Sem Destino - capítulo 35


Martim



A mulher mira-me de esguelha com ares de irritação.

— O que tens? Por que me olhas assim, só perguntei de Pilar?

— Pergunta de Pilar sabendo que a coitadinha está no quarto com uma dor de cabeça que não passa e quer que eu olhe como?

— Oras, achas que sei de tudo que se passa com essas miúdas?

— Não é o pai delas?

— O que deu em ti? Nunca falastes desta maneira. Quem pensas que és?

Ela se aproxima da pia e começa a lavar a louça a fazer mais barulho que o comum.

— Mas o que está a acontecer a cá? De onde tiraste tanta braveza? Deves estar brigada com João para um mau humor destes.

Deixo-a de lado e me sento para tomar minha bica. Estava até agora a vistoriar as oliveiras da ala sul e quase não tive tempo de respirar. Gertrudes solta uma panela com força e se senta à minha frente, a mulher tira o pano dos ombros e o bate contra a mesa.

— Que é isto? Comporte-se, mulher! — Assusto-me, a mulher nunca foi disto.

— Escute o que vou dizer, velho turrão. Que Nossa Senhora da Piedade me perdoe se eu blasfemar, mas vou dizer mesmo assim. Eu torço que fique sozinho no meio dessas árvores que tanto gosta, que fique abandonado e sem nenhuma de suas filhas.

— Como ousas dizer uma tolice destas. — Eu a encaro, atordoado.

— Tolice é o que faz com sua filha. Tolice é o que fez com Zander e Suria. Eu te conheço há uns trinta anos, homem. Como os anos te deixaram tão ruim? Não sente remorso?

— Maneires teu linguajar — alerto-a.

Como um bicho feroz, Gertrudes ergue o dedo em minha direção.

— Você tirou Zander da obra e não ficou contente, teve que futricar por aí que o rapaz não faz um bom trabalho e ainda teve a doidice de dizer que Suria queria se deitar no mato com você. Como pode ser tão sem-vergonha? E agora quer que o menino Jonas namore Pilar? Minha Nossa Senhora da Piedade não dá conta do tanto de pedido que faço para ela regular seu juízo e parar de criar tanta intriga.

— Esta história de Jonas não partiu de mim.

— Mas concordou, não foi? A coitadinha da Pilar não tem um dia de paz com você azucrinando a vida dela. Pina e Pietra estão lá tentando consolar a irmã.

Solto uma lufada. Estou a pecar por querer o melhor para minha primogênita? Jonas é um rapaz bonito, apessoado e de bom porte, além de ser filho de Nilo que estimo e confio.

— Não enxerga que sua filha está adoecendo? Não vê que Pilar não é a mesma de antes. Essa menina está perdendo a alegria de viver. Está definhando diante dos nossos olhos. Homem de Deus, tenha senso e veja o mal que está fazendo para sua filha.

Deixo minha bica de lado, levanto-me e visto meu chapéu, cansado desta conversa.

— Pares com estas baboseiras. Tomes conta do teu serviço e me deixes quieto.

— Deixe Pilar namorar o sobrinho de Suria em paz — diz ela, antes de eu sair da cozinha.

— O que disseste? — Viro-me para Gertrudes, perplexo com sua ousadia.

— Deixe essa menina ser feliz do jeito que ela quiser. Pare de inventar mentiras.

— Ouças aqui, mulher. Se tu quiseres manter teu emprego, pare. Não é porque me conheces há trinta anos e eras amiga de minha mulher que vou pensar duas vezes em te dispensar.

Determinada, ela passa as mãos pelo avental e me encara sem medo.

— Já se esqueceu do que você e Flora passaram? Não vê que está fazendo com Zander e Pilar a mesma coisa que seu pai fez com Flora?

Estou com o coração a falhar uma batida quando ela levanta o nome de minha amada em vão. Como pode comparar minha doce Flora com este gajo? Flora era perfeita, sua voz era como uma sinfonia, seu corpo uma escultura renascentista, sua personalidade carinhosa um afago em nossas vidas.

— Como tens coragem de profanar a memória de minha esposa ao colocá-la no mesmo nível daquele gajo? Estas passando de todos os limites — rosno, aproximando-me.

Gertrudes tira seu avental colocando-o sobre a mesa.

— Pode me mandar embora. Mas você está fazendo a mesma coisa que seu pai. Ela era simples como Zander e Suria são, mas não foi isso que o Senhor Castanheda viu. Ele viu a mulher sem era nem beira atrás do filho herdeiro e fez a coitadinha sofrer com humilhações de todo tipo. Não consigo nem contar as vezes que consolei Flora. Não venha dizer que não se lembra, porque eu ajudei Flora a fazer a mala quando propôs a ela fugir para se casarem.

— Pois saibas que tentei de tudo para fazê-los perceber que minha Flora era…

Ela me interrompe sem receio.

— Vá agora e dê uma boa olhada na sua filha. Verá Flora deitada naquela cama.

— Deixes de disparate — falo, tonto e aturdido, ao lembrar deste passado doloroso de minha pequena flor de jasmim. Ela era tão boa, nunca mereceu as ofensas de meu pai.

Deixo Gertrudes e sigo para meu quarto. Mas, ao passar pela porta de Pilar, ouço minhas miúdas a conversar. Com a orelha na porta, paro para escutá-las.

— Por favor, Pilar. A gente promete que nunca mais vai te desobedecer. Para de chorar.

— Não estou chorando. Só estou cansada.

— Está chorando, sim! — Pina diz, manhosa.

— A culpa é do nosso pai. Ele é o culpado por isso. — Assombro-me ao ouvir a dureza na voz de Pietra. — Odeio que ele seja tão intolerante, odeio que não respeite a Pilar, odeio que não respeite o Zander. Eu o odeio.

— Não fale assim. — Ouço Pilar pedir à irmã.

Sobressaltado, encaro o chão. O que essa rapariguinha[1] está a dizer? Como pode odiar o próprio pai? Abro a porta para confrontá-las. As pequenas se calam, porém, é minha Pilar quem me chama atenção.

Ela tem o rosto inchado, os olhos vermelhos e os cabelos soltos assim como a mãe. Talvez seja esta conversa descabida de Gertrudes, mas, de fato, minha miúda tem a aparência da mãe, bonita como ela, jovial como ela, feliz como ela. No entanto, com o rosto tomado de lágrimas o que vejo é minha Flora a chorar na colina, a dizer que o melhor era nos separarmos antes de eu decidir que deveríamos fugir para nos casar.

Meu coração se aperta ao recordar do dia que achei que nunca mais veria meu amor.

Apressado, bato a porta e corro para meu quarto. Sento-me na cama com o retrato de Flora e eu em nosso casamento. Ela estava a usar um vestido de um tecido que se movia suave com o vento, em seus cabelos um arranjo de flores brancas e miudinhas, delicadas como ela. No retrato, Flora está a me olhar cheia de amor, cheia de vida. Era o dia mais feliz de nossas vidas, o dia em que jurei meu amor eterno a ela e estavas a ter a certeza de que minha flor de jasmim envelheceria ao meu lado.

— Sinto tua falta. Queria que tu estivesses comigo, queria que tu viste tuas filhas a crescer. Queria que tu viste como Pilar é afrontosa do jeito que tu eras quando eu fazia algo errado. Ela tem tanto de ti…

Baixo o retrato e fecho os olhos.

— Será que estou a fazer o mesmo que meu pai? Será que é verdade que um fruto não cai longe do pé? Será que sou um fruto ruim e que estou a fazer mal a minha miúda?

Levanto-me e volto ao quarto de Pilar.

— Deixem-me falar com tua irmã — peço a Pina e Pietra que saem fazendo careta. O que Pilar tem de doce e paciente essas rapariguinhas têm de atentadas.

— O que quer? — Ela se senta na cama, evitando me olhar.

— Por que não fostes para a fábrica?

Pilar se volta para mim e lufa aborrecida.

— Eu sei das minhas responsabilidades, não preciso que venha me dizer.

— Acalma-te!

— O que você quer?

Mostro a ela a foto da mãe e eu. Ela segura o retrato e sorri.

— Te pareces com tua mãe. Não só na aparência, também neste jeito atrevido.

— Aonde quer chegar? — questiona, devolvendo-me o retrato.

— Quanto tu chegaste às nossas vidas, Flora me fez prometer que eu seria o melhor pai deste mundo, que te protegeria não importando quantos anos tu tiveste. É o que estou a fazer.

Pilar ironiza e se levanta.

— Foi Nilo quem me trouxe esta ideia de Jonas e tu namorarem. Jonas nunca me passou pela cabeça, mas confesso que achei uma boa saída para tu esqueceres de vez aquele gajo e…

Ela me olha furiosa quando cito o engenheiro.

— Será que nem no meu quarto você pode me respeitar?

— Tu gostas dele tanto assim? — Minha miúda cerra os lábios, assim como a mãe fazia quando estava a sofrer por algo. Será que estou mesmo a fazer o que meu pai fez comigo?

[1] Em Portugal: Meninas pequenas

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