Sem Destino - Capítulo 26


Pilar



As oliveiras estão quase prontas para a colheita. Enfim, sairá tudo como esperado. Falta pouco para a conclusão da fábrica e os novos maquinários estão engatilhados para a entrega assim que a divisão interna da construção for concluída. Arranco um fruto da árvore para observá-lo mais de perto e inalo sua fragrância tão característica. De imediato a comparação de Zander me vem à mente dizendo que meu perfume e o do fruto são parecidos.

Eu sempre amei esse aroma, sempre amei como ele se espalha pelas terras de Maria Fé. Saber que Zander o encontra em mim me faz sentir única. É estranho como eu achava que minha vida estava completa me dedicando somente à fazenda e minha família, Zander me fez descobrir que havia um espacinho vazio dentro de mim, esperando ser preenchido.

Se mamãe estivesse aqui o que ela acharia dele? Será que o aceitaria ou faria o mesmo julgamento do papai? Não, tenho certeza de que ficaria feliz por mim. Feliz por eu encontrar alguém que me faz bem, feliz por ele adorar as gêmeas e elas também o adorarem... Ficaria feliz por me ver feliz. Sinto tanta saudade, queria que ela estivesse comigo, que tivesse a oportunidade de conviver com as gêmeas e assistir elas crescerem lindas, divertidas e inteligentes.

Finalizo a vistoria nas oliveiras da ala sul e noto que é hora de buscar as meninas no colégio. Retomei minha tarefa de buscá-las, com meu braço recuperado não há motivo para não ir sendo que eu gosto de fazer.

— O que foi? — examino Pina ao ultrapassar os portões com uma cara de poucos amigos.

— A professora deu o dobro de tarefa porque faltamos semana passada. Isso não é justo!

Cerro os lábios para não rir.

— Pense no tanto que se divertiu no final de semana e a tarefa valerá a pena. — Pietra tenta convencê-la que existe um lado bom.

No carro, canto enquanto voltamos para casa. Pietra é a gêmea da vez no banco do passageiro, ela inclina o corpo e me fita com um ar pensativo.

— E você, o que foi? — pergunto.

— Parece feliz. Aconteceu algo?

— Sou sempre feliz, sua colocação não se aplica — digo, fazendo a curva para a estrada de terra.

— Está mais feliz que o normal — conclui ela.

— A noite a gente vai jantar com Zander? — indaga Pina, do banco de trás.

— Vamos!

Chegamos e as meninas saltam do carro e correm para dentro.

— Tomem banho e façam as lições de casa, senão vou jantar com Zander sozinha.

— Sim, patroa! — dizem em uníssono, com menção a forma como os trabalhadores me chamam.

— Suas pestinhas! — Corro atrás delas que se trancam no banheiro e abrem o chuveiro.

Na cozinha, encontro Dona Gertrudes preparando chá de camomila com limão e mel. Assim que me vê ela me entrega uma xícara com a bebida.

— Chazinho de cortesia? Obrigada! — Sento-me à mesa e sorvo um gole.

Ela se senta ao meu lado e puxa o pano de seu ombro apertando-o contra as mãos.

— Que cara é essa? — pergunto, alarmada com sua expressão.

— Você já sabe, não é?

— Já sei o quê? — questiono, deixando o chá de lado. Dona Gertrudes me faz pegar a xícara novamente e sorver mais um gole. — O que está fazendo?

— Esse chá é ótimo para estômago nervoso.

— Não estou com o estômago nervoso — asseguro, deixando a xícara na mesa outra vez. — Se sabe de alguma coisa que eu não sei diga de uma vez e pare com esse suspense.

Ela esconde o rosto com o pano por um instante, criando um clima ainda mais tenso.

— Diga logo!

— Seu pai dispensou Zander da obra.

— Ele o quê?

Eu não posso ter ouvido certo.

— Madá me disse que tem outro homem trabalhando na obra, seu pai foi...

Antes dela terminar me levanto tão rápido que a cadeira tomba para trás. Saio correndo, escorregando pelo caminho e chego à casa de Zander em poucos minutos.

— Zander? — Abro a porta sem cerimônia. Marcho pelos cômodos chamando por ele, vou até os fundos esperando encontrá-lo se exercitando, não está em lugar nenhum.

Com a respiração entrecortada, retorno ao seu quarto e abro o armário. Está vazio.

Tiro o celular do bolso e ligo para ele.

— Atende! — murmuro, ouvindo os toques até cair em caixa postal.

Ando para fora com as mãos na cabeça, buscando entender o que está acontecendo. Ele foi embora? Sem falar comigo? Meu olhar perdido no horizonte sem saber o que fazer.

Volto para casa e berro entrando em casa.

— PAI! PAI!

Dona Gertrudes aparece com as mãos para o alto numa vã tentativa de me acalmar.

— Onde ele está?

— Ele acabou de chegar. Fique calma, menina! Só vai botar mais lenha nessa fogueira.

— ELE ACENDEU A FOGUEIRA, AGORA LIDE COM O DESCONTROLE DO FOGO! — Desvio-me dela, meus passos estouram sobre a madeira envelhecida.

Encontro-o sentado na borda da cama, tirando as botinas que usara para trabalhar na lavoura.

— O QUE VOCÊ FEZ?

Ele continua a tirar os sapatos calmamente antes de me responder:

— O que qualquer pai faria por uma filha — profere, num tom afável. — Vais ficar brava por uns dias, mas logo entenderá que te livrei de uma cilada bem ardilosa.

Ele se levanta e pega uma toalha de banho. Seguro a porta, impedindo sua entrada no banheiro.

— Você tem alguma noção de como está agindo? — inquiro, tirando a toalha de sua mão.

— Este gajo estava pronto para lhe dar um golpe, miúda.

— Não te reconheço, pai — murmuro, dando alguns passos para longe dele.

— Este gajo virou tua cabeça contra mim.

— Como pôde ir tão longe? Eu nem mesmo consegui entender quando foi que passou a odiar o Zander desse jeito. Por que ele não entende sobre oliveiras? Por que não tem uma perna? Isso é mesmo importante diante da pessoa que ele é? — brado, sobressaltada. — E agora você vem com essa história de golpe? Está ficando louco?

— Por que estão brigando? — Pina e Pietra aparecem e nos encaram amedrontadas.

— Nosso pai mandou Zander embora da fazenda — revelo às gêmeas.

— Esta não é uma conversa que devam ouvir — briga ele.

— Elas vão me perguntar onde Zander está quando forem ao chalé e não o encontrarem.

— O Zander foi embora? — Pina questiona, a voz chorosa.

— Por que fez isso? — Pietra o indaga com firmeza.

— Vejam se há cabimento! Três miúdas interrogando o pai como se este foste um delinquente?

— Por que mandou ele embora? — Pietra persiste.

— Responda à Pietra, pai. Diga o que ele fez para ser expulso? — insisto.

— Ele era apenas um prestador de serviços.

— Zander também é namorado da Pilar — Pina afirma.

Ele segura as meninas pelos braços enxotando-as do quarto.

— Saiam, esta conversa não é para vós.

Pietra se solta e volta, encarando nosso pai com afoiteza.

— Zander é namorado da Pilar e nosso amigo, quero saber o que ele fez de errado?

— Cristo, por que não me destes filhos homens? — depreca ele, os braços para o alto.

De repente, a confusão está armada, as meninas sobem em sua cama e indagam sem parar o motivo para demitir Zander. Elas pulam tentando se livrar dele que a cada minuto fica mais irritado. Dona Gertrudes aparece para tentar acalmar os ânimos, mas só faz atrapalhar mais a situação.

Sou eu quem determino o fim dessa desordem.

— Pina e Pietra, saiam! Dona Gertrudes, leve-as para o quarto.

— Pilar, não! — demanda Pina.

— Esperem no quarto que falarei com vocês depois. — As duas descem da cama e caminham para fora, Dona Gertrudes fecha a porta.

Agora sou eu e ele numa conversa de gente grande.

— Você não pode mandar nenhum fornecedor embora sem falar comigo, quem cuida da contratação e expansão da fazenda sou eu — exponho com consistência, aproximando-me dele com calma. — Quando diz que Zander estava planejando um golpe esquece que estas terras não são somente uma herança. Esquece que esta fazenda há alguns anos se tornou uma empresa constituída. Que aqui dentro desta casa eu posso ser só sua filha, mas lá fora eu sou muito mais que isso.

Incomodado com minhas palavras ele ergue a cabeça e estreita os olhos, porém não me atravessa e permite que eu conclua o que quero dizer.

— Quando a mamãe morreu, eu jurei que cuidaria de vocês como ela faria se estivesse aqui e é o que eu faço desde então. Tenho muito orgulho de ser sua filha e de tudo o que me ensinou no trato com as oliveiras e é por isso que permito que me trate apenas como sua filha quando o assunto é a fazenda. Mas, a partir de hoje, não vou mais conversar sobre a fazenda como sua filha e sim como sua sócia.

Meu pai esfrega o rosto, irritado.

— Ouças aqui, miúda desaforada. Quando transformamos estas terras numa empresa e você em minha sócia foi para facilitar as coisas. Não para usares contra mim, teu próprio pai.

— Não vou usá-la contra você. Tenho consciência que nada disso existiria sem o trabalho árduo seu e do vovô. Mas não vou permitir que me trate como sua propriedade e decida quem entra ou sai da minha vida. Você já fez isso com Ávila, lembra? — Ele desvia o olhar e eu finalmente tomo ciência de que os alertas de Amara sempre foram reais, eu é que não queria enxergar.

— Pilar, não podes pensar que...

— Não vou mais abdicar da minha vida por ninguém. Nem por você, pai.


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