Sem Destino - capítulo 36


Zander - 4 meses depois




De sua poltrona Camile me observa com seriedade, seus olhos não se movem em nenhuma outra direção que não seja meu rosto. Ela ouve atentamente o que digo sem parar para anotar em sua caderneta. Desta vez, fechada em seu colo. Isso me deixa um pouco apreensivo, prefiro quando ela para a cada par de minutos para escrever suas conclusões a me ponderar com tanto interesse.

— Talvez a oposição do pai não tenha a ver somente com você — diz ela.

— As palavras exatas foram: tu não tens porte para estar nesta família.

— E o que você acha?

— O que eu já disse.

— O que você acha sobre você? Acredita ter o porte que o pai almeja?

Seu questionamento me desorienta.

— Você precisa entender que durante a vida todos nós seremos desafiados. Seja por um pai com claras intenções superprotetoras, seja por um superior hierárquico, seja por um cliente ou por um novo projeto. Às vezes, as palavras serão duras como a deste pai, às vezes leves ou subentendidas. De qualquer forma, você precisa acreditar em quem você é. Só assim, ninguém o levará a duvidar de si.

— Não duvido de… — Suspiro, baixando a cabeça. — Eu tentei não me deixar levar, mas em alguns momentos foi difícil.

— É sempre difícil quando apontam em nós aquilo que nós mesmos duvidamos. Você acredita que não ter uma perna o faz inferior aos outros. Alguém diz isso e está aí a validação negativa que vai alimentar seus traumas. Aceitar a sua condição como definitiva e não duvidar de si, é o único remédio.

— Parece tão fácil quando fala.

— Não é fácil. Mas não é melhor que viver sofrendo a falta de Pilar e da vida que abandonou?

— Eu não a abandonei! Fui obrigado porque… — Vacilo, sem saber o que dizer.

— Entendo que agressões verbais podem ter abalado expressivamente seu estado psicológico e emocional. Ainda assim, mesmo que fosse um caminho difícil de pisar poderia ter tentado a conciliação.

Discordo com um meneio.

— Você não entende, Camile. Não havia e não há chance de conciliação! — exprimo, inflamado. — Não havia e não há — afirmo outra vez, baixando minha voz a um murmúrio desamparado.

Camile silencia e me espera.

— Podemos falar de outra coisa? — peço, alguns minutos depois.

— Como está se saindo com os novos remédios?

— Durmo melhor — digo sem animação.

— Teve outras crises dolorosas neste último mês?

— Não sinto dor há dois meses. O neurologista me disse que é provável que não sinta mais se continuar com os remédios e a terapia.

Tive que lidar com crises severas de dor assim que voltei. Semanas infernais e difíceis de suportar, tudo que eu queria era que a dor desaparecesse. Meus pais que ainda não haviam presenciado nenhum desses quadros ficaram atormentados e aflitos. O tratamento multimodal, além dos opioides e antidepressivos, foi o que me trouxe alívio.

— Nosso tempo está acabando. Nos vemos na próxima semana? — Concordo e me despeço.

Avisto minha mãe na saída do prédio. Ela me espera mesmo que eu tenha pedido para não fazer. Não preciso que me leve e busque dos lugares como fazia antes. Dou um jeito de me locomover pela cidade, seja de táxi, ônibus, metrô…

— Por que está aqui? — pergunto, parando ao seu lado. Ela abre um largo sorriso antes de me dar um tapa no braço. — Por que estou apanhando? O que eu fiz?

— Nós havíamos combinado de irmos juntos. Mas saiu de casa na surdina, não é?

— Irmos juntos? — E então recordo de que semana passada combinamos de ir até a concessionária pegar meu carro. — Eu esqueci que queria ir comigo, mãe.

Finalmente, estou apto a dirigir. Concluí as aulas para pessoas com deficiência e comprei um carro adaptado. Era uma das últimas etapas para viver como os outros, fazer o que os outros fazem.

Ela me dá uma carona até a loja e demonstra animação ao ver o carro.

— É lindo, filho! E qual é a diferença? — Ela abre a porta para verificar as adaptações.

— Não tem embreagem e o acelerador fica à esquerda.

— Então você não pode usar sua prótese para dirigir? — pergunta.

— Ainda não. — O órgão regulador de trânsito não me concedeu habilitação para dirigir com a prótese, embora eu esteja muito mais habituado a ela. Por isso, devo usar minha perna esquerda para o controle da aceleração do carro.

— Entra! Quero tirar uma foto — diz ela, tirando o telefone da bolsa.

— Mãe, por favor.

— Não pode impedir uma mãe de tirar uma foto de seu próprio filho. — Ela ignora meu constrangimento e me obriga a sentar para fotografar o carro e a mim.

Dirijo pela cidade até em casa. No começo é estranho, mas logo o veículo e eu nos entendemos e conduzo sem maiores problemas. Em casa, meu pai e tia Suria esperam e comemoram ao me ver. Estaciono com tranquilidade e respiro aliviado ao notar que mais uma barreira foi superada.

— Vou tomar um banho — digo a eles que seguem para a cozinha depois de muito festejo.

No chuveiro, penso em Pilar e no desejo de dividir a notícia de que voltei a dirigir.

Eu poderia ir até ela e…

Poderia…

Afasto o pensamento.

De que adianta pensar nela? Eu preciso esquecê-la. Preciso superar.

Saio do quarto para comer alguma coisa, antes de chegar à cozinha ouço tia Suria dizer:

— Ela é linda, educada, destemida… É uma mulher encantadora.

— Eu nem tive a chance de ver a garota. Quando achei que passaria um tempo em Maria da Fé para conhecer minha nora… Vocês voltam de mala e cuia. Acha que Zander ainda gosta dela? — minha mãe sussurra a última pergunta.

Encostado na parede do corredor, continuo a ouvi-las:

— É claro que, sim. Está estampado na cara dele a falta que sente de Pilar.

— E ela? Será que gosta dele?

— Tenho certeza de que sim. E tenho certeza de que eles ainda ficarão juntos.

— E você, minha irmã? Não quer mais voltar?

— Vou voltar em breve. Não quis deixar Zander com vocês naquela situação, mas nosso menino é forte e está sem dores e já até dirige o próprio carro.

Sinto-me culpado e grato por tudo que minha tia faz por mim e meus pais. Eu virei sua vida do avesso e mesmo assim ela está aqui. Não sei se teria aguentado as primeiras semanas sem seu apoio.

Regresso ao quarto e me sento na cama.

No celular procuro a única foto que tenho com Pilar. Estamos sentados na areia, sua pele quente e dourada brilha iluminada pelo sol. Ela tem areia no cabelo e sorri expondo todos os dentes, extravasando a alegria que estava sentindo. Aquele foi um dos dias mais alegres que vivi.

Quando será que vou olhar essa foto e não me martirizar por ter dado errado?

Quando será que vou superar e aceitar que nunca mais a verei?

Guardo o celular e encaro as chaves do meu carro à medida que mais um pensamento surge com a pergunta: Eu realmente devo superar?


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