Sem Destino - capítulo 33



Pilar


Aperto as têmporas buscando aliviar esse pulsar constante na minha cabeça, tomei três tipos de analgésicos e a dor não passa. Mas como haveria de passar? Todos os dias é um problema novo, um conflito não resolvido, uma bomba que explode.

A bomba desta vez estava com sua explosão anunciada.

Como pude ser tão ingênua e acreditar que meu pai havia proposto uma trégua? Pietra foi mais perspicaz ao perceber que aquela conversa de “Zander é sempre bem-vindo” era uma mentira. Eu estava desesperada por uma resolução que abracei as palavras de Martim Castanheda sem nem duvidar.

Recosto na poltrona do meu quarto e fecho os olhos.

De um lado meu pai e do outro Zander. Eu queria alguém para desfazer essa confusão por mim e que Zander e eu pudéssemos ficar em paz. Queria alguém que me dissesse o quê e como fazer.

— Gertrudes! — Escuto meu pai chamar de seu quarto.

Abro os olhos e vou até ele que se deitou dizendo que estava assustado e precisava descansar. Ele saiu dizendo que foi salvo por Basílio, caso contrário, Zander o teria espancado. E mesmo eu o desmentindo as pessoas ao redor acreditaram em sua palavra.

— Está com dor?

— Oras, é claro que estou com dor — murmura, alongando o pescoço. — Tu não viste aquele gajo a me arrastar pelo colarinho? Logo eu que sou um homem simples da lavoura.

Solto um riso curto, sem acreditar no que ouço. Quando foi que meu pai se tornou dissimulado?

Ele me olha ao ouvir meu riso sarcástico.

— Marques o que vou te dizer, se encontrares aquele gajo outra vez… Esqueças que és minha filha, faça tuas malas e sumas desta casa.

Sinto minha cabeça pulsar ainda mais forte.

— Você começou essa confusão — digo, determinada.

— Sumas de minha vida. É isto o que tenho a te dizer. Se tu não queres enxergar a humilhação que teu pai sofreu, então que sumas daqui.

— Humilhação? E o que você fez com Suria, é o quê? Ela passa os dias em casa graças a você que espalhou esses boatos maldosos.

— Não são boatos? Tu nunca percebeste como ela me olhava?

— Você vai pedir desculpas a Zander e Suria. Vai desmentir o que disse por aí ou sua vontade será mesmo atendida, eu vou sumir da sua vida.

Ele estreita os olhos e me manda sair de seu quarto.

Sento-me nos fundos da casa e escondo meu rosto entre as mãos. Sinto que estou acuada num beco sem saída. Não sei o que fazer. Não sei como resolver. Não sei o que pensar. A pressão é tamanha que começo a chorar.

Alguém se senta ao meu lado e puxa minha mão. É Amara. Ela me abraça e afaga meus cabelos.

— Minha amiga, desculpe por não vir à festa. Quando Joaquim passou na loja e me contou o que aconteceu, fechei e vim correndo te ver. Que confusão foi essa?

Fico aninhada em seus braços vários minutos até parar de chorar.

— De repente, tudo começou a dar errado… — murmuro.

— Você já conversou com o Zander? — pergunta ela, de maneira branda.

Nego com a cabeça.

— Pilar… — Ela vacila, deixando-me inquieta. — Ele e Suria foram embora.

Encaro seu rosto processando o que ela acabara de dizer.

— Joaquim me contou que eles foram passar um tempo fora.

— O quê? Eu disse a ele que iria resolver e que a noite a gente se falava.

De repente, é como se o mundo ficasse em profundo silêncio, com todas as suas cores desaparecendo e se tornando frio e acinzentado. É como se eu estivesse vivendo em outra realidade, uma que me pune repetidamente por ações que não provoquei. Meus olhos embaçam e meu peito dói, o ar ao redor fica denso e difícil de respirar.

— Eu… ele… — As palavras não vêm, elas travam na garganta. Desvio o olhar para longe, segurando as lágrimas. Não quero chorar outra vez. Mas falho quando um grande buraco se abre no meu peito e toma proporções maiores do que posso suportar.

— Não chore! — Amara acarinha minhas costas.

— Ele… ele poderia…

Ela me abraça outra vez.

— Não dá nem para culpá-lo, amiga. Eu no lugar dele já teria desistido quando seu pai o expulsou da fazenda meses atrás. Tirando isso o que seu pai fez para Suria foi tão… — Amara para de falar.

Ergo a cabeça, a face molhada e as mãos trêmulas.

— Você ouviu alguma das senhoras que frequentam sua loja? Sabe como as mulheres estão repercutindo as sandices do meu pai?

Amara aperta os lábios.

— Diz.

— Tem poucos dias que ouvi de Dona Julia, ela contou que Suria se oferecia para seu pai de todos os jeitos. Disse que… — Amara respira fundo antes de continuar: — Suria o procurou no meio do olival e ficou nua para ele, que as mulheres da cidade deviam tomar conta de seus maridos porque Martim tinha resistido, mas outros poderiam não resistir.

— Meu pai enlouqueceu.

— Ele sempre foi assim, amiga.

— O que eu faço? — pergunto, furiosa e perdida.

— Espera a poeira baixar.


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