Sem Destino - capítulo 30


Zander



Hoje é a inauguração da nova fábrica, daqui dois dias a colheita anual. A fábrica que projetei e acompanhei até quase sua conclusão, e não estarei lá para ver o trabalho finalizado.

Giro sobre o colchão, irrequieto e ansioso. Por mais que eu tente organizar meus pensamentos, eles se embaralham e me deixam confuso e perturbado. Eu não sei o que fazer, não sei que caminho tomar nem que destino seguir. Voltei ao zero, o sentimento quando acordei sem uma perna.

Levanto-me, ando pela casa e ouço minha tia no portão. Observo-a por entre as cortinas.

— Vai ser um festão na fazenda de Martim. Você não vai? — pergunta a vizinha do final da rua.

— Não — tia Suria responde com firmeza.

Volto para o quarto, o telefone retine uma nova mensagem.


A gente pode conversar?

Estou em frente à sua casa.


Faz dias que não falo com Pilar. Enviei mensagem quando saí do hospital, ela respondeu brevemente e não falamos depois. Posso ter sido muito duro com ela, sei que não tem culpa pelas coisas que seu pai fez, mas não consegui evitar a frustração que a situação me causou.

Encaro a tela do celular por alguns minutos. Tia Suria entra no quarto e se senta, olhando-me como uma criança perdida.

— Pilar acabou de estacionar lá fora.

— Eu sei.

Por que minha mente está tão desordenada, tão nebulosa? Estava tudo bem até alguns dias, agora há uma tempestade na minha cabeça com raios e trovoadas, granizos, rajadas e furacões.

— Você não vai falar com ela, Zander. — Tia Suria pesquisa quando nota que não me movo. — Fui eu quem disse para ela não se envolver, para não falar nada ao pai. Você não pode…

— Sei disso, ainda assim…

Os minutos passam até que decido sair para encontrá-la. Não vejo seu carro. Ela foi embora?

Tiro o telefone do bolso e há outra mensagem.


Queria você comigo hoje, você é parte da conquista.

Eu também quero estar com ela. Quero assistir ao seu sorriso se abrir, ouvir sua voz feliz, sentir o calor e o aroma de sua pele… Estar ao seu lado e abraçá-la sem me importar com seu pai ou olhares intolerantes. Beijar seus lábios e ser retribuído com o mesmo fulgor. É o que eu quero. Mas, ao contrário, deixo que Pilar escorra por meus dedos como as areias do tempo.

Volto para dentro e pergunto à minha tia:

— Me dá uma carona até Villa Oliva?

— Eu não acho uma boa ideia. Cadê Pilar? — questiona, saindo porta afora.

— Não tenho tempo para outra ideia.

Pego as chaves e entrego em sua mão.

— Zander, a fazenda estará cheia. Martim e os outros estarão lá. Eu acho melhor…

— Eu tenho que estar lá.

Ela expira ruidosamente e com um meneio contrariado, aceita me levar.

Tia Suria estaciona, meus pelos encrespam com a possibilidade de ficar cara a cara com Martim, tudo que pretendo dizer continua engasgado como uma bola de pelos que me nauseia todo o dia.

— Não vou entrar. Tem certeza de que quer fazer isso? — pergunta ela.

— Sim — respondo, abrindo a porta do carro.

— Quer que eu espere?

— Não — respondo, ultrapassando as porteiras. Sou recebido pelo silêncio. Devem estar na fábrica. E ainda que seja custoso caminhar até lá, estou determinado a encontrá-la.

Inspiro ávido o aroma frutal das oliveiras, o mesmo perfume que exala de Pilar e me incute a continuar. Aos poucos, a distância até a obra diminui. Ouço vozes e risadas.

Marcho e me oculto por entre as oliveiras. Pilar é a primeira que discirno através dos arbustos, ela está com as gêmeas que sorriem alegres. Pina e Pietra são como raios de sol que iluminam qualquer um, a doçura dessas meninas é capaz de adocicar o mais amargo dos corações.

De mãos dadas, elas giram ao redor de Pilar que ri feliz até Martim surgir com o dedo em riste para fazê-las parar. Meu sorriso se quebra junto ao delas que se sentam, quietas e carrancudas.

Carros chegam e pessoas se acumulam. Pilar recepciona os convidados ao lado de Martim, o homem de peito inflado aponta para a construção e recebe efusivas congratulações. Sorridente e esnobe, o novo engenheiro aparece e apoia uma mão no ombro de Pilar. Ela se afasta.

O tempo passa conforme assisto os convidados, festivos e risonhos, brindando em coro à nova fábrica. Martim faz o mesmo com sua face amigável, sorriso aberto e fala mansa. Ele é o anfitrião perfeito, é fácil cair em sua delineada simpatia. Que chance eu teria num lugar onde todos o idolatram? Eu que me fecho no mundo, com poucas habilidades sociais, o estranho sem uma perna…

Baixo a cabeça e aperto os olhos.

— O que está fazendo? — A voz suave e infantil de Pina me surpreende.

— Como me viram aqui?

Ela e Pietra se sentam ao meu lado.

— Não está tão bem escondido assim, eu sei me esconder muito melhor — responde ela.

— Está tentando se esconder do meu pai? — investiga Pietra.

— Não gosto de festas — respondo.

— Mentira! Você não sabe mentir, sempre olha para cima e franze a testa.

— Pilar disse para a Amara que você estava doente. O que você tinha? — questiona Pina.

— Ela disse que eu estava doente?

— Aham! Que estava doente e sabiado com ela.

— Não disse sabiado, disse ressabiado. Quando está ressentido ou desconfiado — corrige Pietra.

Pina revira os olhos para sua gêmea e continua:

— Ela disse que ficou no hospital, quem vai é porque está doente.

Nada me vem à mente para responder, talvez eu esteja mesmo doente.

— Você pode ir até lá também — diz Pietra, apontando para a festa que se desenrola à frente.

Aceno em negativo.

— Não sei não, o papai está chato, Pietra. E ele não gosta do Zander — expõe Pina com sua clássica franqueza. Encaro sua face angelical, os cabelos curtos e castanhos tremulando com o vento. — Desculpa falar isso, mas ele…

— Está tudo bem, eu sei que ele não gosta de mim — digo, afagando seus fios.

— A gente tem que voltar, Pina.

Pietra se levanta e me abraça antes de partir, Pina faz o mesmo. Estar envolto nesses pequenos braços é a coisa mais acalentadora que recebi nos últimos dias. Elas somem entre as oliveiras e alguns minutos depois surgem ao lado de Pilar.

Pina diz algo a ela e aponta na minha direção. Pilar olha com atenção para os arbustos. Mantenho-me no lugar, ambicionando que me veja. E assim que me avista, Pilar dispersa discretamente os convidados e caminha para o olival.

Espero ansioso por ela, o coração agitado e as mãos suando.

— Desde quando está aqui? — Levanto-me do chão quando ouço sua voz doce e melódica. — Você está bem? — pergunta ela, aproximando-se. Ela tem o olhar angustiado. — Pensei que não queria…

Toco sua face resvalando os dedos em sua pele. Pilar segura minha mão contra seu rosto.

— Você vai ficar?

A resposta correta é não sei. Os nós na minha cabeça estão mais difíceis de desatar. No entanto, seu olhar aflitivo não me deixa dividir essa carga com ela.

— Vou — sussurro.

Ela inspira profundamente e sorri.

— Entendo que estava nervoso no hospital. Meu pai… — Silencio-a com um beijo. Não quero ouvir nada sobre ele. Quero apenas sentir sua boca contra a minha e o cheiro de sua pele.

Expulso os pensamentos inquietantes para um lugar recôndito, esperando que não me atormentem enquanto ela está em meus braços. Pilar corresponde com entusiasmo, ávida por mim assim como eu estou por ela. Nosso beijo é ardente, lascivo, e faz meu sangue ferver desejando deitá-la nesse chão. Suas mãos escorregam por meu peitoral, desenhando os músculos que estremecem sob seu toque.

— Zander… — sôfrega, murmura meu nome. — Vamos ao chalé? — implora contra meus lábios.

Seguro sua mão e andamos entre as oliveiras, o caminho que fiz tantas vezes quando trabalhava e morava na fazenda. No trajeto feito em silêncio é possível ouvir o bater apressado dos nossos corações.

Nossas bocas se chocam assim que entramos no casebre, nossas roupas caem peça por peça até estarmos sobre o colchão que guincha com nosso peso. Pilar arqueja sem desviar seus olhos de mim a cada movimento meu contra seu corpo. Eu sabia que estava rendido por ela, essa certeza multiplica e se emaranha por cada célula minha, tal como as raízes profundas de uma árvore centenária.

Eu a quero para sempre comigo.


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