Capítulo 9

Zander


Após a amputação da minha perna — quando acordei no hospital —, eu a sentia como se ainda estivesse aqui, era como se os médicos não a tivessem tirado de mim, a sensação de sua presença era real. Eu podia mexer meus dedos, tornozelo, sentir a panturrilha mesmo que não houvesse nada abaixo do meu joelho. Os médicos me disseram que isso era normal, que meu cérebro entenderia que o membro não existia mais e logo estaria tudo bem.

Então, por que é que eu estou sentindo essa dor agora?

Sentado na cama, sem a prótese, esfrego minha perna da coxa ao coto, tentando abrandar este mal-estar, é tão desconfortável que ainda não consegui vestir a prótese e sair da cama. Quanto mais eu esfrego mais sinto a presença da perna amputada, deixando-me enfurecido por não saber o que fazer.

Isso não é parecido com o que senti no começo, não é mais aquela sensação de mexer os dedos ou um formigamento leve, é como se eu estivesse de novo debaixo daqueles escombros preso entre as vigas.

O celular toca ao meu lado, relanceio sobre a tela e vejo que é uma mensagem de Pilar, tiro as mãos da perna por um segundo para ler o recado.

Confirmado para às dez?

Volto a friccionar minha perna, sem conseguir responder.

— Merda! — esbravejo, batendo com as mãos sobre o que sobrou do meu membro.

Sinto um furor, meu peito queima tanto quanto minha perna, a cólera se espalha tomando conta de mim. Não deixando espaço para nada que não seja a fúria por não ser mais o homem que eu era, por ser alguém que não reconheço mais.

Sobrepujando meu ódio, arrasto-me para fora da cama e pulo numa perna até o banheiro. Jogo-me sobre a cadeira de banho, abro o chuveiro e deixo a água quente cair sobre o coto. Esperando que isso seja suficiente para desaparecer a dor.

— Zander? — Ouço minha tia bater à porta.

Não respondo. Ela insiste.

— Pilar acabou de me ligar para saber se você vai à fazenda. Eu disse que sim, que levaria você. Já está terminando o banho?

Fecho os olhos e procuro me acalmar.

— Zander?

— Sim, estou acabando — respondo, controlando minha respiração.

Aos poucos, a dor enfraquece e eu me sinto amortecido. Exatamente como quando me tiraram debaixo dos escombros. É um cansaço que me doma, a vontade é de me arrastar de volta para a cama e dormir pelo resto do dia, de me trancar num quarto escuro e silencioso e não ouvir ou ver ninguém.

Fecho a água e me retenho sentado na cadeira, esperando reunir a força necessária para me mover de volta para o quarto. Respiro fundo, dominando a vontade de chorar caído no chão. Logo eu, que desde a adolescência não sei como é chorar, percebo que meus olhos estão a um ponto de transbordarem.

Quando por fim estou seco, vestido e com a prótese, demoro ainda um minuto antes de abrir a porta do quarto e encarar minha tia, encarar o mundo ao meu redor.

— Você demorou — diz ela, assim que me vê. — Venha tomar café antes de sairmos.

Sento-me à mesa sem vontade de comer, mas antes que eu desperte o aguçado sentido da minha tia, resolvo tomar uma xícara de café e comer algumas torradas.

— Só vai comer isso? Acha que é suficiente para um homem da sua envergadura? Esses músculos todos não precisam de energia?

— Não tenho fome pela manhã — respondo, levando minha xícara até a pia para lavá-la. — Melhor sairmos logo, estou atrasado.

Ela concorda sem mais, e segue para o carro comigo.

— Pina já está como nova. Ela e Pietra vão ficar felizes em te ver de novo — fala, procurando uma estação no rádio. — Foi bom vocês terem marcado no final de semana, você vai ver como a fazenda é diferente.

Tem duas semanas desde que Pina se feriu, a rotina das gêmeas voltou aos eixos e Pilar por fim marcou para me mostrar a fazenda e o que espera do projeto de ampliação.

— Diferente? — questiono.

— Sim, aos sábados tem almoço ao ar livre com todos os funcionários e famílias da fazenda.

— Outra festa? Como podemos trabalhar se estão sempre em comemoração? — questiono.

— Não é outra festa, é algo rotineiro. As famílias vão até à noite comendo e bebendo enquanto as crianças se divertem brincando. E o almoço começa depois da uma da tarde, ainda são dez da manhã.

Eu que queria me trancar num quarto escuro e silencioso estou prestes a entrar em mais uma comemoração em Villa Oliva.

— Não se preocupe que nem sempre Pilar ou Martim participam. Às vezes, estão tão ocupados que não sobra tempo, mas isso não impede que os outros façam. A fazenda está crescendo próspera porque Pilar e Martim tem a porteira aberta para todos aqueles que os ajudam a mantê-la.

— Você parece admirá-los muito.

— Ah, eu com certeza admiro — diz, contente.

Ao chegar em Villa Oliva, pronto para descer do carro e abrir a porteira, sou surpreso por minha tia que me diz para ficar e vai no meu lugar escancarando as folhas do portão. Ela volta para o carro e sorri, dirigindo os metros que faltam para estacionar próximo à casa principal. Antes de sair do carro enxergo Pina e Pietra sentadas nos degraus da varanda, é a primeira vez que as vejo desde que fiquei com elas por boas horas ouvindo historinhas de assustar.

— Zander… Tia… — gritam. Elas nos abraçam e desatinam a falar, uma por cima da outra.

— Falem uma por vez — convoca tia Suria.

— Você está melhor? — pergunto à Pina.

— Estou, me recuperei totalmente — conta ela, sorrindo e mostrando a perna.

— Isso é ótimo, querida. E pelo amor de Deus, fique atenta. — Minha tia diz a ela.

— Vai ficar para o almoço? — Pina pergunta, segurando minha mão.

— Estou aqui a trabalho. Vou encontrar sua irmã para falarmos da obra — respondo.

— A obra logo vai começar. Terá que vir todos os dias? — pergunta, inclinando a cabeça.

— Talvez sim. — Sei que para tudo correr bem, preciso acompanhar de perto a obra. Então, sim! É provável que eu venha todos os dias a Villa Oliva.

— Vocês chegaram! — Pilar aparece na porta. Diferente dos outros dias que a vi, quando usava jeans e camiseta. Hoje usa um vestido florido amarelo — assim como algumas das flores no jardim de tia Suria —. O leve ondulado de seus fios castanhos se movimentam livres resvalando sobre a pele à mostra, a cor de seu vestido acentua o tom dourado de sua pele.

Se eu pudesse compará-la a uma estação do ano, seria a primavera, capaz de mudar a paisagem com sua floração em tardes quentes e noites amenas.

— Ela é encantadora, não é? — Tia Suria indaga ao meu lado, cutucando meu braço.

Desvio meus olhos de Pilar no mesmo momento.

— Suria, Dona Gertrudes quer falar com você. Meninas fiquem por perto, tudo bem? Vou mostrar a fazenda para Zander, mas volto logo.

Ela sorri e aponta para seu carro.

— Vou te mostrar todo o processo para entender do que exatamente precisamos.

Alguns minutos depois, paramos diante de uma construção antiga. É visível que está aqui há muitos anos, talvez décadas e, de fato, precise de uma modernização.

— Esta é a fábrica atual, foi construída pelo meu avô — completa ela.

A fábrica situada numa área da fazenda é um tanto distante da casa principal, mas bem perto da imensidão de oliveiras que cercam a propriedade.

— Todo nosso maquinário fica aqui. Mas como pode ver não é um lugar grande e nossas máquinas são antigas, esse espaço não vai dar conta de atender a demanda da próxima colheita.

Enquanto ela fala, vejo que a atual fábrica é um antigo armazém com todos os equipamentos enfileirados com pouco ou nenhum espaço entre eles, além de escuro e com pouca ventilação.

— A azeitona é depositada aqui e essa máquina faz a limpeza, que é a separação das folhas — conta, apontando para uma esteira com um bocal ao final para receber o fruto que cai limpo e sem as folhas. — Depois são lavadas e pesadas para entrar no moinho de martelo e triturar. — Pilar indica uma espécie de batedeira, como aquelas que fazem massa de pão, mas muito maior. — As azeitonas vão bater de vinte minutos a uma hora até virar uma pasta homogênea.

Pilar sinaliza cada maquinário à medida que me explica. Ela sorri enquanto fala, é evidente o amor que sente pelo que faz.

— Depois de processado, o azeite ficará nesses tanques. Mas o problema é que ele oxida rápido, então preciso de uma sala fria e escura para deixar esses tanques e retardar o efeito e manter o azeite fresco por mais tempo — conclui ela.

— Você precisa então de uma fábrica com divisão para cada maquinário, ajustadas à necessidade de cada fase da produção? — pergunto.

— Exato! Vou comprar maquinário novo, assim posso cooperativizar e atender outros produtores da região, eles poderão processar o azeite deles aqui na fazenda. É por isso que preciso de espaço, organização e uma sequência de câmaras desde a chegada do fruto até o envase.

Compreendo o que ela diz e visualizo exatamente o que precisa, ainda que sejam necessários mais detalhes técnicos, tenho o suficiente para apresentar um projeto.

— Vai derrubar esta fábrica? — investigo, querendo saber se faremos a demolição.

Ela hesita.

— Queria manter este lugar, temos tantas memórias aqui. Estava pensando em mais à frente reformá-lo para que se torne um espaço de visitação com uma loja integrada, algo assim.

— Vamos precisar de uns quinze profissionais, entre ele um mestre de obras, pedreiros, ajudantes.

Pilar acena concordando.

— Apresento o projeto para você nos próximos dias — digo, tirando fotos da estrutura atual.

Conforme caminho pelo espaço começo a sentir minha perna queimar outra vez, a mesma sensação de antes, um formigamento, um queimor, um abrasamento que me faz derrubar o celular e me abaixar com os olhos fixos na prótese.

— O que foi? — Pilar pergunta, aproximando-se.

— Nada. — Ergo uma mão para impedi-la de vir até mim. Pilar estaca no lugar.

Como isso pode acontecer, como posso sentir dor num lugar que não existe? Toco minha prótese sentindo como se ela fosse realmente a minha perna, como se a dor fosse na minha carne e não no metal.

— Zander?

O queimor evolui como se estivessem me perfurando com algo pontiagudo. É extremamente doloroso. O que até então era desconfortável, transforma-se em algo desesperador e impossível de suportar. Esfrego minha coxa numa tentativa frustrada de controlar a dor. Pilar se ajoelha ao meu lado, seu semblante assustado talvez esteja bem parecido com o meu.

— O que você tem?

O que vou responder a ela? Se nem eu sei o que está acontecendo comigo?

— Dói — murmuro.

— Vou buscar Suria — diz ela, levantando-se.

— Não! — Seguro sua mão para impedi-la. Ela arregala os olhos e se abaixa ao meu lado.

— Zander?

— Vai passar, vai passar logo.