Sem Destino - Epílogo



Zander - 6 anos depois



Os raios de sol entram no quarto e alcançam a face de Pilar que ressona tranquila. Com cuidado afasto os fios que caem por seu rosto. Ela é linda. Sou um cara sortudo por ter encontrado essa mulher depois de tudo o que me aconteceu. Sortudo por ela ter me aceitado com meus defeitos e qualidades, sortudo por ter o privilégio de beijar sua boca todos os dias.

Ela se mexe na cama e lentamente abre os olhos.

— Você está me olhando dormir de novo? — pergunta, sonolenta.

— É um problema?

— Se você não dorme, sim.

— Eu durmo, mas acordo antes. Então uso meu tempo para te olhar e pensar como sou sortudo.

Ela sorri e me abraça.

— Você é mesmo um homem de sorte.

— Foi o que eu disse.

— Não queria me levantar, queria ficar aqui o dia todo — diz ela, preguiçosa. Um segundo depois seu telefone começa a tocar. Passo o braço por cima dela e alcanço o aparelho.

— Pina — digo, entregando-lhe o celular.

— Por que está ligando do seu quarto? — De olhos fechados, Pilar ouve as demandas da irmã. — Pina é sua décima quinta festa de aniversário, acho que tenho alguma experiência no assunto. — Pilar desliga o telefone e afasta os lençóis para se levantar.

— Ela está ansiosa, não é? — Pina adora festas, mas está especialmente empolgada com esta.

— Essa garota já repetiu as mesmas coisas tantas vezes que minha cabeça está doendo. Preparo festas para as duas desde que nasceram, não sei a razão de tanta preocupação.

— 15 anos é uma data marcante.

Pilar começa a se vestir.

— Com certeza está sendo bem marcante. Nunca vou me esquecer do trabalho que estou tendo — reclama, abotoando seus jeans. — Não vai se levantar? — questiona quando continuo na cama.

— Preciso ir até à fazenda da Catarina. Temos que resolver algumas coisas.

— É verdade, você me disse ontem de manhã, mas esqueci. Essas meninas estão consumindo até minha memória. — Ela se inclina e me beija suavemente. — Não demora, preciso da sua ajuda — completa, saindo apressada do quarto.

Sento-me na cama para vestir minha prótese e começar o dia. Vesti-la se tornou tão natural que é como vestir uma peça de roupa. Lembro de quando Camile disse que chegaria o momento em que eu me esqueceria da amputação e me sentiria completo, quando me aceitaria outra vez.

Não sei dizer exatamente o momento em que isso aconteceu, mas aconteceu.

Talvez tenha sido quando a dor sumiu, ou quando comecei a marchar com a prótese como se tivesse as duas pernas. Ou quem sabe a chave virou quando, enfim, compreendi e recebi a minha condição como definitiva e parei de duvidar de mim. Quando parei de me enxergar como inferior e aprendi a focar naquilo que eu ainda poderia ter.

Entro no carro e dirijo até a fazenda de Catarina. A fazenda Mendes e Villa Oliva juntas representam a força da olivicultura regional. Embora regional não seja mais a palavra certa para representá-las já que exportam azeite para três países, além de abastecer fortemente o mercado nacional.

Entro no escritório de Catarina e a encontro distraída admirando sua plantação pela janela. Dou duas batidas na mesa de carvalho tirando-a da contemplação.

— Você chegou — diz, virando-se.

— Estava admirando suas oliveiras? — pergunto, abrindo o projeto sobre a mesa.

— É uma coisa que não me canso de fazer. — Ela se senta e ajeita os óculos para começarmos a discutir as alterações. Trabalho com Catarina há anos e é sempre um prazer ser chamado de novo. Significa que suas terras não param de prosperar. Além dela, meu escritório de engenharia atende a maioria das fazendas da região.

— Vai à festa das gêmeas? — pesquiso, guardando meu material após todas as decisões.

— É claro! Como acreditar que aquelas meninas estão com quinze anos?

— Pois é, elas cresceram bem rápido.

Despeço-me de Catarina e resolvo passar na minha tia e ver se precisa de ajuda. Ainda que Pilar tenha contratado fotógrafo, DJ, buffet e uma empresa para decorar a festa. Tia Suria insistiu que a mesa do bolo, dos convidados e o corredor por onde as meninas vão entrar fossem enfeitados com as flores que cultiva em seu jardim.

— Que bom que veio. Leve essas caixas para a fazenda. — Ela aponta para duas caixas grandes com laços vermelhos no canto da sala. — Meu carro está cheio de flores e não cabe mais nada.

— O que é isso?

— É o presente das meninas, mas não deixe que vejam.

— E o que é? — investigo, curioso.

— Para Pietra um telescópio astronômico refrator e para Pina uma bicicleta ultra de aço carbono.

Ela foi generosa e certeira nos presentes. Pietra está cada vez mais enveredada para a ciência enquanto Pina para os esportes. Pina ganhou o juvenil regional de handebol da escola ano passado, além de entrar para a turma de mountain bike.

Pietra participa do clube de ciência e astronomia criado pela Universidade Federal do Oeste para jovens do ensino médio. Ela tem os olhos nas estrelas e vai a encontros mensais para discutir as descobertas e interesses astronômicos.

— Elas vão adorar.

Coloco as caixas no baú da minha caminhonete.

— Diga para Pilar que vou durante à tarde ajudar a arrumar as meninas e enfeitar as mesas — fala, apressada, com um vestido verde nas mãos e os cabelos cheios de rolinhos para fazer cachos.

Chego na fazenda e percebo que, pela movimentação, Pilar tem razão. Hoje o dia será de fato marcante. A equipe de decoração organiza o gramado em frente à sede com: pista de dança, equipamentos de som, mesas, cadeiras e varais de luzes por todos os lados.

Paro nos fundos e entro desviando do pessoal do buffet que prepara uma estrutura anexa a cozinha para prover a comida da festa. Dona Gertrudes comanda com pulso forte os intrusos de sua cozinha enquanto reclama que poderia dar conta de tudo com Madá. Pilar tenta convencê-la pela décima vez na semana que ela é convidada e não vai trabalhar, mas a mulher é turrona e ignora Pilar.

Dona Gertrudes é quem mantém os costumes desta casa, mesmo depois de se casar com o João da colheita e ele pedir para ela descansar e parar. Diz que só abandonará Villa Oliva quando seus braços e pernas perderem as forças.

— Precisam de ajuda — pergunto a Pilar, tentando apaziguar a discussão.

— Zander, diga à sua esposa que nenhuma comida feita nesses fogões fajutos será melhor que a minha e de Madá.

— Marido, diga a teimosa Dona Gertrudes que é para ela aproveitar a festa mesmo com fome.

— Eu acho que não precisam da minha ajuda. — Saio da cozinha e as deixo no embate.

Encontro Pina no corredor e ela me puxa para seu quarto.

— Zander, olha nossos vestidos — ela aponta para as peças de tecido com muitas camadas, como aqueles dos filmes de princesas. — Esse é da Pietra e esse é o meu. — O dela é azul-claro com pequenas flores amarelas bordadas e lembra a primavera. O de Pietra é de um azul-escuro com pontos brilhantes e lembra um céu estrelado. É perfeito para elas.

— São lindos! Mas Pietra disse que não era para eu ver os vestidos antes da festa.

— Sim, ela disse — responde, sorrindo maleficamente. — Acontece que eu falei que se ela não me deixasse dançar primeiro com o Rafinha eu mostraria os vestidos para você.

Fecho os olhos um instante. Não consigo me acostumar com essa nova fase e esse interesse por garotos. Elas são apenas crianças para mim e estão há semanas nessa confusão de: Pina gosta de Rafinha, que gosta de Pietra que gosta de Ítalo e que no caso não virá à festa porque está viajando com os pais.

— Se eu ouvir o nome Rafinha outra vez quem vai dançar com ele sou eu. E é bom você fingir que eu nunca vi esses vestidos, caso contrário, Rafinha pode nem chegar à festa e o problema de quem dança com quem estará resolvido. — Pina arregala os olhos e me empurra para fora e fecha a porta antes que Pietra nos veja.

Começo a rir no corredor, mas me assusto quando Pietra surge carregando um porta-terno.

— O que está fazendo em frente ao meu quarto? — pergunta, de esguelha.

— Eu? Nada! Só estava… indo ao meu — respondo, escapando por pouco.

Ela aceita minha resposta um tanto desconfiada e me entrega o terno.

— Vista para ver se precisa de algum ajuste de última hora. É a roupa que vai usar na nossa dança.

Não entendo as formalidades das festas de debutantes, mas a principal dança é feita sempre com o pai, é a dança que abre a noite, a mais importante. Quando gêmeas, a que nasceu primeiro dança primeiro enquanto a outra espera.

Martim faleceu há dois anos, então Pina e Pietra decidiram que dançariam comigo.

Provo o traje de frente para o espelho. Ajusto o colarinho e a gravata borboleta, no bolso um lenço azul-marinho com pontos prateados iguais ao vestido de Pietra.

Confesso que dançar não é uma das minhas habilidades, mas ser estimado ao ponto de me concederem a primeira dança como pai delas me enche de orgulho e me faz sentir ainda mais especial na vida dessas duas garotas que o destino me ensinou a amar.

— Cadê o compadre? — Ouço Joaquim perguntar para Pilar assim que chego à sala cheia de caixas e pessoas. A casa está uma loucura.

— Estou aqui — respondo, tomando de seus braços sua nova filha e minha afilhada. A pequena Maitê de dez meses é a idealização de bebê fofo com seus olhos redondos e seus cachos castanhos. Ela tira os dedos cheios de saliva da boca para sorrir exibindo seus primeiros dentes.

— Vem dar um beijo na madrinha. — Pilar tira Maitê de mim e enche o pescoço da garotinha de beijos estalados que a fazem gargalhar.

— Passei para saber se precisam de ajuda, mas pela quantidade de gente trabalhando vejo que não precisam de mais ninguém. A festa vai ser de arrasar mesmo!

— A única coisa que quero é você, Madá e as meninas se divertindo muito hoje à noite.

Alguém chama Pilar e ela me devolve Maitê que agarra minha barba balbuciando palavras, ainda incompreensíveis para mim.

— Então vou preparar minha beca fina para essa noite. — Ele pega a filha de volta que resmunga querendo continuar em meus braços.

Aceno me despedindo de Maitê. Tiro o telefone do bolso e ligo para minha mãe. Meus pais disseram que chegariam cedo, mas até agora não deram sinal.

— Oi, mãe! Está aonde?

— Seu pai errou a entrada da cidade, estamos fazendo o retorno na rodovia. Vamos direto para o chalé descarregar o carro.

— Não vão ficar no chalé, vão ficar aqui em casa.

— Por quê? Eu adoro aquela casinha.

Minha mãe sempre disse que não viveria num lugar pacato como Maria da Fé. Mas, a cada nova visita, ela e meu pai estendem a permanência. Desta vez, vão ficar por dois meses na cidade.

— Fui prepará-lo e notei um vazamento, tivemos que tirar todo assoalho.

— Que pena, gosto tanto daquela casinha!

— Não se preocupe, reparo na próxima semana. Vão poder aproveitá-la até irem embora.

De repente, um estouro na frente chama a atenção de todos. Corro para fora e um dos varais de luz sobre a pista de dança estourou. O pessoal da montagem recolhe os estilhaços e nos tranquiliza dizendo que está tudo sob controle.

Pilar se aproxima e me abraça, ela apoia a cabeça no meu peito e arfa.

— Já estou cansada.

— Por que não se deita por uma hora? Não precisa ficar em cima de cada coisa.

— Amanhã. Amanhã vou ficar na cama o dia inteiro, quero filmes, pipoca e sorvete — responde, beijando meus lábios. — Ei, essas mesas precisam ficar mais afastadas. — Ela sai para conduzir a posição das mesas dos convidados.

Minha tia chega e eu a ajudo a descarregar o carro e alocar os arranjos florais que montou.

— A mesa do bolo ficou um deslumbre. Não vejo a hora das meninas tirarem fotos aqui — ela admira seu trabalho decorativo. A mistura de flores e cores combinam com o ar rústico da fazenda.

Enfim, meus pais chegam e descarregam à bagagem.

— Não me sinto confortável invadindo a privacidade de vocês — reclama minha mãe, abrindo sua mala. — Acho melhor ficar com Suria até a casinha estar pronta.

— Não está invadindo nada, Pilar adora vocês e ficará aqui só por uma semana.

— Sogra! — Pilar aos berros assim que vê minha mãe. — Por que não avisou que ela já tinha chegado? — ela rezinga comigo, agarrada a minha mãe.

— Eles chegaram não faz meia hora — justifico.

— Estava com saudade, sogra. E do sogro também — fala, puxando meu pai para si que ruboriza envergonhado. — Quando vão aceitar vir morar de vez aqui na fazenda?

— Eu adoro Villa Oliva, mas não estou pronta para me mudar, gosto do agito da cidade grande.

— Quando enjoarem do agito, venham viver aqui — reforça Pilar.





A música lenta começa a tocar, as luzes brilham e o aroma floral se espalha e faz desta noite fresca e estrelada a noite perfeita para comemorar os quinze anos de Pina e Pietra. Os convidados começam a chegar, alguns se sentam e outros passeiam entre as mesas em conversas animadas. Tem algumas horas que Pina, Pietra e Pilar estão trancadas no quarto com minha mãe e tia Suria se preparando para a grande entrada.

Alguns minutos se passam e Pilar desponta, ela caminha usando um longo vestido vermelho com alças finas e um decote profundo, os cabelos presos no alto da cabeça deixam seu colo e pescoço à mostra. Ela está estonteante. Não consigo desviar meus olhos.

— O que foi? — pesquisa quando chega em mim.

— Tem alguma noção de como está linda?

Ela sorri, acanhada.

— Você também está lindo de gravata borboleta.

— Está zombando de mim, Pilar Castanheda Sabala?

— É claro que não, Zander Sabala. Estou constatando um fato, o senhor está realmente sedutor nesse terno. — Pilar se aproxima e me beija de leve, tomando cuidado para não borrar seu batom. Seu perfume me inebria, laço sua cintura trazendo-a mais perto.

— Não vejo a hora de tirar esse vestido.

— Eu também — sussurra. — Antes temos muita coisa para fazer — diz, afastando-se um passo.

Saímos para cumprimentar todo mundo, inclusive os amigos das gêmeas agitados à espera delas. Pilar escolheu um cardápio regional que combina com o clima interiorano e satisfaz o paladar dos presentes que podem comer até se fartarem. As bebidas são variadas e atendem desde os adolescentes com drinks de frutas não alcoólicos até os mais velhos com batidas, licores, vinhos e uísque.

— Está gostando da comida? Achei que não iria comer? — Pilar pergunta para Dona Gertrudes num tom irônico. Ela divide a mesa com o João, Miguel, Joaquim e Madá.

Ela mastiga apressada e ergue um dedo.

— Não está de todo mal, mas já comi melhores — responde, desvaindo o olhar.

— Ela está mentindo — interfere Madá. — Agorinha mesmo disse que está ótima e que é bom comer uma comida diferente de vez em quando.

— Eu? — Dona Gertrudes leva a mão ao peito, indignada com a amiga que a dedura.

Pilar a encara de braços cruzados e sorri.

— É mesmo? Vou pedir para montarem uma quentinha. A senhora pode comer com João o resto da semana. O que acha?

— Vou gostar, está muito bom — responde João, levando um tapa no ombro. — Mulher, pare de pirraça. Está bom mesmo.

— Cadê as crianças? — Pilar pergunta a Madá quando só vê Maitê.

— Estão com os outros da escola. — Ela aponta para a mesa dos estudantes.

— É verdade, acabei de falar com elas. Estou tão ansiosa que estou fora de órbita. — Vou falar com a Amara, ela acabou de chegar — diz Pilar, saindo em direção a amiga que se senta com Braga, seu marido e o filho Théo.

— Amiga, está tudo tão lindo. Estou chocada como essa empresa conseguiu transformar a fazenda numa festa chique dessas. — Amara se levanta e abraça Pilar enquanto eu cumprimento Braga. — Parece até que estou naquelas festas de jardim dos filmes americanos.

— Ficou incrível mesmo — responde Pilar, olhando ao redor.

Braga puxa assunto sobre um novo financiamento do banco em que é gerente de conta e tenta a todo custo me convencer a fazer. Amara dispara um olhar assassino para o marido.

— Eu não acredito que está falando de financiamento numa festa, Braga? Pelo amor de Deus! Eles se casaram um pouco antes de Pilar e eu, juntos têm Théo de 4 anos, o garoto mais travesso que já vi. Pilar começa a rir e se senta.

— Desculpa, cara. É força do hábito — diz ele, desinibido.

Sentamo-nos com eles e o garçom nos serve. Pilar, inquieta, mal toca na comida.

— As gêmeas comeram? — pergunto, preocupado que elas ainda estejam de estômago vazio.

— Sim, um pouco. Antes de eu sair do quarto.

— E aí, já decidiram quando vão ter um filho? — Amara sonda, cruzando as mãos sob o queixo.

— Criei minhas irmãs como filhas desde o dia que nasceram. Não me fale em bebês, eu tive duas.

— Mas e Zander? Ele pode querer um filho — diz, encarando-me. Antes de Pilar nunca pensei em ter um filho, depois dela pensei algumas vezes. Não é uma necessidade, não estou desesperado para ser pai, embora me sinta pai das gêmeas. Por agora, Pina e Pietra são suficientes para meu coração.

— Se um dia quisermos um filho vamos decidir juntos — Pilar responde, sorrindo para mim.

— É isso — digo, concordando.

Ela desvia de mim e se volta para a amiga outra vez.

— Em vez de discutir a maternidade da vida alheia, porque não corre ali e dá uma olhada em Théo. Tem uns cinco minutos que ele está arrancando e comendo a grama. — Amara afasta a cadeira e sai correndo atrás do filho. Começamos a rir com o garoto cheio de grama na boca.





Pilar se levanta e diz que está na hora.

— Espere as meninas na pista. Elas vão entrar e andar pelo caminho de pétalas até você. Dance primeiro com Pina do jeito que ensaiaram, depois com Pietra.

— Pode deixar, não vou errar.

Ela segura meu rosto entre as mãos e me direciona seu olhar mais apaixonado.

— Obrigada, obrigada por tudo o que faz por mim. Eu te amo. Eu te amo por quem você é, eu te amo por você me amar e eu te amo por você amar minhas irmãs tanto quanto eu.

Eu deveria estar acostumado a ouvi-la falar assim, mas todas as vezes em que repete que me ama é como se fosse a primeira vez. Meu coração acelera, minhas pernas fraquejam, minha voz esvaece.

Eu a beijo docemente, depositando em seus lábios meus sentimentos amadurecidos, depositando todo amor que sinto por ela.

Sigo para o centro da pista. Nervoso, espero pelas gêmeas. A música é calma e suave. Elas surgem e caminham pelo corredor criado por entre as mesas, o chão forrado de pétalas.

Estão lindas, são como duas princesas, iguais as dos contos infantis.

Elas abrem um imenso sorriso quando seus amigos começam a assoviar e gritar seus nomes. Eu sorrio também, não tem como conter a alegria assistindo-as tão felizes. Quando chegam e me veem, Pietra aponta com o queixo para Pina vir até mim e dançar primeiro.

Então a valsa inicia. Deslizo meus pés elegantemente pela pista conduzindo essas jovens garotas tão brilhantes quanto as estrelas ou o sol. Elas sorriem e giram e dançam e riem e exprimem toda a beleza e alegria que existe nelas.

A música dura poucos minutos, mas é como se toda uma vida passasse diante de nós. É uma nova emoção, algo que não sei nomear, apenas sentir. Esse é o tanto que aprendi a amar essas meninas.

Pietra sussurra um “obrigada” em meu ouvido. Lembro da garotinha que se sentou comigo depois de ganhar um patinete e se tornou minha primeira amiga nesta cidade. Aquela que sempre tem algo interessante a dizer e que muitas vezes é a mais adulta e esperta de nós.

— Sou eu quem agradeço por você ter sido minha primeira amiga.

Ela sorri e me abraça.

Saio da pista e seus amigos tomam meu lugar.

— Foi lindo! — Pilar diz a mim.

De repente, a música se torna agitada e os jovens dançam eufóricos.

— Não sei se estou pronto para ver esses garotos tão perto delas — constato, quando noto Pina dançando com o bendito Rafinha e Pietra com o de cabelo arrepiado que não recordo o nome.

— Elas têm quinze anos, podem dançar com quem quiserem — Pilar diz após uma gargalhada. Ela me puxa para a mesa mais distante.

— Como pode dizer quinze anos como se fosse trinta anos? Eu, com quinze não estava nem aí para garotas.

— Porque não sua época as coisas eram diferentes.

— Como assim na minha época?

Ela serve uma dose de licor para ela e outra para mim.

— Não percebeu os fios brancos nascendo na sua barba? — Ela analisa os fios com atenção indicando os que estão perdendo a cor natural.

Seguro seu queixo.

— Você está especialmente engraçadinha hoje, não é?

Pilar morde o lábio de maneira sensual, de um jeito que me enlouquece sempre. Não resisto e sem me preocupar com seu batom a beijo com vontade. Ela não cede, pelo contrário, me recebe com entusiasmo até darmos conta de que estamos em público, no meio de uma festa.

— Eu te amo — murmuro.

Lembro do dia em que minha mente era uma tormenta, uma tempestade que devastava todos os meus pensamentos e anseios, um céu negro e carregado de desgosto, vergonha e menosprezo. De um tempo onde eu não sabia para aonde ir e nem o que fazer. Um homem sem destino, confuso e perdido.

No entanto, minha mente desanuviou, a tormenta cessou, as rajadas se tornaram um sopro suave e quente como uma brisa de verão e, exatamente, como li num livro uma vez. Eu não cheguei onde eu planejei ir. Cheguei, sem querer, aonde meu coração queria chegar, sem que eu o soubesse.



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Obrigada a você que acompanhou essa jornada comigo, mais uma história chega ao fim. Sem Destino me enche de orgulho, Zander e Pilar estarão para sempre no meu coração.







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