vaga era a chance para ele recomeçar fora do exército. Quando vocês começaram a se envolver fiquei muito feliz, verdadeiramente feliz, eu adoro você, as gêmeas e seu… — Suria hesita um instante. — Nunca pensei que seu pai fosse tratar minha família tão, tão…

Ela nega com a cabeça, descrente pela situação.

— Suria, vou resolver tudo, prometo que…

— Isso não é o tipo de coisa que se resolva, Pilar. Não se tira o preconceito de uma pessoa com as mãos. Se pudesse, eu mesma tiraria com essas — Suria balança as mãos na altura do rosto. — Seu pai tem o juízo formado, mas ele precisa entender que sua língua não pode chicotear como ele bem entender. Zander não está aqui para dar o golpe em ninguém, o que sua família tem…

— Tia, já chega! — pede Zander, calmamente.

— Suria, peço desculpas por tudo o que meu pai fez e disse. Acredite em mim, estou tão decepcionada quanto você, eu… eu…

Ela procura minhas mãos e segura forte contra as suas.

— Sei que você não tem nada a ver com isso, mas não consigo acreditar que Martim… — Suria está visivelmente abalada com a atitude do meu pai.

Esse é o problema de idealizarmos uma pessoa, criando uma visão irrealista apenas no que queremos ver. Somos todos imperfeitos. E mais cedo ou mais tarde alguém que amamos pode nos trazer desilusão.

Suria atribuiu qualidades demais ao meu pai. Já eu mesmo não querendo enxergar sabia que ele tinha seus pecados e defeitos, por isso estou suportando melhor as desilusões que ele me traz.

Solto suas mãos para abraçá-la.

— Você é especial para mim e as meninas, não deixe que as tolices do meu pai estraguem o que sentimos uma pela outra. — Ela se afasta e segura meu rosto.

— Vocês também são para mim, eu adoro você e aquelas garotinhas. Mas, seu pai… ele… Zander não voltará ao trabalho na fazenda, não depois de tamanha humilhação. Sei como a obra é importante para você, mas não tente obrigá-lo a voltar senão eu…

— Não vou, Suria. Entendo a posição de vocês e concordo com o que decidirem.

Suria acede com a cabeça e resfolega, sentindo-se mais leve.

— Você já jantou? — pergunta ela, levantando-se.

— Ainda não.

— Você sabe melhor que ninguém que saco vazio não para em pé, não sabe?

— Eu sei.

Suria abre a geladeira e em menos de dez minutos tem a mesa posta com uma lasanha de frango com queijo e salada verde com palmito salteado. Ela serve a nós três e começa a comer em silêncio, um silêncio carregado de consternação. Escolho deixar mais leve nosso jantar e levantar a disposição de todos, inclusive a minha.

— Vocês sabem qual é o principal ingrediente de uma boa lasanha? — Suria para de mastigar achando que vou erguer algum problema em sua comida. — Uma Suria. — indico o numeral um com o dedo indicador. Ela tenta segurar o sorriso com o elogio ao seu prato.

— Modéstia à parte, você sabe que minha comida é ótima mesmo — afirma, contente.

— A melhor que já comi.

— Melhor que a da Gertrudes?

— É claro! — inclino a cabeça em direção a ela e sussurro: — Só não conta para ela.

Isso é o suficiente para Suria engatar um assunto animado e demorado sobre como aprendeu a cozinhar com sua mãe. Ela nos revela que desde pequena sempre teve curiosidade sobre como misturar os melhores ingredientes, além de assistir a vários vídeos na internet para estar sempre atualizada. Diferente de sua irmã que só sabe cozinhar alguns poucos pratos e que não entende como ainda não matou o marido de tédio gastronômico.

— A mãe sabe cozinhar bem — defende Zander.

— Olha só ele! Quando era pequeno, descia a rua até minha casa e comia meu arroz direto da panela de tão saboroso que era. Se não fosse eu ser vizinha da sua mãe nunca teria conseguido esses músculos, hoje seria um homem magricela e desnutrido que exército nenhum daria jeito.

Ele gargalha, acompanhado por mim. Depois alguns minutos de risada, Suria se levanta.

— A conversa está boa, mas vou dormir. Deixem como está que arrumo pela manhã.

— De jeito nenhum, Zander e eu arrumamos.

Ela acede com um sorriso e segue para seu quarto.

— Vamos lá, musculoso que come arroz direto da panela. Hora de arrumar a cozinha — falo, puxando-o pela mão.

Zander retira a mesa, eu lavo a louça, ele seca e guarda.

— Está tarde, acho que já vou — falo.

— Por que não dorme aqui? — Ele laça minha cintura, encaixando-me em seu corpo. Seu nariz resvala pela pele do meu pescoço eriçando meus pelos. — As meninas estão bem, não estão?

— Estão — sussurro.

— Então fica comigo.

Seu pedido é quase uma prece, um rogo sedutor que me faz dizer sim, mil vezes, sim.



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