Capítulo 36 - Zander


Visto a prótese aquática e, embora ela seja mais rígida, permite que eu possa entrar no mar e andar por áreas úmidas com mais aderência e firmeza. Pina e Pietra me assistem com atenção, principalmente, Pina. Ela me faz várias perguntas. Respondo-a com naturalidade, mesmo que ainda seja estranho ter essa conversa com outras pessoas. Meus pais e minha tia evitam falar sobre a prótese ou a amputação, como se ambas não existissem, como se minha vida não tivesse virado completamente do avesso.

Essas meninas fazem o contrário, elas sabem, elas veem e não ligam que eu não tenha uma perna, falam sobre isso, tiram suas dúvidas e o fazem com tanta ingenuidade e doçura, que com elas começo a perceber que talvez seja essa a visão que também devo seguir.

— Imagina se aparecer um tubarão e ele tentar morder sua perna? — Pina questiona, rindo de sua própria piada antes mesmo de concluí-la. — Ele vai quebrar os dentes... — gargalha, sacudindo as mãos.

— Ele ainda tem outra perna, Pina — responde Pietra, sem esboçar humor.

— Eu sei, mas o tubarão vai preferir a perna que brilha, não acha? — disputa, apontando para a estrutura cromada.

Pietra revira os olhos.

— Estou pronto e vocês? — Coloco-me de pé.

— A gente também — falam juntas.

— Pilar, Amara — Pina corre gritando. — O Zander está pronto.

— Nós também. — Ouço Amara dizer do outro quarto.

Carregando cadeiras, guarda-sóis e uma caixa térmica com petiscos, sucos, água e cerveja, chegamos à areia. O mar à frente com suas águas calmas e claras nos saúda em aliança a um céu azul, ensolarado e sem nuvens.

— Podemos entrar na água? — Pina e Pietra imploram à Pilar que autoriza com um aceno de cabeça. As duas correm em disparada levantando areia com os pés.

— Fiquem no raso! — grita Pilar, abrindo um guarda-sol.

— Até o anoitecer ninguém me tira desta cadeira. — Amara se senta, ajeita seu chapéu e óculos escuros, abre uma lata de cerveja, enterra os dedos na areia e suspira depois de sorver uma golada de sua bebida gelada.

— Não acha meio cedo para beber?

— Não existe a palavra cedo quando estamos na praia.

Pilar sorri e se vira para mim.

— Quer ir para a água?

— Vão, vão! Eu fico cuidando de tudo por aqui — diz Amara, acenando uma mão.

Tiro a camiseta passando-a pela cabeça e jogo numa das cadeiras, ficando só com a bermuda. Pilar segura minha mão e caminhamos juntos em direção ao mar. Ela sincroniza seus passos aos meus, caminhando devagar, paciente e serena, sem se abater com minha condição.

Encaro seu perfil de relance, os cabelos brilhando sob a luz do sol. Sinto meus batimentos pulsarem com mais potência e todo meu corpo ser invadido por uma sensação diferente de antes. Desde que conheci Pilar é assim, novas sensações surgem sem aviso. De repente, eu as sinto. Como se flechadas atingissem meu peito carregando para dentro dele uma nova informação, uma nova emoção... que enraíza e aflora, tomando conta do meu coração.

— Aqui! — grita Pina ao nos ver. Ela corre e arremessa água em sua irmã.

Começamos a nos divertir sem nem lembrar de como é a vida fora desta água. É como se o mundo tivesse estacionado, como se o tempo tivesse parado e, nada além de nossas risadas e brincadeiras importassem.

Por este tempo esqueço de tudo; da dor que sinto, da carreira que não tenho mais, da perna que me foi tirada... Noto que não é diferente com Pilar, é visível em seu semblante que ela também deixou suas preocupações de lado, os problemas na fazenda, com seu pai...

Nada mais existe, apenas nossa felicidade.





— Eu não quero ir embora — choraminga Pina no sofá, deitando sua cabeça em meu ombro. Afago seus cabelos, enquanto Pilar se ajoelha à sua frente e diz:

— Eu prometo que não vou demorar tanto para trazê-las à praia novamente. Juro que nas férias ficaremos muitos dias aqui e vocês vão aproveitar até enjoar.

— Nunca vou enjoar da praia.

— Nem eu — responde Pietra, sentando-se do outro lado.

— Ninguém vai enjoar e isso é ótimo, mas precisamos voltar. Vão terminar de arrumar suas coisas e colocar no carro.

As gêmeas se levantam e caminham em marcha lenta, notadamente aborrecidas por terem de ir embora.

— E você, também vai reclamar por ir embora? — Pilar se aconchega ao meu lado com um meio sorriso no rosto.

— Só se você me abandonar aqui. — Deslizo os dedos por sua sentindo o toque aveludado de sua pele bronzeada pelo sol praiano. Trago seus lábios aos meus e a beijo com desejo. Ela me recebe com o mesmo querer, nossos corpos queimam e não é pelo calor desta cidade. A vontade é levá-la para o quarto agora e postergar nossa saída, mas isto logo se mostra impossível quando Amara entra na sala e pigarreia para se fazer presente.

— Desculpa atrapalhar os pombinhos, mas preciso de ajuda para terminar de limpar a cozinha.

Levanto-me com Pilar, ambos sorrindo. Seguimos com Amara para deixar a casa em ordem e pegar a estrada.





— Tchau, praia! — diz Pina com o rosto colado na janela do carro ao ver o mar se distanciar ao fundo.

— Eu gosto de vir à praia, mas amo a fazenda — argumenta Pietra.

— Você ouviu eu dizer que não amo a fazenda? — As duas se encaram por alguns segundos prontas para um embate que se dissolve no ar quando Amara liga o rádio e a voz de Shakira volta a ressoar. Aprendi na vinda para cá que Shakira é a cantora preferida das gêmeas que conhecem e cantam todas as músicas. Ao que parece esta será novamente a trilha sonora no carro. Pina e Pietra cantam animadas, elas fazem duetos e criam harmonias. Sorrio ao assisti-las, elas são realmente garotas especiais e não há um minuto com elas que seja entediante ou sem graça.

As horas de volta para a fazenda passam rápido com a alegria que emana de todos, Pilar sorri radiante, Amara se diverte ora cantando com as meninas, ora criando charadas para adivinharmos. As meninas riem a maior parte do tempo e eu não devo estar diferente delas, é certo que eu esteja com a mesma expressão realizada e sorridente no rosto.

Por fim, chegamos à fazenda. Pina e Pietra dormem apoiadas em mim, a bateria delas descarregou totalmente tem mais ou menos uma hora.

— Vai direto, Amara. Deixa o Zander primeiro — avisa Pilar, tocando a mão de Amara que acena com a cabeça.

Estranho a mudança repentina de postura de Pilar e desvio meu olhar para a sede, é neste instante que nossos olhares se cruzam, o meu e o de Martim. Ele estreita os olhos envelhecidos, encarando-me com ferocidade, espinhos saltam de suas órbitas e atravessam minha carne.

— Ele não sabia que eu iria, não é? — indago, entendendo o óbvio.

Pilar não responde, apenas meneia a cabeça negando.

— A gente precisa conversar — falo.

Pilar gira o corpo e me olha.

— Amanhã, por favor.

Amara estaciona, desço e retiro minhas coisas do carro, Pina e Pietra sonolentas nem se dão conta de que sai do carro. Pilar me acompanha até a porta e nas pontas dos pés procura meus lábios.

— Você vai ficar bem? — questiono, duvidoso de que rumo sua noite tomará.

— Não se preocupe. A gente se vê amanhã — responde, sorrindo contra meus lábios. Simulando que tudo esteja bem, mesmo que nós dois saibamos que não.

Observo-as dar a volta no carro e penso que está na hora de mim e Martim conversarmos para entender qual é seu real problema comigo e o que o faz me rechaçar com tanta energia.






Capítulo sem revisão ortográfica. Próximo capítulo quinta-feira 11/02




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