Sem Destino - capítulo 31


Durante o tempo que passei nas forças armadas evitei qualquer relacionamento, com uma civil ou alguém das forças. Eu via como era difícil manter uma relação e quanto estresse causava. O choro e a dor de quem ficava quando éramos transferidos para outros países e passávamos anos longe de casa. Alguns lugares com um sistema de comunicação precário que tornava quase impossível enviar uma simples carta.

Nunca quis aquilo, nunca quis viver aquele sentimento de perda constante, de um lado uma namorada ou esposa chorando e do outro um militar carregando na mochila fotos e saudade sem nem ter a certeza de que voltaria vivo ao final da missão.

E agora, deitado com Pilar, nossas mãos e corpos entrelaçados como nunca tive coragem de assumir com ninguém, tão distante de tudo o que já vivi. E, de um modo diferente, causando-me o mesmo medo que meus companheiros sentiam.

Medo de que um dia ela não me aceite mais, medo de que o tempo dissipe esse gás que nos embriaga conhecido como paixão e Pilar enxergue meus defeitos e, assim como seu pai, me expulse da sua vida.

— O que está pensando? — pergunta ela.

— Nada — respondo. Lutando mais uma vez para banir pensamentos de um futuro que pode nunca acontecer.

— Estava pensando… não sei se é a hora, mas a gente podia passar uns dias com seus pais.

Fecho os olhos e sorrio.

— Minha mãe vai adorar — digo, lembrando do tanto que minha mãe me cobra conhecê-la.

Passamos mais alguns minutos aproveitando o clima de paz, como se o mundo e suas cobranças irreais não existissem mais.

— Tenho que voltar para a festa antes que meu… — Ela hesita, e respiro fundo diante da possível menção de seu pai. O mundo e suas cobranças afirmando que nunca vão deixar de existir. — Os convidados perguntem por mim — conclui.

Embora Martim seja um ponto de ajuste, está nítido que não estamos dispostos, ao menos hoje, a deixar que sua sombra paire sobre nós.

Beijo-a suavemente e começo a me vestir. Ela faz o mesmo.

— É tão estranho não ter você morando aqui — diz ela, olhando ao redor. Pondero sobre o tempo que passei nesta casa e como era divertido ter as meninas e Pilar por perto.

Saímos do casebre sorrindo como se esse fosse nosso primeiro encontro. Ela me beija mais uma vez, pendurando-se em meu pescoço; toda a dúvida, culpa e raiva se dissipando. Eu a sustento, apreciando mais do seu corpo colado ao meu.

Pilar insiste que devo ir com ela até a festa e reluta me deixar outra vez no olival. Mas eu declino e escolho me manter aqui mais um tempo. Ela segue para a festa, sento-me no chão admirando-a antes de voltar para casa. Seu pai e o engenheiro são os primeiros a se aproximarem dela, ele ergue o braço e, com uma expressão dura no rosto, sinaliza os convidados.

Ela aquiesce de cabeça baixa e transita entre as pessoas dedicando um punhado de atenção para cada um deles. Avisto as meninas, elas olham na minha direção e acenam. Cerro os lábios, dominando a vontade de ir lá ficar com Pilar, Pina e Pietra e participar do evento em prol da obra que projetei.

Martim para ao lado das meninas e busca a pessoa para quem acenam. Levanto-me temendo que me divise em suas terras, mas é tarde, a inocência das meninas me revela ao homem que me despreza.

Nós nos entreolhamos e, mesmo à distância, é evidente a aversão que sentimos um pelo outro.

Ele desvia de mim para focar em Pilar e nas meninas e, envolto por sorriso amigável diz algo que as faz sorrir e abraçá-lo. Estreito os olhos discorrendo sobre o que ele possa dizer que, de repente, causou uma reação alegre e positiva.

Devo ir embora, mas estaco no lugar quando Pilar e as gêmeas correm na minha direção.

Pina é a primeira a chegar.

— Vem, Zander, o papai disse que você pode ficar na festa.

— Ele finalmente entendeu que você é parte disso, que sem você esse projeto não teria começado — fala Pilar, sorridente enquanto segura minha mão.

— Eu acho bem estranho ele mudar de ideia tão rápido — verbaliza Pietra, de braços cruzados.

— Acho melhor não — digo, dando um passo atrás.

— É a nossa chance de acabar com isso. — Os olhos de Pilar imploram por uma pacificação.

Aceno concordando.

Ela vibra ao lado de Pina e marchamos para a festa, Pilar com seu braço enlaçado ao meu, exibindo para todos os presentes que estamos juntos. Mas a cada passo eu sinto os pares de olhos sobre mim: pesando, julgando, sentenciando como bons juízes da vida alheia.

Adiante está Martim sorrindo com os braços estendidos, ao seu lado o novo engenheiro, Basílio e Joaquim. Ele estica a mão para me cumprimentar e a balança firme junto à minha.

— E Suria? Por que não vieste com tu? — pesquisa.

Penso se este é o momento de soltar o que está entalado, mas as meninas sorriem ao seu lado, também esperando por uma resposta. Como pode ser pérfido e me perguntar sobre ela, sabendo que não está aqui graças ao seu veneno?

— Ela não estava se sentindo bem — respondo, os olhos presos nos dele.

— Que lástima — diz, mesurado. — Mas não faltará a ela oportunidade de conhecer a fábrica que tu projetaste, não é? — Ela me dá tapinhas calorosos no ombro. Encaro sua mão, avaliando se isso é uma ótima encenação ou verdadeiramente se arrependeu de seu comportamento.

Concordo com um meneio fraco.

As meninas seguram meu braço, arrastando-me para experimentar as iguarias típicas da região. Pilar se afasta para atender outras pessoas e as gêmeas começam a brincar me deixando sozinho. Joaquim se aproxima com uma dose de seu famoso licor.

— Preciso de uma nova garrafa — digo, aceitando a bebida.

— Eu sabia que não ia conseguir viver sem meu licor. — Ele sorri e ajeita o chapéu fazendeiro marrom. — Levo outra quando for até a cidade.

— Gostei do visual — falo, indicando seu estilo. — É a primeira vez que te vejo tão elegante.

Joaquim se empertiga, aceitando o elogio.

— Não é todo dia que a gente tem uma festa importante na região. Precisei de uma beca apresentável — afirma, aprumando a camisa de manga longa bem passada para dentro do jeans escuro com cinto de fivela larga.

— Madá parece cansada. — Vejo sua companheira conversando com outras mulheres, ela tem um ar abatido.

— Ela está. Essa semana não foi fácil. Muito trabalho aqui na fazenda e lá no nosso pedacinho de chão. E você, não está muito diferente?

— Estou bem.

Joaquim parece não acreditar, encarando-me por mais tempo que o comum.

— Fiquei sabendo que seu trabalho na fazenda Mendes vai expandir os negócios de Catarina.

— É bom trabalhar com ela.

Joaquim sorve uma golada de seu licor e deixa a taça de lado para segurar meu ombro.

— Sou agradecido pelos Castanheda terem acolhido minha família desde meus pais e serem mais que patrões para nós. Mas não é por isso que concordo com tudo o que Martim faz. Estou falando sério, forasteiro.

— Obrigado — respondo, grato. Joaquim tem se tornado um amigo que posso confiar.

— Esse aí não sabe nem terminar um telhado. — Joaquim aponta com o queixo na direção do engenheiro de Martim. — É um chibante de nariz empinado. Com você essa obra já teria terminado.

Sorrio.

— Está com saudade de mim?

— Não vou mentir que estou — diz, desviando o olhar enquanto segura a larga fivela do cinto. — O único baba ovo aqui é Basílio, mas esse aí não vai mudar nunca. O vento na cabeça dele sopra num sentindo só: Martim.

Joaquim fala um pouco mais sobre seus dias na fazenda, sobre suas crianças e como Pilar anda estressada com a proximidade da colheita anual.

— Como é o dia da colheita? — pergunto, sabendo que será outro grande evento.

— Esse ano precisa de muita gente trabalhando. Bota para mais de duzentas pessoas, mais alguns tratores para ajudar no molejo das oliveiras. — Ele se serve de mais licor e continua: — Primeiro a gente estende panos de baixo de cada árvore, sacode elas para ficar mais fácil de tirar o fruto e aí passa um tipo de pente de aço puxando para cair no pano no chão. Todo mundo participa. A idade não importa não, das crianças aos mais velhos ajudam a tirar frutos do pé. É trabalho duro, mas também um dia que todo mundo se diverte. Você vai vir, não é? Tem que estar do lado da patroa.

Ouço seduzido cada etapa do processo até a azeitona ser transformada em azeite. Será a maior de todas as colheitas já realizadas em Villa Oliva. Sinto uma ponta de inveja por não entender tão bem desses frutos que trazem prosperidade para uma quantidade enorme de famílias, ao mesmo tempo que me sinto animado para participar do evento.

Joaquim para de falar quando o novo engenheiro para ao nosso lado.

— Eu sou Rinaldi. Não sei se lembra de mim… — diz, passando um lenço de pano na testa suada.

— Eu me lembro.

— Foi dar uma olhada no interior da fábrica? Precisei melhorar algumas coisas, mas para quem não tem muita experiência você fez um bom trabalho.

— A fábrica estava praticamente pronta quando Zander saiu — rebate Joaquim, recebendo um olhar enviesado de Rinaldi.

— Joaquim é sempre tão espirituoso. Acha mesmo que meia dúzia de tijolos são suficientes para finalizar uma fábrica dessas. — Rinaldi ri, guinchando a barriga sobressalente.

— Não. Eu não acho. Mas qualquer um com um par de olhos na cara via que Zander deixou a fábrica praticamente pronta.

— Joaquim, você conhece o ditado: cada macaco no seu galho? Eu não saio por aí catando frutinhos de árvores e você não constrói prédios. — Rinaldi o desafia, parando de rir.

Irritado, Joaquim respira e dá um passo à frente. Toco seu braço, meneando de leve a cabeça para persuadi-lo de uma revanche que não levará a nada.

— Vou ver se a patroa está precisando de alguma coisa — diz Joaquim, saindo.

— É difícil trabalhar com gente que não conhece o próprio lugar. Tirando Basílio, o restante é bem impertinente — expõe ele, voltando a passar o lenço pela testa.

Rinaldi discursa ao meu lado, porém abstraio ignorando sua voz nasalada e prepotente.

— Quem sabe a gente se cruza por aí em novos projetos — finaliza, sorrindo de canto.

— Quem sabe. — Aceno com a cabeça, retirando-me.

Sirvo-me de uma dose de ponche quando Pilar chega por trás e me abraça.

— Quero te apresentar algumas pessoas.

Penso em declinar, mas seu sorriso me impede. Seguimos até um casal sentado num banco de madeira, há vários espalhados no entorno da fábrica.

— Esses são Celine e Nilo, são os donos da fazenda vizinha. Celine era a melhor amiga da minha mãe. Ela me fez prometer que quando eu namorasse alguém que… — conta, sorridente.

— Pilar, vai assustar o rapaz se começar com essa conversa antiga de sua mãe e eu.

A mulher de pele madura e vestido florido me estende a mão primeiro.

— Estou feliz que Pilar está namorando um rapaz tão bonito. Minha amiga ficaria radiante se ainda estivesse entre nós. — Ela desvia o olhar para minhas pernas — Não é difícil acompanhar o ritmo da fazenda com o problema que tem na perna?

— Este gajo não está a pegar no batente, Celine. Está a usar a cabeça para construir coisas — diz Martim, aparecendo do nada.

— Pai! — Pilar censura sutilmente Martim.

— Não é difícil — respondo à mulher. — Fui oficial das forças armadas por anos, estou acostumado a pegar no batente — respondo a Martim.

— Fostes, não és mais — contrapõe Martim, sorrindo, ao apoiar uma mão no meu ombro.

— É preciso homens de ideias na família de vez em quando, Martim — evidencia Nilo, sacudindo as pulseiras em seu pulso. — Já temos tantos com força, temos de equilibrar.

Eles riem. Pilar procura minha mão, constrangida com o rumo que Martim trouxe à conversa.

— Tu sabes como sou com minhas miúdas, não há nada que me peçam chorando que não atenda sorrindo.

— Meu amigo, criar filhos é difícil. Jonas se interessou por uma potranquinha filha de um dos peões e está me deixando louco com uma ideia absurda de casamento e ir embora da fazenda. Esses jovens não têm juízo, cabe a nós mostrarmos a eles como a vida deve ser.

— Talvez não sejam os jovens que precisem de juízo — intervenho, segurando firme a mão de Pilar. — Talvez os velhos dessa cidade não saibam o que podem e o que não podem dizer e fazer em relação a seus filhos.

Os dois param de falar e me encaram.