Sem Destino - capítulo 32


Zander



Encaro meu rosto refletido no espelho e analiso minha vida até aqui, desde o dia que fiz dezoito anos e decidi entrar paras as forças armadas até este momento. Cada dia, mês, ano. Cada conquista, cada consequência por cada ato decidido.

Eu estava errado em culpar o destino, o destino não teve nada a ver com isso. Eu tive.

Se não tivesse entrado para o exército, não teria participado das tantas missões pelo mundo. Se não tivesse entrado naquele prédio prestes a desabar, não teria perdido minha perna. Se não tivesse vindo para esta cidade, não teria conhecido Pilar, as gêmeas, Joaquim…

Iço a segunda mala e sigo para o carro, jogo-a com força no porta-malas.

— Você vai embora? — Joaquim aparece em sua caminhonete. Ele estaciona e vem até mim.

— Por que voltou? — pergunto a ele que me deixou em casa tem três horas.

— Queria ver como estava e que bom que voltei. Por que isso? E o que aconteceu com sua mão?

— Estou cansado.

— A patroa sabe?

— Não quero mais estar entre ela e seu pai. Isso não vai parar. Ele não vai parar.

— Cadê a Suria? — Joaquim sai em busca da minha tia e a encontra vindo com uma terceira mala.

— Você também? Estão loucos?

— Vamos ficar um tempo fora e esperar as coisas se acalmarem — diz ela, tranquilizando-o.

— É verdade? É só um tempo? — ele agora questiona a mim que não respondo.

Joaquim ajeita o chapéu e suspira. Ele vai até seu carro e retorna com uma garrafa de licor.

— Disse que traria outra para você.

Seguro a garrafa e agradeço com um meneio.

— Não se julgue tanto — diz ele. Estendo minha mão, despedindo-me.

Joaquim sorri e recusa minha mão para me abraçar.





Pouco depois partimos de Maria da Fé. Tia Suria decide me deixar quieto e dirige em silêncio. Aproveito para tentar dormir, mas é impossível. Minha mente gira como um carrossel desgovernado ruminando os últimos acontecimentos.

— Não consigo dirigir com você nesse estado, Zander. Tente se acalmar, pelo amor de Deus!

— Eu sou um idiota — murmuro.

— Por que não voltamos e conversamos com Pilar e Martim? Nós quatro, de maneira civilizada.

Solto uma lufada de ar.

— Acha mesmo que isso é possível? Que ele vai te ouvir? — Ela cala.

Pela janela, despeço-me dos olivais de Maria da Fé.





— O que aconteceu com sua mão? Por que não avisaram que viriam? — grita minha mãe, surpreendida ao me ver chegar.

— Não foi nada — respondo, abraçando-a.

— Como não foi nada! Suria? — Ela se volta para a irmã que cruza por ela entrando em casa.

— Preciso de um suco gelado antes de contar toda a história para sua mãe.

Meu pai aparece e segura minhas mãos.

— Você entrou numa briga? — Ele sempre teve medo de que minha força pudesse ferir alguém.

— Eu preciso dormir — falo, deixando-os.

Entro no quarto e me sento na cama encarando os pôsteres antigos das minhas bandas favoritas, lembrando do exato momento em que concordei com minha tia aceitar o trabalho na fazenda de Pilar.

De quando eu não tinha ideia do quanto minha vida ficaria bagunçada.

De quando eu não tinha ideia de que me apaixonaria.

Eu serei odiado por Pilar. Talvez seja por isso que esteja doendo tanto; nunca mais a ver, beijar, sentir seu cheiro, ouvir sua risada e tocar seu corpo vai me ensandecer. Essa dor é diferente de tudo o que já senti. Ela não queima ou lateja, formiga ou espinha… Não! Ela é mais cruel. Ela pressiona o peito e não deixa respirar, dormir nem comer, ela agarra o coração e o esmaga entre os dedos, o faz sangrar atormentado, torturado, angustiado…

Ela me faz chorar desolado e arrependido por abandonar a melhor coisa que já tive na vida.



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A pré-venda do livro termina dia 23/12 - Será sua única chance de ter Zander e Pilar na sua estante. ;)




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