Capítulo 7

Zander



Antes mesmo de abrir os olhos, sinto minha cabeça latejar, como se eu tivesse passado o dia anterior bebendo. Afasto os lençóis e me sento na cama. Sinto meus músculos retesados e então massageio o coto dolorido. Passo a mão na prótese apoiada ao lado da cama e sigo o ritual de colocá-la encaixando a joelheira de silicone e em seguida a prótese que se prende à vácuo.

Levanto-me da cama. Encontro minha tia na cozinha, o cheiro de café que tanto gosto, não me cai bem e revira meu estômago.

— Bom dia — diz ela, com a voz pouco animada.

— Tem notícia da menina? — pergunto.

— Pilar me disse que ela está bem, que em alguns dias, voltará ao hospital para tirar os pontos. — Ela põe a mesa e se senta enchendo sua xícara com café. — Sinto pena de Pilar, tão jovem e com tantas responsabilidades. Não é fácil cuidar das gêmeas.

Amaldiçoo não ter uma perna e não ser capaz de me locomover sem precisar de ninguém, de não ter uma habilitação e um carro que me permita ir à fazenda ver Pina.

— Você vai ver a garota? — pergunto.

— Quer ir até lá? — Ela me devolve o questionamento, olhando-me com atenção.

Aceno com a cabeça um pouco hesitante.

— Vou ligar para Pilar e avisar que vamos visitar Pina.

— Eu ligo — digo sem pensar e volto para meu quarto.

Pego meu telefone e procuro pelo número que salvei há poucos dias. O nome Pilar Castanheda aparece, mas vacilo alguns segundos com o dedo no ar antes de completar a chamada. Penso no que dizer, penso se não é um tanto afoito ligar para ela. Por fim, completo a chamada.

Espero ser atendido com o aparelho na orelha, porém a ligação entra em caixa postal. Pilar deve estar ocupada com as irmãs ou seu trabalho na fazenda. Arrependo-me de ligar e jogo o aparelho sobre a cama. Quando estou saindo do quarto para dizer à minha tia que não é uma boa ideia ir até lá meu celular começa a tocar. Leio o nome de Pilar no visor.

Pigarreio antes de atender, como se essa ligação fosse definir o meu destino daqui em diante.

— Oi — digo ao atender.

— Você me ligou?

— Pina está bem?

Ouço-a resfolegar.

— Está melhor, mas se recusa a andar. Diz que só vai colocar o pé no chão quando a médica tirar a linha de sua perna. — Eu a ouço sorrir, mas sua voz denota cansaço.

— Estava pensando em ir vê-la — digo.

— Vir… me ver? — pergunta ela, desconcertada.

— Pina! Com minha tia — respondo, sobressaltado que tenha dado entender que queria ver Pilar.

— Ah, claro! Vocês podem vir para ver Pina, sim. Ela… vai adorar ver Suria e… você.

Um silêncio constrangedor e desconfortável recai e eu estudo o que dizer encarando o chão e ouvindo sua respiração do outro lado da linha. Pilar é mais rápida e decide pôr fim a ligação.

— Então esperamos vocês — diz e desliga. Viro-me, minha tia segura a maçaneta com a cabeça para dentro do quarto.

— Vou trocar de roupa e saímos — avisa, com um sorriso de canto.

Abro minha mala de roupas que ainda não organizei nos armários e escolho um par de calças jeans e um moletom para vestir. Apesar de não gostar de calças por reduzir minha mobilidade, não quero que minha perna se torne o centro das atenções mais uma vez. Ao me vestir, sinto como se estivesse amarrado. Então, escolho rasgar o tecido na altura dos joelhos e mesmo expondo um pedaço da estrutura metálica da prótese é considerável a melhora para andar.





Chegando à fazenda, avisto Pietra sentada nos degraus da varanda. Ela apoia os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos. Seu semblante é triste. Mas, quando nos vê, abre um sorriso, ainda que tímido.

— O que você tem? — pergunto, aproximando-me.

— É chato ficar sozinha, Pina não consegue brincar porque sua perna dói.

— Por que não mostra à sua irmã outras brincadeiras? Você é ótima em criar histórias com palavras soltas. Aproveite esses dias em que Pina ficará mais quieta para brincar com ela no quarto. Que tal histórias de assombrar? Pode fechar as janelas, se cobrir com um lenço, iluminar seu rosto com uma lanterna e…

— Suria, não dê ideias demais. — Pilar surge com um amplo sorriso.

— Onde tem lanterna? — Pietra pergunta se levantando.

— Na gaveta do meu armário tem uma.

Pietra sai em disparada para aproveitar a ideia que recebeu da minha tia.

— É difícil quando só uma está de cama. Quando pegam um resfriado, pegam juntas então ninguém fica sobrando. — Pilar acena com a mão para entrarmos. Os fios marrons de seu cabelo se espalham por suas costas, as ondas balançam com o seu andar e captam meu olhar.

— Isso é verdade! Eu não me lembro de só uma ter ficado doente antes. — Tia Suria observa, passando à minha frente para andar lado a lado com Pilar.

Entramos na cozinha e Dona Gertrudes se anima ao nos ver. Ela abraça minha tia e pede para nos sentar, em seguida nos oferece chá com bolo de laranja.

— Vamos ver as meninas primeiro, depois nos deliciamos com esse seu bolo. — Tia Suria tira uma lasquinha e experimenta. — Que delícia! Gertrudes você é a melhor com esses bolos.

— Bons dias! — Entra na cozinha um homem mais ou menos da idade da minha tia, com os cabelos grisalhos, bagunçados e a barba por fazer. Ele tem uma expressão abatida.

— Oi, Martim! Esse é meu sobrinho Zander — diz ela, tocando meu ombro. — Zander esse é Martim, pai de Pilar, Pina e Pietra.

— O engenheiro! Tu ajudaste a cuidar da minha miúda[1], não? — Ele estende sua mão. Seu sotaque é uma mistura entre o português brasileiro e o de Portugal.

— Não tem o que agradecer — respondo, movimentando sua mão presa à minha.

— Quando se tens um par de miúdas como Pina e Pietra em casa é certo que a confusão vá aparecer uma hora ou outra. Agradecido que tu e tua tia estiveram a ajudar Pilar a socorrer Pina.

— Tem nada o que agradecer, Martim. Imagina que íamos virar as costas num momento daqueles — responde minha tia. — Graças a Deus, não foi nada grave.

— Estas miúdas logo arrumarão outra confusão. Tu vais ver!

— Não é bem assim, pai. Essa é a primeira vez que Pina se machuca mais sério. — Pilar lança um olhar contestador ao pai que a ignora e se senta à mesa servindo um pedaço de bolo para si. — Ela está no quarto, querem vê-la? — pergunta a mim.

Aceno em concordância e saímos atrás dela pelo longo corredor com piso de madeira e vários quadros antigos na parede. Pila abre uma das portas e ao entrar no quarto vejo as irmãs juntas. Pina sorri ao me ver. Pietra está com um lençol na cabeça assim como minha tia disse para fazer.

— Como você está? — pergunto, aproximando-me da cama.

Ela aponta para a perna com o curativo.

— Sabia que ninguém na minha sala levou pontos? Só eu! Também vou ficar com uma cicatriz. — Ela desvia o olhar para minha prótese. — Se o corte tivesse sido um pouco mais fundo acho que eu também ia precisar de uma perna igual a sua.

— Menina, não diga besteira. — Tia Suria a censura e se senta na cama ao seu lado. — Sua perna estará nova em alguns dias.

— Eu disse que se fosse um pouco mais fundo, tia — repete ela e se volta para mim: — A gente ia andar por aí e todas as pessoas achariam que somos policiais parceiros vindo do futuro.

Pietra solta a lanterna e sai debaixo do lençol.

— De novo essa história? Quantas vezes vou ter que dizer que a perna dele não tem nada a ver com vir do futuro?

— Não interessa o que você acha, Pietra.

— Vão brigar? — Pilar pergunta, repreendendo-as.

— Eu até pensei que seria legal ter uma perna igual à sua. — Ela parece animada com a ideia de ter uma prótese, sem ter noção do que realmente significa na minha vida ou de qualquer outro que sofra as consequências da perda de um membro.

— Pina! — Desta vez é a irmã mais velha que tenta controlar as ingênuas palavras da gêmea.

— Que saco! Eu não posso falar nada? — reclama, e eu sorrio.

— Está tudo bem — falo com Pilar.

As meninas começam a discorrer sobre diversos assuntos, dos mais aleatórios. Tento acompanhar a conversa, mesmo sem saber sobre as pessoas, ou lugares, ou situações que citam. Parece mais fácil para minha tia e Pilar que riem em várias ocasiões. Num desses momentos, o sorriso de Pilar me chama atenção, ela tem o sorriso aberto com os lábios simétricos e delineados. Ela nota e desvia, percebo que estava a tempo demais focado em seus lábios.

— Vamos — digo à minha tia.

— Vocês acabaram de chegar! Por que querem ir embora? — Pina pergunta com um ar choroso. — Vamos brincar de histórias assombradas. Brinca com a gente Zander? Você podia fingir que é um fantasma que bate nas pessoas com a sua perna de ferro.

[1] Miúda = gíria portuguesa para criança, jovem mulher.

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