Capítulo 6

Pilar


Pina se diverte com as colegas da escola. Não avisto Pietra e pergunto a ela onde sua gêmea está. Ela dá de ombros e continua a se divertir. Resolvo dar uma volta para procurar minha irmã que, apesar de gostar das brincadeiras infantis não hesita em abandoná-las depois de um período para se sentar em algum lugar. Em algumas vezes ela prefere coordenar o que as outras farão a entrar de fato na folia.

Caminho até a entrada da fazenda quando ouço sua voz soar além da cerca.

— O que ela está fazendo lá fora?

A porteira baixa me permite olhar além dela sem precisar abri-la, e é assim que encontro Pietra e Zander um ao lado do outro conversando sentados no chão.

Sim, todo mundo tem pernas iguais, não acha legal ter uma perna diferente? — escuto Pietra dizer. Deus do céu, por que ela está falando sobre a perna dele?

Ergo a corrente que segura as folhas da porteira para abri-la. No entanto, detenho-me quando ouço a frase seguinte de Pietra.

— Queria ser diferente de vez quando. Não é legal ter sempre que falar que eu sou a Pietra.

Nunca me passou pela cabeça que Pietra já se sentira desconfortável. Ela é tão apegada a Pina, as duas gostam de dividir a mesma cama, usar as mesmas roupas, que nunca… Aperto os olhos quando me dou conta de que é Pina quem sempre pede para se vestir como a irmã.

Continuo a escutá-los.

Causa-me estranheza como Pietra parece à vontade com Zander, ela não é de se abrir com quem acaba de conhecer. Mas, o que me chama mais atenção é Zander explicar como ele é capaz de diferenciá-la de Pina. Detrás da porteira, sorrio ao ouvi-lo, é preciso tempo de convívio para acertar quem é quem, fico admirada que ele consiga.

— Acha que eles conseguem trabalhar com alguém diferente? — pergunta ele, fazendo com que o sorriso em meus lábios se desfaça. Pietra o responde com outra pergunta enquanto eu tento compreender sobre o que os dois estão refletindo.

Por fim, abro a porteira entrando no campo de visão de ambos.

— Estava procurando você, Pietra — digo, acenando com a mão para que se levante.

— Eu não queria brincar de correr — responde ela.

— Mesmo assim é a sua festa, não deveria estar com suas amigas?

Percebo os olhos de Zander grudados em mim, quando o encaro ele desvia e fala com Pietra:

— Conversamos bastante por um dia, vá brincar com suas amigas.

Pietra se levanta a contragosto e antes de passar por mim olha para ele mais uma vez.

— Não esqueça de que aqui na fazenda todo mundo é diferente.

Ele sorri de canto e lhe oferece um breve aceno de cabeça. Pietra sai em disparada cruzando a porteira. Penso em sair correndo como ela, mas ao contrário disso, aproximo-me um passo.

— É difícil saber qual delas é…

— Não é difícil — contrapõe, olhando-me, impassível.

Zander tem os traços austeros, talvez a barba densa ajude a compor essa aparência máscula e rústica. Contudo, tem algo que não se encaixa nesse homem de musculatura rija… Acho que são seus olhos, tem uma certa tristeza neles, uma melancolia que sobrepõe a casca dura que exibe. É como se eles clamassem por algo, só não consigo saber o quê.

— Para a maioria aqui…

— Se não sabem distingui-las é porque nunca se interessaram. — Ele cospe as palavras como se fossem espinhos presos em sua boca.

Um silêncio desconfortável cai sobre nós. Sou a primeira a quebrá-lo.

— Quando pode vir à fazenda para eu te mostrar o que preciso?

Pensativo, ele desvia seus olhos. Zander está em dúvida se aceita o trabalho? Quando falei com Suria estava certo de que seria ele, então por que hesitar? E por que pergunta à Pietra se estamos preparados para trabalhar com alguém diferente? O “diferente” é por conta de sua perna? Por que pensa que isso possa ser um impedimento?

— Por que Pietra disse aquilo? — questiono.

Ele volta a me olhar.

— Aquilo?

— Que todos na fazenda são diferentes.

Ele expira demoradamente. Em seguida, apoia uma mão no chão e impulsiona o corpo para o alto ficando em pé.

— Qual o seu número? — pergunta, tirando o celular do bolso. Ele está tão perto que se eu der mais um passo caio sobre ele.

Ele digita os números.

— Quando quiser que eu venha, retorne nesse número. — Ele guarda o telefone sem desviar de mim. Percebo que tenho razão, é uma espécie de nostalgia, uma insatisfação… talvez seja infelicidade demandada em seu olhar.

— Por que Pietra disse aquilo? — insisto.

— Eu não sei.

Aparto-me um passo, distanciando-me dessa bolha melancólica que o reveste.

— Se ela disse isso por causa da sua perna… — começo a dizer.

Ele solta um riso curto, abafado, irritado.

— Desde que fui amputado nunca citaram minha perna tantas vezes num único dia.

— Só queria dizer que…

— É tão ruim assim? — questiona, estreitando os olhos. A respiração ofegosa movimenta seu peitoral torneado. — Trabalhar com alguém como eu?

Seu tom é urgente.

Ele encurta a distância que eu coloco, trazendo-me sem escolha para dentro de sua bolha. É como se eu pudesse enxergar a redoma nos circundando, palpável, tangível. Como se houvesse dois mundos, o dele e o dos outros.

O dele é magnético e intenso.

Sinto-me presa, capturada pela intensidade de seu olhar. Não consigo proferir uma resposta sequer, ao menos não sem causar ainda mais desconforto. Sinto que começamos com o pé esquerdo, nunca foi minha intenção causar qualquer constrangimento. Por isso escolho ficar em silêncio, quaisquer palavras ditas por mim só vão piorar as coisas.

Meneio a cabeça negando que seja ruim trabalhar com ele, mesmo que o trabalho nem ao menos tenha começado. Ele suspira, umedece os lábios e se afasta, quebrando em pedaços a redoma que nos abraçava. Um minuto se passa sem que nenhum de nós diga nada, cada um remoendo seus próprios pensamentos.

— É hora de cantar parabéns para as meninas, nós… — Giro nos calcanhares e volto a andar sem finalizar a frase. Como se minha língua estivesse travada e as palavras tivessem desaparecido.

Assim que cruzo a porteira vejo as crianças se divertindo à frente. Sob o sol baixo do entardecer elas correm e riem despreocupadas, aproveitando o momento que a pouca idade lhes propicia tão generosamente. Não posso evitar sentir inveja delas, sinto saudades de quando minha vida era assim, pacífica, serena.

Desejo às minhas pequenas que suas vidas sejam diferentes da minha, que aos dezoito anos recebi a incumbência de cuidar de duas irmãs como minhas filhas. Desejo à Pina e Pietra que possam aproveitar os anos sem preocupação e desfrutar de cada etapa de suas vidas, estudar onde quiserem, viajar pelo mundo, que sejam aquilo que quiserem ser.

Continuo a andar e somente quando subo os poucos degraus da varanda me permito olhar para trás. Zander está lá, marchando devagar com as mãos nos bolsos.

— Onde estava? — Dona Gertrudes pergunta parando ao meu lado. Ela olha além de mim, percebendo que meus olhos estavam em Zander. — Ah! Então você percebeu como é bonito o sobrinho da Suria, não é?

— Se Amara não chegar em dez minutos, vamos cortar o bolo sem ela — digo, desviando dele.

Alguns segundos depois, recebo mensagem de Amara dizendo que vai se atrasar, mas que virá nem que seja à meia-noite para entregar os presentes das meninas e lhes dar um abraço.

— Vamos cantar parabéns e já distribuímos os docinhos e as lembrancinhas para as crianças.

Dona Gertrudes berra que é hora do bolo e as crianças correm desvairadas para dentro. Suria para ao meu lado e pergunta mais uma vez por meu pai. Apenas por desencargo abanco o telefone e disco seu número. A ligação ressoa até entrar em caixa postal.

— Ele não virá — afirmo, seguindo para a mesa do bolo.

Todo mundo se aproxima da mesa e eu acendo as duas velas sobre o bolo com cobertura rosa e amarela. Pina é sempre mais ansiosa que Pietra, ao ponto de apagar sua vela antes mesmo de cantarmos parabéns.

— Não acredito que fez isso de novo, Pina! Por que ela faz isso todos os anos? — questiona Pietra, descontente.

— Porque assim eu apago duas vezes — responde Pina, colocando as mãos na cintura.

— Vão brigar agora? — inquiro, encarando-as.

Ambas se aquietam e esperam a vela de Pina ser acesa novamente. E, então, as vozes se misturam num sonoro “parabéns pra você, nesta data querida…” todos cantam e minhas irmãs sorriem felizes e satisfeitas com mais um aniversário.

Bato palmas e sem querer cruzo meu olhar com o de Zander encostado no batente da porta, ele canta também, mas de um jeito menos efusivo que o resto de nós, além de manter as mãos nos bolsos.

— Eu vou fazer um pedido — grita Pina. Ela aperta bem os olhos e balbucia alguma coisa. — Pronto, agora é a vez da Pietra.

— Não tenho nada para pedir esse ano — diz ela.

— É claro que tem, todo mundo sempre tem pedidos para fazer — argumenta Dona Gertrudes.

— Pense em algo que queira muito — digo a ela.

Reflexiva, Pietra segura o queixo e se decide. Ela fecha os olhos e dois segundos depois já os abre.

— Já fez? — pergunto.

— Sim.

Elas apagam as velas e todos gritam em comemoração. Começamos a distribuir fatias do bolo, brigadeiros, beijinhos e balas caseiras de coco. As crianças comem depressa e animadas, enquanto os adultos saboreiam por mais tempo as gulodices.

Distribuo os saquinhos recheados com mais doces, com todo tipo de bala, pirulitos e doces da região. Espero que seus pais não me culpem pelo excesso de açúcar que estou adicionando em seus filhos, mas festa sem guloseimas, não é festa.

Mais uma vez meus olhos recaem sobre Zander que observa as crianças brincarem em torno da casa. Ele não parece entediado, mas também não parece estar se divertindo. É como se estivesse em outro lugar.

Vou até meu quarto e alço o celular da mesa de cabeceira. Encaro a tela com a notificação de uma chamada perdida de um número que ainda não faz parte dos meus contatos. Meus olhos deslizam lentamente por cada número antes de salvá-lo na agenda com o nome de Zander.

— Pode ser bonito, mas tem um péssimo temperamento — digo a mim, enfiando o celular no bolso traseiro.

Dou meia volta para retornar à festa quando ouço as crianças gritarem. Quando se tem crianças em casa a gente aprende a discernir os sons que elas fazem. E os gritos que ouço são de quando algo muito errado acontece. Saio correndo em direção à varanda.

Suria corre, Dona Gertrudes corre, e as crianças correm e choram espalhadas. Tento encontrar Pina e Pietra no meio da confusão sem saber o que está acontecendo.

E então eu vejo Zander, sem camisa, carregando Pina com a perna dela enrolada em sua roupa.

— O que aconteceu? O que aconteceu? — grito, chegando a eles.

— Ela cortou a perna — Zander diz.

— O quê? Como?

Ele a deita no sofá elevando sua perna. Devagar, Zander retira a camisa empapada em sangue para verificar a gravidade do ferimento.

— Deus do céu! Como cortou a perna assim? — Minhas mãos tremem e meu coração acelera ao ver o comprimento do corte.

— Eu caí do jatobá! — Ela chora com as mãos no rosto.

— Vou tentar estancar o sangramento. — Aponta Zander, voltando a fechar o corte com sua camisa. — Se não parar de sangrar, ela precisará de alguns pontos para fechar o corte.

— NÃO! — Pina grita em desespero com medo de ir ao hospital. Ela odeia médicos e injeções.

— Calma! — peço em vão. Pietra se posiciona ao lado dela e segura uma de suas mãos.

As outras crianças nos rodeiam com olhos esbugalhados e aflitos.

— Saiam, crianças… Saiam! — Dona Gertrudes percebe que precisamos de mais espaço.

Exatamente dois minutos se passam até Zander indicar com a cabeça que devemos ir ao hospital. Tento manter a calma, mas minhas mãos e pernas tremem tanto que não sei como consigo ficar de pé. Pina e Pietra estão acostumadas a brincar