Sem Destino - Capítulo 34


Pilar




Pela janela vejo o sol nascer em mais uma noite mal dormida, os raios solares atrás das oliveiras as fazem brilhar. É lindo! Minha vontade é ficar deitada nesta cama contemplando o dia nascer e se pôr. Viver para sempre neste quarto tendo só a vista além da vidraça para me fazer companhia.

A porta do quarto se abre.

— A gente vai se atrasar se você não se levantar. — Pina e Pietra pulam na cama e me abraçam. Sorrio e corrijo meus pensamentos. Eu poderia viver para sempre neste quarto com a vista além da vidraça e minhas irmãs para me fazer companhia.

— Já vou me levantar — murmuro, desanimada.

— Você não dormiu outra vez? — questiona Pietra, analisando meu rosto.

— Dormi, mas acordei mais cedo — minto, afastando os lençóis. As gêmeas se entreolham, elas são espertas e farejam uma mentira a quilômetros de distância, convencê-las de que estou bem está cada vez mais complicado.

— Vão comer, encontro vocês na cozinha — digo, seguindo para o banheiro.

Lavo meu rosto com água fria para melhorar a aparência cansada, uso um pouco de blush nas bochechas e amarro meu cabelo. Analiso minha imagem no espelho, abro um sorriso e tento mantê-lo em meus lábios por alguns segundos, mas eles cedem.

Está difícil sorrir. Está difícil fingir.

— Bom dia — digo a Dona Gertrudes.

— Bons dias, miúda. Queres queijo fresco? Nilo mandou para nós.

Eu o ignoro e me sirvo de uma xícara de café e nem me sento para comer. Tem quinze dias que Zander foi embora com Suria, quinze dias que não nos falamos, e embora eu tenha vontade de ligar para ele a cada segundo do dia, não o fiz. Ele poderia ter me esperado, poderia ter me ligado, poderia ter me dito que…

— Vai passar o dia enfiada naquela fábrica de estômago vazio que eu sei. Madá me disse que não está comendo no refeitório. Veja como está magra! Olhe esses ossos? — Ela vem até mim e expõe os ossos aparentes da minha clavícula.

— Estás de dieta? Só podes estar para comeres menos que um pardal. — Abraço Dona Gertrudes para dissuadi-la das preocupações.

Antes de sair com as meninas, ouço meu pai dizer:

— Tu te lembras que Jonas vem a cá hoje? Ele, Nilo e Celine vêm jantar conosco.

Aperto os olhos e inspiro, antes de respondê-lo por sobre os ombros.

— Não estou com clima para jantares. Você pode recebê-los sem mim.

— Oras, tu não és sócia destas terras?

Dou alguns passos em sua direção, assistindo à crítica mordaz escorrer de suas palavras. Faz quinze dias que só falamos o essencial e nem isso tenho vontade de fazer.

— Estou errado? Não tens de estar presentes nas reuniões de negócios?

Eu o encaro em silêncio e pego uma ameixa da fruteira, saindo em seguida.

No carro, Pina e Pietra se sentam juntas no banco traseiro, coisa rara de acontecer. Elas cochicham, olhando o celular.

— O que estão vendo?

— Nada! — dizem em uníssono.

— Por que estão levando o celular?

— Hoje a professora deixou a gente tirar foto das maquetes que fizemos.

— E o que estavam cochichando? — persisto.

— Nada! — Pina esconde o aparelho na mochila, acionando meu radar.

Paro o carro e estico a mão para que me entregue o aparelho.

Contrariada, ela me entrega o celular, vasculho-o procurando o motivo de tanto mistério. As duas sabem que estou de sempre de olho para ter certeza de que estão consumindo conteúdo adequado para suas idades. No entanto, o que encontro me surpreende mais que qualquer conteúdo impróprio.

— Por que estão procurando por ele? — Leio o nome de Zander de todas as maneiras possíveis nos buscadores da internet. Zander militar, Zander engenheiro, Zander que não tem uma perna, Zander do exército, Zander, Zander, Zander.

Elas não me respondem.

— Vocês não podem…

— É porque o Zander foi embora que você não consegue dormir. Só íamos pedir para ele voltar e… nós também estamos com saudade da tia Suria.

Pulo para o banco traseiro.

— Não se preocupem, só estou cansada por causa do trabalho. Entendo que estejam com saudade, mas eles…

— Liga para ele! — implora Pina.

— Não posso.

— Por que não? — pergunta Pietra, insatisfeita.

— Não tenho o número dele.

— É mentira! — falam juntas.

— Não é mentira. Apaguei quando ele foi embora. Não lembro de cabeça — minto novamente, sei cada dígito dele e Suria de cor e salteado.

— A gente vai continuar procurando até achar. — Pina pega seu telefone e enfia na mochila.

— Pina… — começo.

— É tudo culpa sua e do papai! — grita, aborrecida.

— Por favor, vão desenhar, brincar, cantar ou sei lá, mas deixem os problemas dos adultos com os adultos. — Regresso para o banco do motorista. As duas emburram e mal se despedem quando as deixo na porta da escola. Encosto a cabeça no volante pensando em voltar para o meu quarto, trancar a porta e não mais sair de lá.

Em vez disso, dirijo para a casa de Suria. Estaciono e passo alguns minutos olhando para as janelas fechadas. Passo aqui todos os dias na esperança de Zander cruzar aquela porta e tudo voltar a ser como era. Apanho o telefone e digito seu número, porém não completo a chamada.

Faço isso tantas vezes por dia que acho que estou enlouquecendo.

Eu quero tanto ouvir a voz dele, tanto.

Jogo o telefone contra o banco.

Eu sei que meu pai não vai parar e pode prejudicá-los ainda mais. Já eu não posso abandonar a fazenda, muito menos Pina e Pietra. Eu tenho que continuar aqui, mesmo que esteja partindo meu coração ao meio. Limpo o rosto com o dorso da mão quando uma lágrima desliza, sabendo que meu pai é o responsável por eles não estarem aqui.





— Está péssima, amiga — Amara diz, resignada, assim que entro em sua loja.

— Estou bem — respondo, cruzando o balcão para me sentar na cadeira do caixa.

— Você mente tão mal, Pilar.

Ela vai até à cafeteira e me traz uma xícara de café. Sorvo o líquido em pequenos goles.

— Liga para ele? Não aguento te ver sofrendo desse jeito.

— Não posso.

— Que saco, Pilar!

Deixo a xícara de lado e miro seus olhos.

— Você acha que devo dizer o quê? Oi, Zander! Volte a viver aqui, viva comigo e seja atormentado pelo seu sogro todos os dias. É isso que devo fazer? Pelo amor de Deus, Amara! Que direito eu tenho de fazer isso com ele? Com Suria? Consegue imaginar como estava a vida dela para ir embora? Suria amava viver nesta cidade.

Amara desvia os olhos e suspira.

— Tem razão.

— Estou pensando no que fazer com meu pai? Eu já ameacei, briguei, gritei, tudo o que eu podia usando minhas palavras. E só não deixei aquela casa ainda, porque não quero fazer isso com as meninas. Não quero mudar a rotina delas abruptamente. Mas viver com ele está insuportável.

— Não estariam abandonadas, elas ficariam com o pai — Amara diz.

Cruzo os braços e inclino a cabeça.

— Você tem razão, elas ficariam em péssimas mãos. Não é justo que as pequenas paguem.

— Eu passo todas as noites em claro criando esquemas para que tudo volte a ser como antes. Eu não consigo dormir nem comer direito. Estou enlouquecendo por não poder vê-lo de novo.





Depois do banho, coloco um vestido qualquer. Não há razão para me arrumar só porque vamos arrendar parte da fazenda do Nilo. É um processo tão corriqueiro que não entendi a formalidade do jantar proposto.

— Eles chegaram! — Pina e Pietra entram no meu quarto usando um de seus melhores vestidos.

— Por que estão usando o vestido da festa de Natal?

— O papai mandou trocar o que estávamos por um melhor. Então pegamos esses — diz Pietra, passando a mão pela peça de saia rodada estampada com moranguinhos.

— Papai vai querer que você se troque também — assinala Pina, ao ver minha roupa comum.

— Ele vai ficar querendo.

Encontramos todos sentados à mesa. Celine se levanta e sorri.

— Como está linda, Pilar.

Agradeço e estendo a mão para cumprimentar Jonas e Nilo.

— Pedi a Gertrudes para preparar a bacalhoada que tu gostas, Nilo. Vais lamber os beiços hoje. — Meu pai se gaba, abrindo uma garrafa do nosso vinho tinto pinot noir. Ele serve uma taça para cada e para as meninas, suco de uva. — Estou feliz que estão a cá para fechar essa parceria!

Todos erguem suas bebidas com exceção de Jonas e eu.

— Muito bom, Martim! Uma boa pedida para acompanhar essa bacalhoada.

— Tu sabes que só abro meus vinhos para pessoas que estimo. Tu e tua família são merecedores.

Jonas morde um lábio e baixa a cabeça. Ele parece tão incomodado quanto eu. Não há razão de brindes e desse clima comemorativo para o arrendamento de poucos hectares de terra.

Começamos a comer. Pina e Pietra, famintas, mastigam sem dar atenção a ninguém. Nilo e meu pai conversam animados sobre assuntos superficiais. Celine e Jonas estão mais quietos, assim como eu.

— Pilar, a produção anda a todo vapor, não é? Seu pai disse que estão com encomenda de azeite para vários estados. — Nilo pesquisa entre uma mastigada e outra.

— Sim.

— Jonas está aprendendo tudo sobre olivicultura, em breve vai se tornar um especialista tão bom quanto você. Estava até pensando nele trabalhar com você um tempo. O que acha, Martim?

Jonas sorve a taça de vinho de uma só vez. Celine percebe a impaciência do filho e toca seu braço.

— Oras, está é uma notícia muito boa. Jonas, tu és bem-vindo às minhas terras.

— Você gosta de lidar com plantação, Jonas? — pergunto, curiosa.

— Jonas está se empenhado. — Nilo atravessa, respondendo por seu filho.

— É, eu acho que estou. — Inquieto, Jonas passa as mãos pelos cachos escuros de seu cabelo.

— Tem certeza de que quer entrar nesse ramo? Lembro de quando éramos mais novos e você detestava o fato de morarmos em fazendas. Sempre dizia que iria se mudar para um lugar onde ninguém dormisse e as luzes nunca se apagassem. Achei que iria para Nova Iorque ou um lugar parecido.

Ele sorri.

— É verdade — concorda, um ar saudoso e mais parecido com quem ele é de fato.

— Por que entrar para a olivicultura? — persisto.

Tem alguma coisa acontecendo, conheço Jonas desde pequena e, apesar de não sermos melhores amigos, sempre foi claro que agricultura não era a sua praia.

Ele relança sobre Nilo. O pai o encara com um olhar austero.

— Vai aprender a gostar. Não é, Jonas? — analisa Nilo.

Jonas acena com a cabeça, o sorriso desfeito.

— Não tenhas dúvidas de que estes dois vão se dar bem. Tu vais ver, Nilo.

Desconfio da insistência em colocar Jonas para trabalhar comigo, ele será um estagiário ou o quê? Jonas é formado em fotografia e além do mais, não iria se casar e mudar?

Jonas me olha de maneira profunda e desesperada, como se tivesse um grito de socorro preso na garganta, como se fosse um aprisionado em busca de liberdade, como se tivesse mãos e pés acorrentados pelo pai — seu algoz.

Será que é desta mesma maneira que eu olho para ele? Será que é por isso que entendo o que seu olhar clama? Por que o meu clama a mesma coisa? Sou eu uma prisioneira do meu próprio pai?

— Não tenho tempo para ensiná-lo. Jonas não está de casamento marcado? Não está, Jonas?

— O que está miúda estas a dizer? — Meu pai bate a mão na mesa, irritado.

— Não está, Jonas? — prossigo, sem me acanhar com o súbito destempero do meu pai.

Pouco a pouco o sorriso de Jonas volta a tomar conta de todo o seu rosto.

— Estou. — Ele repete as palavras com entusiasmo, para lembrar a si.

Sorrindo, nos entreolhamos.

— Não vou trabalhar com Pilar na fazenda — Jonas afirma, ficando de pé.

— Vai fazer o que eu disser ou viver desses trocados que ganha tirando essas fotos ridículas? — Nilo perde totalmente a compostura e se levanta ficando de frente para o filho.

— Qualquer trocado é melhor que viver sob seu jugo — responde, afrontando o pai. E então o som do tapa no rosto de Jonas ressoa pela sala. As meninas levam as mãos à boca, chocadas com a cena.

Jonas solta um riso abafado e passa a mão pela face esbofeteada.

— Qualquer trocado é melhor que viver sob seu jugo — Jonas repete. Desta vez, com confiança a centímetros de seu pai.

Ele se vira para mim e continua:

— Ele quer que eu venha trabalhar com você na esperança de que fiquemos juntos, que viremos um casal e no futuro juntemos nossas fazendas. Esse é o plano ridículo do meu pai para me afastar da Isis e, ao que parece, é o plano do seu pai também.

Essa é a coisa mais insana que já ouvi, nunca Jonas e eu teríamos algo além de amizade.

— Celine! — Espero que ela me dê uma explicação que desminta essa loucura.

Em vez disso, baixa a cabeça deixando claro que as palavras do filho são verídicas.

— Meninas, vão para o quarto. — Pina e Pietra saem apressadas.

Caminho até meu pai, ainda sentado à cabeceira da mesa.

— Sinto pena de vocês por acharem que podem nos controlar como marionetes. Não somos brinquedos. Não pertencemos a vocês. Somos pessoas livres. Como podem ser tão baixos?

Viro-me para Nilo e avanço:

— Vou ficar feliz em emprestar dinheiro para Jonas se casar e começar a vida em outro lugar. Ao menos um de nós terá a chance de ser feliz longe de vocês.

— Cala-te, Pilar! — Meu pai bate na mesa outra vez, ainda mais forte, tentando nos acuar.

— Vá atrás da Isis, Jonas! Não estou brincando! Vou te dar o dinheiro para ser feliz longe dele. — Aponto com o queixo para Nilo.

— Martim! — Nilo cobra atitude de meu pai.

— Enlouquecestes? Tu não podes dizer o que bem pensas deste jeito. Estás desequilibrada? — Ele me segura pelo braço e me afasta de Nilo.

— Eu só não vou embora e faço o mesmo que Jonas porque não vou deixar para trás a fazenda pela qual eu — bato no peito — tanto lutei, muito menos vou deixar minhas irmãs sozinhas com você.

— Vamos embora! Vamos embora! — implora Celine, puxando Jonas.

— Não me interessas o que tu fizeste por estas terras, não me interessas quantos anos tens e nem quanto dinheiro tu podes dar por aí. Sou teu pai e sereis até minha morte.

— Pois saibas tu, Martim Castanheda, que és exatamente este o dia que estou a esperar. O de tua morte — exponho, usando seu sotaque para expressar meu sentimento mais obscuro.

E nesse instante recebo a mesma prenda de Jonas, uma bofetada que deixa meu rosto ardendo. Ofego, furiosa, enquanto lágrimas revoltas embaçam minha visão. Pego a chave do meu carro e saio deixando todos.





As lágrimas jorram sem refreio enquanto dirijo sem destino pelas estradas da região. Na verdade, sei exatamente para qual destino quero ir. E é por saber e não poder ir que fico tão frustrada.

A dor, a agonia, a ansiedade, a decepção, a desilusão… se juntaram e passaram a fazer parte do meu cotidiano. Elas são como um leão faminto proibido de comer. E quanto mais seguro essa fera, mais ela ruge e me rasga por dentro.

Ela me sangra e fere com tanta perversidade que em breve não sobrará nada de mim.

Bato contra o volante, descarregando toda a raiva causada por meu pai.


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