Capítulo 4

Pilar



Assim que chegamos em casa, peço às meninas trocarem de roupa e irem brincar um pouco. As duas entoam um sonoro sim e saem correndo do carro. Dona Gertrudes se equilibra entre as gêmeas velocistas e desce os pouco degraus da entrada para vir me ajudar a descarregar o carro com os enfeites da festa de mais tarde.

— Será que dá para arrastar? — lamenta Dona Gertrudes, colocando sobre a mesa da sala de jantar as bandejas que tiramos do carro.

— Quer acabar com suas costas? — Vou até ela e a afasto da mesa em maçaranduba com lugar para dez pessoas e que precisa de no mínimo três homens para tirá-la do lugar. — Vamos apenas colar as flores de papel na parede e enfeitar a mesa, não precisamos tirá-la do lugar.

Nossa casa carrega a essência dos avós, como os móveis antigos em madeira maciça que ocupam sala de estar, jantar, cozinha... a louça portuguesa azul que decora as paredes, o amarelo na fachada que é a cor escolhida muitas décadas atrás. É uma maneira de não esquecer quem somos e de onde viemos, é mantê-los vivos através do tempo.

— Não fica melhor para tirar fotos se a deixarmos rente à parede? — indaga, com as mãos na cintura.

— As meninas detestam tirar fotos. Caso consigamos algumas durante os parabéns já será muita sorte. — Abanco uma flor em papel para grudar na parede de onde tiramos dezenas de pratos portugueses.

— Seu pai não deu as caras hoje. Cada ano que passa ele sai mais cedo e volta mais tarde.

— Eu sei — respondo, saindo para à cozinha. Não posso arrastá-lo, não posso obrigá-lo a comemorar o dia de Pina e Pietra, não posso e não sei como fazer com que ele não sofra mais. Eu, simplesmente, não sei como fazer.

— Cheguei muito cedo? — ouço a voz de Suria.

— Chegou na hora certa, Suria — diz Dona Gertrudes, entregando-lhe uma bandeja cheia de brigadeiros. — Leve à mesa, por favor.

— Não estou aqui para trabalhar — contesta, enfiando um docinho na boca, antes de segurar a bandeja.

— E seu pai, onde está? — pergunta Suria, esticando o pescoço para olhar pelo corredor.

Suria chegou às nossas vidas quando lecionou para as meninas durante um ano. Foi inexplicável como nos gostamos de cara e logo aquela relação ultrapassou os muros da escola. Ela é uma mulher fascinante, independente, sábia e cheia de energia. Sei que ela não vê meu pai apenas como amigo, o único problema é que Martim Castanheda tem seu coração guardado a sete chaves. Tenho receio de que esse sentimento não correspondido acabe por afastá-la de mim e das meninas.

— Veio ver meu pai ou as meninas? — questiono, inclinando a cabeça.

— As meninas! Mas se estou aqui o que me custa cumprimentar toda a família?

— Ela não consegue nem disfarçar que está caidinha pelo velho português. — Dona Gertrudes ri com os braços cruzados.

— Sou viúva, ele é viúvo... que mal tem? — questiona de soslaio.

Suria sabe que minha mãe morreu quando as meninas nasceram, o que não sabe é que meu pai some hoje justamente porque ainda vive o luto de sua morte. Talvez eu deva conversar com ela e explicar o que acontece no coração daquele homem, talvez eu deva também conversar com ele e deixar claro o que Suria sente. Mas quão invasiva eu seria para ter esse tipo de conversa?

Talvez seja por isso que depois de Ávila eu não quis nenhum relacionamento, minha vida é problemática o suficiente com as questões da fazenda, as gêmeas, meu pai... acrescentar um namoro a esta lista é pedir para desatinar de vez.

— Mal nenhum, eu mesma comecei a namorar o João da colheita. — Dona Gertrudes confessa ajeitando o avental na cintura.

— Você o quê? — Perplexa quase deixo cair uma das bandejas.

— Não acredito! — Suria puxa uma cadeira e se senta.

— Começamos há algumas semanas — conta ela, um tanto sem jeito.

— O João da colheita? Sério? — João trabalha na fazenda desde antes de eu nascer. Ele é um dos amigos mais próximos do meu pai, nunca se casou e, na verdade, nunca vimos ou ouvimos falar de que tenha namorado alguém.

— Quero detalhes — diz Suria.

— Eu não quero. Vou procurar as meninas. — Saio da cozinha ainda atônita que o casal mais improvável de Maria da Fé tenha se formado sem que eu tenha desconfiado.

Começo a andar em direção ao olival. Minhas irmãs adoram correr por entre as oliveiras desde que aprenderam a andar. Elas se encantam pelo processamento das azeitonas e dizem que assim como eu, meus pais e meus avós, vão aprender a cuidar da fazenda e produzir muitos litros de azeite. São vários hectares que venho plantando desde que iniciei o processo de crescimento da fazenda, as oliveiras mais jovens são as mais próximas da nossa casa e já têm cerca de seis anos de vida; elas começaram a dar frutos no ano passado e, para esse ano todas as oliveiras da fazenda florescerão. Então é bem provável que no futuro Pina e Pietra sejam fundamentais para manter nosso legado vivo.

— Pina e Pietra, voltem para casa agora! — grito com as mãos em concha.

Ouço as duas conversando, paro por um segundo para identificar a direção do som.

— Achei vocês — murmuro, caminhando para o sentido certo. — Eu vou dizer para todo mundo levar os presentes de vocês em... Quem é você?

Avisto um homem no meio da plantação com uma expressão rígida, como se estivesse pronto para me dar uma bronca. Analiso seu corpo de cima a baixo, noto que ele não tem uma das pernas; no lugar uma prótese mecânica.

Conheço a maioria das pessoas em Maria da Fé, principalmente, aqueles que se aproximam da minha idade e garanto que ele não é daqui. Então, por que um homem que não é um morador local e, com absoluta certeza não é um dos meus funcionários está no meio do olival com minhas irmãs?

— Pilar, eu pensei que ele era um ciborgue — diz Pina, correndo sorridente. Num instinto protetor agarro sua mão e a coloco detrás de mim.

— Pietra! — A chamo com firmeza e ela também corre até mim.

— Quem é você? — repito, desta vez com uma entonação mais dura.

— Elas estavam sozinhas. — Ele aponta para as meninas e ignora minha pergunta.

— Esta é a casa delas — contraponho, usando um tom mal-educado propositadamente.

— Pilar, a tia Suria... — começa Pina.

— Psiu! A gente vai conversar daqui a pouco, garota — falo, repreendendo-a.

Incomodado, o homem solta uma lufada de ar. O que me incomoda muito mais, afinal foi ele quem invadiu minha propriedade.

— Encontro você dentro da minha fazenda, sozinho com minhas irmãs e é você quem está lufando irritado? — Solto Pietra para usar a mão e apontar meu dedo indicador na direção dele.

Ele estreita os olhos.

— Não devia deixá-las sozinhas por aí, não importa que estejam acostumadas a andar por esses campos, é perigoso que duas garotinhas fiquem ao léu.

— Ao léu? Quem disse que elas estão ao léu? Elas estão na casa delas, se tem alguém ao léu aqui é você — rebato, inconformada.

O homem dá um passo à frente. Assustada, recuo com as meninas. Ele estaca no lugar quando me vê afastar e em sinal de rendição ergue as mãos abertas na altura do peito.

— Sou Zander, sobrinho da Suria. Vim conhecer a fazenda para o projeto de ampliação.

— A tia Suria é tia dele também — complementa Pina.

Ele morde o lábio inferior, fecha os olhos por um instante e volta a falar:

— Desculpe se te assustei, eu cheguei com a minha tia para olhar a fazenda enquanto ela entregava os presentes das suas irmãs. Eu acabei me sentando aqui — aponta para uma das oliveiras —, elas chegaram — sinaliza as meninas — e começaram a me fazer várias perguntas. Imagino que você também concorde em como é perigoso elas serem tão amigáveis com alguém que nunca viram. Eu poderia ser um ladrão ou coisa pior... Vocês vivem num lugar tranquilo, mesmo assim, não se pode baixar a guarda. É preciso considerar que o perigo está sempre à espreita.

— Uau! Ele fala igual ao ciborgue policial do filme — suspira Pina, encantada.

— Ele não é um ciborgue. Quantas vezes vou ter que repetir, Pina. — Pietra se solta da minha mão para brigar com a irmã.

— E daí que eu o acho parecido com um ciborgue. Isso é seu problema, Pietra?

— Parem — peço, tentando entender o que está realmente acontecendo.

— Só porque ele não tem uma perna? — refuta Pietra, esquentada.

— Parem! — berro e as duas param de falar. — Um dia vou enlouquecer e a culpa será de vocês, ouviram? — rezingo, segurando-as afastadas uma da outra.

Enfim consigo me concentrar no homem à frente.

— Você é o engenheiro? — pergunto por fim.

— Sou.

Desta vez sou eu quem lufa.

— Essa era a primeira coisa que devia ter me dito! E, depois de nos apresentarmos, você poderia dizer: Pilar, isso não é da minha conta, mas não acho que seja seguro suas irmãs correndo sozinhas pelo olival.

— A segurança delas não é mais importante? — indaga, confuso.

— Não foi isso o que eu disse.

— Moço, tem certeza de que você não é um policial do futuro? O ciborgue do filme falava igual você. — Pina retoma o assunto.

— Deus do céu, vão para casa. Vão agora! — ordeno, empurrando-as pelas costas para se apressarem. As duas começam a correr e logo estão longe das minhas vistas.

Viro-me para ele que se mantém no lugar, meu olhar se fixa em sua perna e ele parece não gostar porque muda a posição de seu corpo.

— Zander, não é? Eu estava com Suria até agora e ela não me disse que você tinha vindo com ela. De qualquer forma, hoje não consigo explicar o que preciso, tampouco mostrar a fazenda...

— Não precisa se preocupar. Vou esperar minha tia lá fora — diz, começando a andar. Ele marcha com certa dificuldade, é como se não estivesse seguro em caminhar aqui.

— Não faz sentido esperar lá fora se é sobrinho da Suria.

Ele hesita alguns segundos, mas acena concordando.

O olhar duro que estávamos sustentando até agora se suaviza um pouco, mas não pode se dizer que estou confortável em sua presença e nem ele com a minha. Ele volta a andar, mais lento que uma pessoa comum. Fico sem saber o que fazer, ando a frente na velocidade que estou acostumada ou diminuo meu ritmo para acompanhá-lo?

Zander percebe minha indecisão e se pronuncia:

— Você pode ir à frente, não precisa me esperar.

— Eu... vou ver se as meninas voltaram. — Sinalizo o caminho que as gêmeas fizeram.

Ando mais rápido e logo estou fora do campo. Olho para trás e não o vejo, só então noto que estava todo esse tempo segurando a respiração. O que aconteceu para ele não ter uma perna? Por que Suria não me disse que havia vindo com ele? Evitaria toda essa confusão. Por que não me disse que tinha um sobrinho tão bonito? Deus do céu, o quanto ele se exercita para ter aqueles braços?

— Pilar! — ouço Suria gritar meu nome.

Deixo de divagar nos braços musculosos de seu sobrinho e corro para dentro.