Capítulo 3

Zander


Admiro o céu absurdamente azul, sem rastro de nuvens ou nada que o macule, um azul denso, quase palpável. No horizonte, os morros forrados com plantações num tom de verde menos carregado. O verde oliva que dá cor a imensidão de oliveiras cultivadas que avisto desde que chegamos à região. Tamanha a harmonia das cores, é como um quadro vivo diante dos meus olhos, como se essas plantas escolhessem esse lugar dentre todos os outros.

— Se não estiver muito cansado mais tarde vamos à fazenda de Pilar e Martim. É bom que dê uma olhada no lugar.

— Tudo bem — respondo. Apoio a mão sobre minha coxa, analisando se vou conseguir me locomover de maneira decente num terreno acidentado como o de uma fazenda.

Não demora e tia Suria estaciona em frente à sua casa, não deixando dúvidas de que estamos no meio de um município interiorano. Sua casa fica bem próxima à igreja matriz e, apesar de estarmos no ponto central da cidade a rua é calma, sem trânsito e quase sem pessoas.

Assim que desço do carro noto que o clima é frio e afronta o sol no céu sem nuvens, imagino que por estarmos numa região serrana seja sempre assim. Talvez tenha de usar calças mais vezes, mesmo detestando-as por me atrapalharem a andar com a prótese.

— Vem, Zander! — Tia Suria cruza o pequeno portão de ferro. Eu observo a fachada da casa colorida num tom bordô, com portas e janelas em branco. A casa antiga, construída no centro do terreno é rodeada de roseiras amarelas, brancas e rosas, além de outras flores e do verde vindo das trepadeiras nos muros que a cerca.

A sala de estar combina com o estilo de tia Suria; jarros com água abrigam as flores que ela colhe de seu jardim, quadros coloridos ajudam no visual cheio de cor. Reconheço alguns dos móveis da casa dos meus avós de quando ainda eram vivos. É como se eu tivesse voltado no tempo.

— Esses eram da sua avó — diz ela, apontando para o aparador cheio de fotos antigas.

Aceno com a cabeça e me aproximo do móvel para olhar as fotos. Ela com o falecido marido, meus avós, minha mãe, pai e muitas fotos minhas desde bebê até a adolescência.

— Preciso de fotos suas como está agora — profere, parando ao meu lado. — Vou mostrar seu quarto.

Caminhamos por um corredor com chão de madeira escura e tão brilhante que me dá a impressão que alguém acabou de encerá-lo. Ela abre a penúltima porta e me deparo com um quarto pronto e mobiliado.

— Estava me esperando? — indago, sorrindo.

— Deixo este quarto pronto para quando recebo alguma amiga vinda da capital. Estou feliz que desta vez é você quem vai usá-lo — fala, dando-me tapinhas nas costas, incentivando-me a entrar. Os móveis claros destoam do chão escuro e a roupa de cama segue o mesmo tom colorido do restante da casa.

— Quando seus pais enviarem seus aparelhos de exercício, colocaremos na área coberta dos fundos. Vai conseguir se exercitar aqui exatamente como fazia na casa dos seus pais. Quero que se sinta bem aqui, ouviu?

— Eu vou, tia.

— Vamos comer, estou faminta e você também deve estar com fome.

Na cozinha ela me fala um pouco sobre a família para qual vou trabalhar. Diz que a filha mais velha é quem cuida do local com o pai, que eles vivem da produção de azeite e que a fazenda cresce rápido.

Explica-me também que as oliveiras plantadas demoram anos até darem os primeiros frutos. Que desta vez terão a maior colheita de todos os anos anteriores, por esse motivo precisam da construção de uma nova estrutura para o processamento dos frutos.

— Como os conheceu? — pergunto, curioso que ela saiba tanto sobre a família.

— Todo mundo conhece todo mundo numa cidade pequena como Maria da Fé. Mas minha amizade com Pilar começou quando dei aula para as gêmeas, trabalhei um ano na escola em que elas estudam. Aquelas pestinhas são tão cativantes que quando percebi já era mais amiga da família que professora delas.

— Não dá mais aula?

— Só dei aulas nesse período porque uma das professoras estava de licença maternidade. Quero aproveitar minha aposentadoria cuidando das minhas rosas e batendo perna por aí.





— Por que os pacotes? — pergunto à minha tia, quando ajudo a carregar dois embrulhos para o carro.

— É aniversário das gêmeas — informa ela, abrindo o porta-malas.

— É uma festa? Então é melhor eu ir outro dia.

— Não é uma festa, é só a família e alguns amigos mais próximos.

— Eu não sou nenhuma das duas coisas — esclareço, encarando-a.

— É meu sobrinho e será o engenheiro da obra de ampliação — avisa, fechando o porta-malas.

— Acho melhor não misturar as coisas, tia. Não sou amigo deles e nem pretendo ser.

— O que te impede de ser amigo deles? Pilar e Martim são encantadores. — Ela sustenta uma mão na cintura, aborrecida com minha fala.

Aperto o topo do nariz tentando encontrar as palavras certas para não parecer rude.

— Tia, eu não duvido que sejam, mas não estou aqui para fazer amigos. Estou para fazer um trabalho, receber por ele e voltar para minha casa, ou sei lá para onde eu vá a partir daqui.

— Como assim a partir daqui? Para onde quer ir? — Seus olhos arregalados parecidos com os da minha mãe.

— Eu não sei! Não sei nada sobre minha própria vida. A única coisa que sei é que não estou com cabeça para fazer novos amigos ou confraternizar com pessoas que não conheço.

— Você está certo, Zander. Está aqui para trabalhar — começa a dizer e eu aceno concordando por ela ter entendido meu ponto —, mas eu não estou, estamos indo para o mesmo lugar, no entanto, temos objetivos diferentes. A fazenda é grande, explore o lugar, conheça o terreno e espere até eu terminar de fazer o que eu estou indo fazer.

Solto uma lufada de ar. Ela pode ser tão persuasiva quanto minha mãe.

— A essa hora minhas pequenas já estão em casa e ainda há luz suficiente para você explorar Villa Oliva — diz, entrando no carro e encerrando a discussão.

O caminho à fazenda é tortuoso, cheio de subidas e descidas numa estrada de terra com oliveiras para todos os lados.

— Abre a porteira para mim? — pede minha tia, apontado para entrada da fazenda com a pequena placa escrita Fazenda Villa Oliva.

Hesito um instante assim que abro a porta e olho para o chão. O solo irregular e cheio de pedriscos, não me dá segurança para andar. Sei pode ser um medo infundado, mas é a primeira vez que ando num terreno assim desde que perdi a perna. Coloco o meu pé no chão e em seguida o com a prótese, impulsiono meu corpo para o alto e então estou fora do carro. Com os olhos focados no caminho, ando devagar até a porteira, ergo a corrente que segura as duas folhas de madeira e as escancaro. Minha tia cruza sem me esperar, ela continua em direção à casa que fica uns cem metros de distância.

Incrédulo, jogo a cabeça para o alto. Decido seguir seu conselho de que estamos aqui com objetivos diferentes e dar uma olhada no lugar. Vou precisar estudar todo o processo para entender exatamente qual a necessidade deles. Mas, antes resolvo marchar por entre as oliveiras, é a primeira vez que estou numa plantação desse porte e não posso negar que estou curioso.

Enfileiradas com uma distância de aproximadamente um metro e meio entre elas, parecem até peças de dominó alinhadas. É bonito, calmante. Caminho com tranquilidade, sem me importar com o tempo, analisando e apreciando essas árvores. No chão, um tapete se forma pelas folhas que se desprendem dos galhos, tal qual uma almofada me convidando a sentar em meio ao silêncio, ao verde, aos pássaros...

Sento-me no chão recostado no tronco de uma delas e fecho os olhos. Mas, pouco tempo depois, ouço um murmurar que me traz de volta à realidade. Encontro duas garotinhas suadas e absolutamente iguais me encarando e com os cabelos desgrenhados.

— Eu acho que é um ciborgue, Pietra. É igual ao homem do filme que a gente viu, não é? — uma delas diz, cobrindo a boca com a mão, achando que assim eu não ouço o que diz.

— Até poderia ser um ciborgue, já que eles são organismos que se utilizam de tecnologia artificial para melhorar sua condição física. Mas, não é. É só um homem.

— Tem certeza? E se ele for um homem do futuro? — pergunta ela, desconfiando da explicação da irmã.

— Não seja boba, Pina. É só um homem dormindo na nossa plantação.

A irmã ainda em dúvida dá um passo para mais perto de mim. Não preciso pensar muito para perceber que essas são as gêmeas que minha tia veio presentear.

— Moço, você é mesmo um homem? — pergunta, fazendo sua irmã se irritar e cruzar os braços.

— Sim... eu... sou um homem. — Uso o tronco da oliveira como apoio para me levantar.

As duas me acompanham com o olhar.

— Por que sua perna é igual a de um robô? — a mais curiosa continua. A outra não diz nada, mas percebo que tem a mesma dúvida.

— Eu... sofri um acidente, o médico precisou tirar a minha perna de verdade e colocar essa prótese no lugar.

As duas aquiescem com a cabeça e voltam a encarar minha perna.

— Deve ter sido um acidente bem sério — diz a garota que se chama Pietra. Elas são mesmo parecidas, mas facilmente diferenciadas quando falam.

— Foi bem sério — respondo, olhando para além delas, procurando o adulto que as acompanha.

Elas fazem como eu e olham para trás.

— O que está procurando? — perguntam em uníssono.

— Estão sozinhas? — questiono, quando não vejo ninguém por perto.

— É a nossa fazenda. Sempre andamos sozinhas por ela — responde Pietra, a garota que parece ter resposta certa para tudo. — E você? Por que invadiu nossa fazenda para dormir?

— Não invadi — apresso-me em dizer.

— Conhecemos todos os funcionários e você não é um deles — rebate, séria.

— Eu cheguei com a minha tia, a Suria.

Pina se agacha para olhar minha prótese mais de perto, enquanto Pietra se mantém com os braços cruzados, desconfiando de cada palavra minha.

— Não estou mentindo, Pietra.

Ela estreita os olhinhos já pequenos, censurando-me. Sorrio quando me dou conta de que estou passando por uma sabatina feita por uma garotinha que não chega nem à minha cintura.

— Por que está rindo? — pergunta a que está abaixada.

— Pina e Pietra! Voltem agora para casa! — Uma terceira voz chega aos meus ouvidos.

— É a Pilar. Hoje é o nosso aniversário, a gente tem que voltar para casa — diz, ficando de pé a mais simpática das irmãs. — Você sabia que a sua tia Suria também é a nossa tia Suria? Ela disse que iria comprar dois patinetes para nós.

— Por que está falando tudo isso para um estranho, Pina? — reclama Pietra, segurando a mão da irmã.

— Ele não é um estranho, a tia Suria também é tia dele.

— Sua irmã tem razão, por que está me falando tudo isso? — Sou obrigado a concordar, eu poderia ser um ladrão, um psicopata ou qualquer outra merda. Isso não está certo, duas garotinhas sozinhas no meio desta plantação.

— Eu vou dizer para todo mundo levar os presentes de vocês em... Quem é você?

A terceira irmã finalmente aparece.