Capítulo 5

Zander


Mais uma vez percebo seu olhar se direcionar para a perna que não tenho. É uma sensação estranha, como se eu estivesse nu em praça pública; sinto-me indefeso, vulnerável e um tanto irritado. São sentimentos com os quais não sei conviver, eles são o oposto de tudo o que eu sentia antes e é por isso que eu os odeio.

Desde que saí do hospital sem uma perna, os lugares que frequento são com pessoas como eu. Nas idas ao médico, fisioterapia, psicóloga… sempre havia alguém aprendendo a viver sem uma parte do corpo. Mas, aqui, eu me sinto nu.

É por isso que uma das gêmeas crê que sou um ciborgue, é razoável que a criança pense assim. Se a irmã mais velha não consegue disfarçar sua rejeição a um homem amputado, como posso pedir que crianças me vejam como um homem comum?

— Cibor… moço! — Uma mãozinha delicada segura a minha. Olho para baixo e vejo a gêmea mais simpática sorrindo para mim. Apesar de serem idênticas fisicamente, não é tão difícil saber quem é quem. — A nossa tia Suria trouxe mesmo dois patinetes, olha só. — Ela aponta para o brinquedo de duas rodas.

— Resolveu entrar? Vou te apresentar Pilar. — Minha tia surge com uma bandeja repleta de minilanches.

Penso em dizer que é tarde demais, que já a conheci. A criança continua a me puxar e indica que eu me sente numa das poltronas na ampla sala de estar integrada a de jantar. É uma casa típica de fazenda, parece até que fui transportado para o tempo colonial.

— Tem duas rodinhas, a gente tem que se equilibrar em cima dessa parte. — Ela ergue o patinete e começa a me mostrar tudo nele.

Enquanto isso, minha tia traz Pilar pelas mãos.

— Esse é Zander, meu sobrinho, mas aqui ele será seu engenheiro. Então não se preocupe com o laço familiar, faça-o trabalhar duro.

— Sim, eu o conheci lá fora — murmura ela, sem graça.

— Sério? Já se conheceram?

— Você consegue andar no patinete com uma perna só? — a garotinha pergunta, olhando para minha prótese.

— Pina, pelo amor de Deus! Vá brincar com Pietra, ela está patinando na varanda. — Pilar indica que a menina saia. — Desculpa, ela gosta de conversar. Você quer comer alguma coisa?

— É claro que ele quer, os lanches que Gertrudes fez são deliciosos — Tia Suria responde por mim.

— O que tem eu? Nossa! Quem é esse rapaz lindo? — Uma senhora aparece ajeitando seu coque e para ao lado de Pilar.

— Lindo assim só pode ser da minha família, Gertrudes. É Zander, meu sobrinho.

Sorridente, ela estica uma mão para me cumprimentar.

— Acho que nunca vi um rapaz tão aprumado em Maria da Fé. Você é da capital?

Aceno concordando, à medida que aperto sua mão. Ela desvia de relance para minha perna, mas não aparenta se importar, voltando a olhar meu rosto e braços.

— Pilar, você já viu moço bonito assim? — continua ela, deixando-me acanhado.

— Por que pergunta para mim? — murmura Pilar, também sem graça.

Penso em dizer a essa senhora que diferente dela, Pilar mal me olha, que a cada par de minutos seus olhos estão na minha perna, na verdade, na falta de uma perna.

Como ela poderia me achar bonito?

— Vamos colocar o bolo na mesa. — Pilar enrosca seu braço no da senhora e sai arrastando-a para longe. Acompanho-as com o olhar e noto que Pilar diz algo a ela, como se a repreendesse. Em seguida as duas me olham de viés. Começo a achar que aceitar esse trabalho não foi uma boa ideia.

— Vocês se conheceram lá fora? — pergunta minha tia, sentando-se ao meu lado.

— Sim.

— E o que achou? Ela é encantadora, não é?

Mia tia deve gostar muito dela para estar com esse sorriso de orelha a orelha.

— Não — respondo, com sinceridade.

— Como não? — Arregala os olhos, surpresa com minha resposta.

De repente, uma manada de crianças gritalhonas invadem a casa chamando por Pina e Pietra. Elas correm sem direção, como se o mundo estivesse prestes a sucumbir. Tia Suria se levanta e começa a ordená-las escoltando-as para a varanda. É inacreditável que ela tenha conseguido lecionar por tantos anos, eu ensurdeceria na convivência diária com seres tão barulhentos.

No meu batalhão, silêncio queria dizer silêncio; mantínhamos a ordem, o costume, a postura.

Tiro proveito de que ninguém repara em mim e me levanto para esperar fora da fazenda. Sinto-me tão exposto aqui que mal consigo respirar. Assim que cruzo a porteira, inspiro profundamente o ar.

Sento-me no chão e percorro os olhos por minha prótese. Hoje entendi que sempre terei de lidar com três tipos de pessoas: as que enxergam que tenho uma deficiência e têm a sinceridade e inocência de perguntar sobre ela, como Pina e Pietra. As que não ligam a mínima se tenho uma, duas ou três pernas como Gertrudes e as que fingem, disfarçando na minha frente e cochichando pelos cantos, como Pilar.

Não sei se estou pronto para lidar com nenhum dos tipos.

Tiro o celular do bolso e passo uma mensagem para Camile, avisei a ela que nossas sessões precisariam ser on-line por uns meses, ainda estou aguardando sua resposta. Não demora um minuto e meu telefone começa a tocar, a imagem de perfil da minha psicóloga surge na tela indicando uma chamada de vídeo.

— Oi! — digo, quando aceito a ligação.

— Olá, Zander. Vejo que não está em casa, não é? — Ela inclina a cabeça como se assim conseguisse descobrir mais de onde estou.

— Não. Vou projetar e executar a ampliação de uma fazenda na cidade de Maria da Fé. — Viro o celular para lhe mostrar o entorno.

— Isso é ótimo, estava curiosa para saber a razão de me propor consultas on-line, mas vejo que é por um ótimo motivo.

— É só por alguns meses.

— Na sessão anterior tive receio de aquele seria nosso último encontro.

Tenho a impressão de que está havendo uma sessão agora mesmo, não havia me preparado para ela.

— Qual o dia melhor para as sessões? — pergunto.

— Preciso de algumas respostas antes de confirmar se vou poder atender você à distância. Tem alguns minutos?

Aceno com a cabeça confirmando, seguro o telefone na frente do meu rosto.

— Como eu te disse, achei que aquele seria nosso último encontro. O que te motiva a continuar?

Ela poderia me perguntar algo mais fácil como qual a origem do universo? Baixo o celular por um instante e a voz dela ressoa:

— Deixe o aparelho de frente para você, Zander. Mesmo que demore, quero ver você.

Ergo o aparelho, mas não encaro a tela.

— Eu não sei — respondo, após um minuto ou dois.

— O que vem à sua mente quando pensa em nossas sessões?

Hesito antes de responder:

— Em você tentando me mostrar que existe um lado bom… Eu tendo a certeza de que não existe nada de bom.

Relanceio pela tela e Camile está lá, olhando-me da mesma maneira que faz nas sessões presenciais.

— Você precisa de alguém que lhe diga que existe um lado bom? Sozinho não consegue ver?

— Não consigo — murmuro, baixando o olhar.

Ouço-a suspirar.

— Vou ligar para você todas às sextas, nove horas da manhã, tudo bem?

Aceno concordando e encerramos a chamada.

Inclino a cabeça, inspirando o ar pelo nariz e expirando pela boca, repito uma, duas, três, quatro vezes, devagar e até me sentir menos ansioso. Até me deparar com Pietra que chegou sorrateira e me encara fixamente. Tento me levantar, mas me desequilibro e deslizo no chão.

— Não consegue se levantar? — indaga ela, com um dos pés apoiados no patinete que acabara de ganhar.

— Você me assustou, Pietra.

— Como sabe que sou eu? — Ela ergue as duas sobrancelhas e esbugalha seus olhinhos castanhos.

— Não é difícil distinguir vocês — respondo, desistindo de me levantar.

— Você conheceu a gente hoje, como consegue? Tia Suria demorou meses e ainda erra. Os funcionários da fazenda nem tentam saber e até nossas amigas da escola confundem. Somente o papai e Pilar nunca erram. Como sabe?

— Vocês são diferentes.

— Não somos! Somos gêmeas monozigóticas, univitelinas, até nosso DNA é o mesmo.

Olho ao redor e mais uma vez não vejo ninguém por perto, entendo que manter essas meninas em casa é mais complicado do que imaginei.

— Todo mundo é diferente, inclusive vocês.

Ela inclina a cabeça, pensativa.

— É verdade, ninguém é igual. Mesmo assim, gêmeas monozigóticas são.

— A aparência é a única coisa que importa? — pesquiso, batendo uma mão na outra para tirar a terra.

Seus olhos se atêm à minha perna.

— Pode, por favor, não olhar para a minha perna?

— Eu não ligo que você não tem uma perna só, acho até legal. — Ela solta o patinete e se senta ao meu lado, ajeitando o vestido xadrez.

— Legal?

— Sim, todo mundo tem pernas iguais. Não acha legal ter uma perna diferente?

Como dizer a uma criança que eu daria qualquer coisa na vida para ter as duas pernas iguais, que eu trocaria uma vida inteira usando esta prótese por apenas um dia com minha perna real? Como explicar que todos os dias quando acordo, penso que era melhor ter morrido naquele acidente a viver com pernas diferentes?

— Você não acha? — insiste.

Não consigo e não devo verbalizar a resposta à sua pergunta, não tenho o direito de corromper essa criança com os pensamentos tenebrosos que carrego. Por isso apenas aceno em negativa com a cabeça.

— Eu queria ser diferente de vez quando. — Pietra segura os joelhos dobrados junto ao peito. — Não é legal ter sempre que falar que eu sou a Pietra.

Ela tem o olhar meditativo, concentrado, parece até uma pessoa adulta. Reflito em como é inusitado ter essa conversa com uma criança, ela quer ser diferente e eu daria tudo para ser igual.

— Sabe como eu sei que você é a Pietra, mesmo tendo te conhecido hoje? — falo, tentando animá-la. Ela gira a cabeça em minha direção, ansiosa para que eu diga. — Vocês falam de maneira diferente.

Pietra enruga a testa.

— E se a gente ficar em silêncio? — inquire.

— Vocês também sorriem de maneira diferente. Pina estica mais os lábios que você.

— Isso não é suficiente, podemos ficar sérias — refuta, desdenhosa.

— Vocês também olham de maneira diferente — persisto, confiante.

— E se estivermos dormindo? — Ela reforça o tom duvidoso.

Passo a mão pela barba, ponderando melhor sobre o assunto.

— Nunca as vi dormir, então não tenho certeza. Mas se estiverem acordadas posso saber na mesma hora.