Sem Destino - capítulo 29


Zander



Sinto que minha vida, finalmente, entra nos eixos. O medo de que as palavras de Martim fossem reais, de que eu não conseguiria me estabelecer como profissional e seria visto apenas como um encostado em Pilar se dissolve a cada nova proposta de trabalho. Aos poucos, meu nome corre pela região como o responsável por modernizar Villa Oliva e a Fazenda Mendes, e essa era a resposta que eu tanto buscava.

Separo meu material de trabalho para mais uma visita à fazenda de Catarina, estamos há dois meses trabalhando e a obra avança. Thomás, seu empreiteiro, cumpre prazos e etapas com rigorosidade. Com ele presente, a edificação segue sem entraves e eu me sinto tranquilo ao desfecho desse projeto. Hoje, tenho outra reunião em uma fazenda numa cidade vizinha e queria que Thomás pudesse vir comigo em outras obras.

— Aonde vai tão cedo? — Minha tia pergunta ao me ver sair arrumado do quarto. — Vai ver Pilar?

— Não, vou à fazenda Mendes e depois tenho uma reunião em Santa Cruz.

— Eu levo você.

— Não precisa, tia. Contratei Hugo na praça para me levar às fazendas — digo, enfiando um pedaço de bolo na boca e sorvendo um pouco de suco de goiaba.

Vou até ela e beijo seu rosto me despedindo.

— Estou tão feliz que está dando tudo certo para você. Sua mãe também está feliz.

— Diz para ela não ficar brava por eu não ter ligado essa semana — aviso, sabendo que as duas se falam todos os dias, várias vezes ao dia.

— Ela não está brava. Está é muito orgulhosa. Tenha um bom dia de trabalho — diz ela, erguendo a voz quando já estou cruzando o portão para a rua.

Desço do carro na fazenda de Catarina e avisto Thomás comandando os homens nas tarefas do dia. A obra toma forma e, se continuar assim, em mais um mês estará pronta.

— Que bom que chegou! — Ele aperta minha mão com vigor. — Estava te esperando para a gente avaliar as etapas.

Analiso o cronograma e garanto o seguimento das especificações estruturais e padrões técnicos, além das instalações hidráulicas e elétricas. E mais uma vez as normas são obedecidas.

— Tenho reunião em Santa Cruz, queria que pudesse trabalhar comigo em outras obras — digo, enquanto afiro a documentação que deve entregar para Catarina.

— Se eu sair dessa fazenda, Catarina nunca mais me deixará entrar.

— Não precisa sair daqui. Quem sabe um segundo trabalho, com uma jornada mais branda?

Ele reflete por alguns segundos e sorri.

— A gente pode conversar de novo quando essa daqui acabar — assinala com o queixo a obra atrás de si.

— Combinado. — Aperto sua mão e o deixo seguir com o bom trabalho.

Volto ao carro e Hugo me espera tirando um cochilo, com seu boné sobre o rosto.

— Está cansado? — pergunto, dando um toque no boné, que o faz se assustar.

— Eu? Não! Bem, um pouco. Olívia não dormiu direito e chorou quase a noite toda. Penso quando essa tortura vai acabar. Não sei onde estava com a cabeça quando decidi aceitar a proposta maluca de Maia em ter um terceiro filho — reclama ele, dando partida no carro.

— Ela já tem dois meses? — pergunto.

— Vai fazer no domingo.

— E essas noites em claro duram até quando?

— Sabe-se lá Deus, cada uma é diferente. A primeira nos acordou até quase dois anos, a segunda com um ano já dormia a noite toda. Essa não tenho a menor ideia. — Embora ele esteja visivelmente cansado e, simule arrependimento, fala das três filhas com um sorriso enorme que preenche todo seu rosto.

A reunião em Santa Cruz é rápida, o trabalho não é grande quanto o de Catarina ou Pilar, mas importante para mim. Pouco depois do meio-dia estou livre. Como combinado, Hugo me deixa em casa e eu pago pela sua manhã.

— Vá dormir um pouco, garanto que Olívia está dormindo agora.

Ele ri e assente, partindo.

— Zander? — Ouço minha tia chamar do jardim. Encontro-a agachada entre as flores que cultiva, ela arranca ervas-daninhas com as mãos e se levanta quando me vê. — Querido, você está cansado? Posso te pedir um favor?

— Qualquer coisa, tia — falo, parando ao seu lado.

— Você pode comprar fertilizante líquido?

Caminho sem dificuldade até à loja de jardinagem. Embora meu andar não seja como de uma pessoa com duas pernas, não sento dor ou desconforto. Peço o fertilizante a Otelo, que ajusta seus óculos redondos e minúsculos e me dá as costas para procurar pela solução nas prateleiras. Alguns segundos depois me entrega um vidro âmbar de rótulo ilustrado com folhagens. Ele baixa os óculos até a ponta do nariz e me encara por cima deles.

— Zander, faz um tempo que não vejo Suria. Ela não está saindo de casa? Aquele Martim…

— Martim? O que tem ele?

Otelo se debruça sobre o balcão e sussurra:

— Ele tem alastrado por aí que seu trabalho não é bom e que… Catarina também está tendo problema com você, que precisou de outro engenheiro às pressas para refazer seu serviço malfeito.

— A obra na fazenda Mendes corre bem, não me interessa o que ele diz — respondo, pegando o vidro de fertilizante de sua mão.

— Espalhou também que… Suria se oferecia para ele com segundas intenções e como ela não conseguiu dar o bote nele, trouxe você para dar em Pilar. As línguas maledicentes estão agitadas, viu! — Otelo se ajeita e expira. — Suria deve estar bem chateada com isso, nem nas missas de domingo ela está indo. As beatas não param de falar dela pelos cantos.

Paro para pensar e, de fato, tia Suria está mais caseira que o normal, tem algumas semanas que deixou de frequentar o curso de artesanato e as missas de domingo, além de sempre me pedir para comprar frutas e mantimentos e até os produtos para seu jardim sou eu quem está vindo comprar.

— Aquele velho português deve estar variando da cabeça para falar tanta besteira.

Entrego o dinheiro a Otelo e em seguida saio de sua loja. Ando alguns passos e paro, discorrendo sobre o que acabo de ouvir. Tia Suria nunca teve seu nome na boca de ninguém. Até agora. E a culpa é minha. Sou o culpado por essa merda acontecer.

Minha vontade é ir até à fazenda e puxar Martim pelo colarinho, fazê-lo acabar com essa boataria e se retratar com tia Suria. Posso aturar seus delírios comigo, mas não com ela. Volto a andar e cruzo com duas mulheres, ouço-as cochichar meu nome e rirem. Aperto olhos e punhos, tentando me acalmar.

Em casa, entrego o fertilizante. Ela sorri e agradece.

— Por que não está indo às missas?

— Estou um pouco cansada e prefiro acordar mais tarde.

— E o artesanato?

— Já sei tudo o que ensinam lá. — Ela se abaixa e volta a mexer nas roseiras.

— Você sabe, não é? O que andam dizendo?

Seu sorriso se desfaz e ela baixa a cabeça.

— O que ouviu?

— O suficiente.

— Otelo, aquele mexeriqueiro!

— Eu aceito que ele me hostilize, mas não vou aceitar que invente mentiras sobre você.

Ela passa as mãos sujas de terra no avental e se levanta.

— Zander, eu vivi bastante para não me incomodar com o que os outros pensam ou falam sobre mim. Eu sei quem sou e o que fiz. Durante a noite, quando deito a cabeça no travesseiro, minha consciência está tranquila.

Balanço a cabeça, incrédulo que Martim tenha coragem de ser tão baixo com alguém boa como minha tia. Nos últimos meses, tenho ignorado seu desprezo por mim, contudo, não posso ignorar que leve suas intrigas a ela.

— Acaba hoje, tia! Você não vai ficar trancada pelas mentiras dele — afirmo.

Saio para encontrar um carro que me leve até Villa Oliva, ela vem atrás e segura meu punho.

— Não vale a pena! Você está indo bem com seu trabalho. Para que se preocupar?

— É por isso que está quieta e não me contou nada. Por que tem medo de que algo aconteça?

Vê-la apreensiva me deixa com mais raiva, sinto meu sangue queimar como magma.

— Não! É que… as tolices dos velhos não deveriam chegar em você nem Pilar.

— Pilar sabe? Ela sabe o que Martim está fazendo?

Ela solta meu punho.

— Não sei como essa história absurda caiu nos ouvidos dela, mas Pilar me ligou tem uns três dias e eu disse a ela o mesmo que para você. Não vale a pena se preocupar e não quero que ela brigue com o pai. Apenas vivam em paz, você e ela. Uma hora Martim vai parar.

— Fui condescendente até agora, mas não vou tolerar que ele dissemine mentiras contra você.

Volto a andar e, agarrada a meu braço, ela repete “não vale a pena” inúmeras vezes.

Começo a sentir minha perna formigar, porém, ignoro mantendo meus passos firmes e focados na imagem de Martim, minha fúria alimentada pelo seu veneno.

No entanto, sua voz se distancia conforme a dor aumenta, e meu andar diminui até eu não conseguir dar nenhum outro passo. Ela irradia a partir do pé que não possuo, abraça o tornozelo extirpado e envolve como garras afiadas a perna amputada.

Aperto os olhos e ofego.

— O que foi? — pergunta tia Suria, enquanto escorrego em direção ao chão.

É maior que antes.

É mais doloroso.

É mais latejante.

É mais cortante.

É insuportável.

— Socorro! — Desesperada, ela ergue as mãos e anda de um lado para o outro pedindo ajuda.

O mundo para de acontecer, não identifico o que se desenrola ao redor. É como se eu estivesse numa caixa escura perfurado por milhares de lâminas amoladas, penitenciado sem piedade ou direito a misericórdia.

O ar me falta. É abafado. É irrespirável. Abro a boca em busca de oxigênio, mas ele não entra. Meu coração dispara golpeando-me com a força de um canhão. Não consigo respirar.

Eu não consigo respirar!

Está escuro, tanto quanto sob os escombros do prédio. Estou sob os escombros do prédio? Está acontecendo outra vez? Sou soterrado! Sou soterrado e desta vez meu batalhão não virá me salvar.

Ouço minha tia falar ao fundo. O torpor me impede de abrir os olhos, meus músculos amolecidos sem força ou sustentação. Não consigo me mover, nem falar.

O que fizeram comigo?





— Talvez seja dor do membro fantasma comum em amputações por trauma, ou uma crise de ansiedade pós-traumática — ressoa uma voz grave e distante.

— Ele estava com dor, muita dor. — Essa voz eu conheço, é minha tia. Quero chamá-la e dizer que estou bem, mas não consigo. Quero vê-la e dizer para se acalmar, mas meus olhos não abrem.

Estou com sono, muito sono.





— Sua tia saiu para comer. — Escuto assim que abro os olhos, giro a cabeça e dou de cara com um homem de uns quarenta anos vestindo um avental hospitalar azul e se empanturrando de gelatina. — Disse para avisar caso acordasse.

Sento-me e afasto o lençol, sem prótese uso o mesmo avental do homem ao lado.

— Acho melhor ficar deitado. Escutei dizer que te deram uns calmantes fortes. Se cair não posso te ajudar, acabei de fazer uma cirurgia no joelho.

— Me deram calmantes?

— E fortes, tem um tempo que está dormindo — fala, finalizando uma gelatina para abrir outra. — Ah! Já ia me esquecendo. A enfermeira guardou sua perna no armário. — Ele aponta para o móvel nos fundos, a seguir volta sua atenção para o seriado cômico na televisão.

Como vim parar aqui? Quantos me viram na rua? Por que tanta dor desta vez? Tem algo errado com a minha cabeça ou com minha perna?

As perguntas giram em loop até a porta se abrir e minha tia entrar no quarto.

— Você acordou!

— Por que estou aqui, tia?

— Você desmaiou, Zander. Ficava dizendo que estava com dor e gemia sem parar… depois tentou tirar a prótese e gritava que não conseguia respirar. Nossa sorte foi que Joaquim apareceu e nos trouxe para o hospital. Meu coração está disparado até agora — relata, uma mão no peito.

— Eu me lembro de não conseguir respirar, nada depois…

Ela se senta ao lado da cama e segura minha mão.

— O que está acontecendo, Zander?

Reflito sobre o que dizer e quanto contar.

— Há alguns meses comecei a sentir dor na minha perna, até então suportável. Mas, desta vez, parecia… era como se eu estivesse de novo… a um passo da morte.

— Zander, por que não me contou? Sua mãe sabe? — Seu olhar indulgente me faz sofrer.

— Não quero ser motivo de preocupação para ninguém.

— Eu sou ninguém? Sua mãe é ninguém? Se sua família não puder te ajudar nos momentos que precisa, quem vai? O médico disse que pode ter sido uma crise de ansiedade ou dor fantasma, estresse emocional ou um neuroma na amputação… ou tudo junto…

Ela respira fundo e leva uma mão ao rosto.

— Quando trouxe você para Villa Oliva… Se eu soubesse que isso aconteceria, eu nunca…

— Não faz isso. Estou bem, de verdade.

— Pilar sabe dessas dores?

— Ela viu uma vez, mas as outras eu preferi…

— Por que guarda tudo para você? Por que não se abre com a gente? Ela poderia te ajudar.

— Ela não é obrigada a me ajudar, tia. Você já não acha inacreditável que ela queira algo comigo? Olha para mim! — Aponto para o coto escabroso e deformado. — Acha mesmo que sou alguém em posição de pedir ajuda para ela? — Minha voz ganha um tom urgente, irritado, amargo.

— É isso o que pensa de mim? — Aperto os olhos antes de girar a cabeça e encontrar Pilar.

— Por que você avisou? — questiono minha tia.

— Eu não sou uma pessoa que deveria ser avisada, Zander? — A essa hora meu companheiro de quarto não ri com o seriado e ouve nossa conversa. — Aquela vez no armazém não foi a única que sentiu sua perna, não é? — pesquisa Pilar.

Aceno a cabeça negando.

— Por que nunca me contou?

Mantenho-me em silêncio

— Não vai me dizer?

Aceno a cabeça outra vez.

Os anos nas forças armadas me ensinaram que qualquer fraqueza deve ser ocultada, não deixar que ninguém veja fragilidade ou medo. Porque isso pode ser sua ruína, sua derrota. Pode ser a diferença entre viver ou morrer. E apesar de não estar diante do inimigo ou de um superior, não revelar o que sinto ainda é o sistema dominante em mim.

— Não quero que se preocupe comigo. Não quero que largue tudo e venha me ver. Não quero ser a pessoa que inspira cuidado, não quero que me olhe como alguém frágil. Eu não sou. Eu nunca fui — exponho, por fim.

Nós nos entreolhamos em silêncio por alguns segundos.

— Acha que estou aqui por pensar que você é frágil, Zander?

— Eu não sei. O que eu sei é que estava indo até à fazenda dar um basta em seu pai… Não vou permitir que Martim faça com minha tia…

— Eu conversei com Suria alguns dias atrás. Ela me disse… — começa ela.

— Sei o que ela disse. E você, o que disse a seu pai? Ou concorda com o que ele fez?

Pilar desvia o olhar.

Tia Suria se põe entre nós e fala:

— Chega, não quero que briguem! É isso o que Martim quer, e vocês estão entrando nesse jogo. Eu não sou uma criancinha que precisa ser cuidada nem defendida, se estou dizendo que não vale a pena é porque não vale a pena.

— Ele cospe seu veneno… — Meu peito arfa, a fúria regressando. — E esse veneno se espalha infectando e pervertendo a todos. Eu me calei porque é seu pai, mas não vou mais levar isso em consideração.

Em silêncio, Pilar acede de cabeça baixa. Saindo do quarto logo após.





— Você precisa de um tratamento multimodal com psicoterapia, fisioterapia, opioides e antidepressivos. Imagino que tenha um médico que te acompanhou depois da amputação e para a fase de protetização, não?

— Sim.

— Converse com ele, porque dores neuropáticas são relativamente comuns em amputações como a sua. Entenda, pessoas que sentiram dor antes da amputação podem continuar sentindo depois. O cérebro grava essa memória e continua enviando sinais de dor mesmo depois do membro removido. O que os olhos não veem, o cérebro sente. Fora isso, você provavelmente desenvolveu um transtorno de ansiedade e precisará de psicoterapia.

— Ele tem uma psicóloga — minha tia reforça.

A última coisa que eu queria era ter que voltar para a rotina de médicos revirando meu corpo e minha cabeça. É exaustivo, é extenuante. Esperava que tudo se resolvesse sozinho, na esperança de que a dor desaparecesse.

— Por que eu desmaiei? — pesquiso.

— Crises intensas de ansiedade com hiperventilação causam desmaios, quando a respiração se torna superficial há falta de oxigenação. Foi o seu caso.

— Estou liberado? — questiono, sem querer ouvir mais nada.

— Sim, está liberado. — O médico me entrega vários encaminhamentos às distintas especialidades como psiquiatria, psicologia, neurologia, fisioterapia…

Visto minha prótese e roupa e, com minha tia caminho para fora do pequeno hospital. Ela fala sobre amenidades tentando levantar meu astral, mas a última coisa que sinto é vontade de conversar sobre qualquer assunto que seja.

Jogo-me na cama ao chegar em casa. A mente turbulenta, ruidosa e inquieta com mil pensamentos por minuto… e todos eles me levam a Martim e Pilar.


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